Quando a Falta Faz Falta

É como sentir o cheiro da morte quando as palavras faltam. Sobretudo quando, além de dar vazão as inquietações, são elas que colocam comida na mesa. É sob essa luz que a irritação vem. Provocante. Ela aperta o coração, cutuca com agulhas todo o corpo mas, ao mesmo tempo, é um fantasma. De punhos serrados não há um alvo real para acertar. E nisso a irritação segue retroalimentada.

Os óculos perdem sua função porquê os olhos já não são mais os mesmos há muitos anos. Tudo sai de foco. Perde-se cor e vivacidade. Tudo opaco. Cinza. Grey, como diria a famosa autora de romances de gosto duvidoso pseudo eróticos.

O cachorro, companheiro de insônias, se torna um promotor. Os olhos que inspiravam são acusadores e um debate surdo acontece entre latidos estridentes. O descontrole vai tomando conta e, aos poucos, começa fazer vítimas ao redor.

Faz frio e falta vinho. A ira flerta com a autocomiseração e todos se tornam inimigos. Os rascunhos do romance lotam a lixeira do computador por conta de um acesso de raiva. A vontade é de destruir peça por peça da máquina. Mas o desanimo impede a loucura. Nada de bom sobra quando são os extremos que impedem a ação.

No espairecer, entre uma notícia e outra do jornal, a morte de um jovem no bairro de classe média chama atenção. Um outro menino vítima do confronto entre polícia e trafico fora do estado vem numa sequência sadicamente óbvia. E uma miserável esperança nasce na história de uma criança resgatada de escombros provocados por um bombardeio em um país em guerra do outro lado do mundo. Uma guerra que ninguém liga mas que todos são culpados.

O ódio começa ganhar forma. É como um ácido corroendo por dentro. Não consegue escrever sobre. Chora. Lamenta. Mas não escreve. Uma paralisia provocada por algum motivo não aparente. Não lhe falta inspiração. Tem tanta vida e tanta morte acontecendo que conclui ter sido amaldiçoado. Só lhe resta o grito e palavrões.

As contas empilhadas no canto da mesa são o castigo do silêncio. Provas de um crime sob investigação com uma grande peculiaridade. A vítima, o criminoso e o investigador dividem o mesmo corpo.

A madrugada se aproxima e falta de barulho da digitação enfatiza o ruído dos ponteiros do relógio. A cada segundo que passa já não pode culpar mais ninguém por tirar sua atenção, apesar de saber que sua auto imersão o havia deslocado do tempo e espaço. O dia passara e não percebera.

Se lembra do celular, pega-o e repara algumas ligações perdidas e um punhado de mensagens. Na lista de chamadas há números desconhecidos, seu agente, a garota com quem saíra algumas vezes e seu pai. Agradece por não ter percebido nenhum das ligações. Não queria ouvir mais ninguém. Já tinha vozes demais com que lidar. Todas elas acusatórias na sua cabeça.

Sabia, ainda sim, que não estava louco. O racional que percebe sua irracionalidade não sofre de insanidade. Mas de falta de continuidade. É como um capítulo interrompido que deixa dúvidas, curiosidades e ausências. Imagine-se no teatro de Romeu e Julieta em que eles não morressem, não se casassem e, ao se apaixonarem, ficassem estáticos. Aquele incomodo tomando conta da plateia, olhares furtivos de incompreensão, cochichos aqui e ali, adrenalina subindo e, de repente, as cortinas se fecham, as luzes são acesas, os atores agradecem e encerram ali a peça. Ficaria por conta de cada um a devida interpretação, uma análise, uma versão do porquê daquela mísera encenação. As ofensas dividiriam espaço com as palmas. E, provavelmente, as únicas pessoas que entenderiam aquilo seriam aquelas que se permitissem dizer – “Não entendi!”.

Laxante Para Alma

Não costumo medir palavras. Na verdade, sempre falo um pouco além da conta. Sou mestre em falar em momentos inoportunos. E, infelizmente, guardar silêncio quando deveria gritar. Mas me valendo de uma analogia proposta por Rubem Alves, minha mente é constantemente masturbada por muitas histórias. Observo e absorvo demais. O que, por fim, me causa um certo tipo de “ereção precoce textual” (Deus abençoe os neologismos).
Refletindo algumas situações ocorridas ao longo da vida, penso ter alimentado muitos porcos com pérolas. E, com certeza, tudo o que já comi de Bacon nesses anos não devem ter compensado isso.
Mas eis que não me arrependo. A sensação é de que escrevo e fico mais pobre. Continuar a ler

Por Uma Prática Cristã Que Nos Permita Cagar em Paz em Louvor a Deus!

Há uma oração matinal judaica que diz o seguinte:

“Bendito Sejas, nosso Deus, Soberano do Universo, que moldastes os seres humanos com sapiência e criaste neles muitas aberturas e cavidades. É óbvio e conhecido, diante do Teu Trono de Glória, que basta apenas que uma delas se rompa, ou que uma delas fique bloqueada, para tornar-se impossível sobreviver e estar diante de Ti, que curas toda a carne e ages através de atos maravilhosos.”
Na tradição rabínica, compreender o conceito de receber, e poder vivenciá-lo, é uma arte sagrada a ser exercitada e aperfeiçoada por toda vida.
O ser humano tem um relacionamento mais do que vital com a alimentação. Quantas vezes não descontamos nossas frustrações ou celebramos nossas vitórias através da comida, mesmo não estando, necessariamente, com fome.
Eis porquê muitos rabinos tratam da obesidade menos no sentido de magro/gordo e mais como leve/pesado.
Segundo o Rabino Nilton Bonder, “uma antiga lenda sobre a geografia da terra de Canaã compara seus dois mares, o mar da Galiléia, abundante em peixes e vida, e o mar morto, um caldo de matéria sem vestígio algum de vida, e pergunta qual a razão desta diferença. A respostas, explica-se, encontra-se no fato de no mar da Galiléia receber através do rios o resultado do descongelamento das neves do maciço de Golan, mas também deixar flui de si as águas do rio Jordão, que terminam no mar Morto. Este, porém, não as deixa seguir. Não sabe receber e estabelecer uma relação com a natureza ou com o universo. Se experimentamos o recebimento como um fenômeno unilateral, que se limita a algo que nos é dado, separamo-nos gradativamente da troca que, em última instância, representa vida”.
E não é assim nosso processo digestivo? Alimentar-se sem a possibilidade de expelir os dejetos pode, literalmente, nos matar. A boca e o anus são extremidades do mesmo processo. Continuar a ler

Segredo de Estado

Um produto essencial da repressão nos tempos da Ditadura Militar no Brasil, negociado a preço de ouro na chamada “abertura democrática”, e que garantiu o sucesso total do DOI-Codi na repressão, torturas e mortes, entre 1969 e 1991, quando a relação entre a polícia e exército se desfez – mas que manteve a Polícia Militar – foi o SEGREDO de Estado. O AI-5, a censura plena, foi primordial para isso.
Para o jornalista Marcelo Godoy “é como se o segredo fosse o derradeiro poder dessa comunidade. Abrir mão dele é como dar adeus às armas”.
É preciso sempre relembrar e afirmar – A ditadura no Brasil nunca deixou de existir. E não digo isso como figura de linguagem, mas como fato. Ela negociou a anistia, manteve seus segredos e se metamorfoseou em Estado Democrático. Basta olhar para velhos políticos ainda no poder e sua relação com o período ditatorial – nem é preciso evocar Bolsonaro e suas bestialidades, mas lembremos Marina Silva homenageando Jarbas Passarinho, um dos chanceleres do AI-5.
A Polícia Militar e sua letalidade, também chancelada por boa parte da sociedade brasileira, está aí para não me deixar mentir. Percebe como a história é cíclica?
Referenciando Hannah Arendt, nas palavras de Kucinski, “O jornalismo tem mais a ver com a derrubada dos segredos do poder do que com a informação dos fatos contingentes, sujeita a interpretações e lacunas testemunhais”. Parece que, infelizmente os colegas de profissão e, mais triste ainda, os aspirantes a ela tem perdido essa dimensão de vista que, como a história comprova, é questão de vida e morte.

Bônus: a foto anexa é a primeira página do livro “A Casa da Vovó” do jornalista Marcelo Godoy. O livro conta a história do DOI-Codi usando testemunho de agentes que trabalharam lá. Muitos deles foram ‘repreendidos’ diretamente por Brilhante Ustra para que mantivessem o segredo guardado.

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A partir da onde os pés pisam

O bairro onde moro em Jundiaí surgiu como um conjunto habitacional ao estilo COHAB, com várias casinhas iguais. Pelo fácil acesso a estrada velha para São Paulo, a Rodovia Anhanguera, população de baixa renda e estar numa região esquecida pela prefeitura, logo o tráfico tomou conta e junto dele uma silenciosa guerra fria com os traficantes do meu antigo bairro, que fica a cerca de 4 km de distância e compartilha das mesmas características, só que mais isolado – quase na zona rural – mas bem desenvolvido, funcionando como pequena cidade independente.
Quase não havia violência entre os rivais. Mas as ameaças eram constantes. As raras brigas que aconteciam se davam do outro lado da cidade, ao redor do principal shopping, onde numa determinada época havia grandes arrastões para roubar os ‘playboy’. Quando as gangues se encontravam, o clima fechava. Deixei de ser roubado e apanhar de uma renca de moleques uma vez porque um dos líderes do bando estudava na minha classe. Com um olhar mais crítico, era tudo muito amador, mas para um moleque sem muita experiência de vida, criado na igreja, foi um tanto quanto assustador – e um aprendizado também.
Alguns anos mais tarde o PCC tomou conta de tudo e o tráfico se unificou, transformando Jundiaí, inclusive, numa das sedes financeiras da organização.
Hoje, meu atual bairro é bem desenvolvido e diverso. Há das casas mais simples até algumas mansões. É um local cheio de idosos e a questão das drogas acaba acontecendo de forma velada em alguns estabelecimentos de fachada. Há, inclusive, um local perto de casa e quase sempre estão ouvindo louvor ou rap cristão. Chega ser engraçado.
Algo fora do padrão em Jundiaí é que, aqui, há poucos bares e raríssimas igrejas evangélicas. Mas são várias as pizzarias, duas igrejas católicas grandes, para um bairro pequeno e moro atrás de um convento. Infelizmente, esse ano não consegui participar das festas juninas.
No escândalo da merenda, que também atingiu Jundiaí, num bairro vizinho, mas bem perto de casa, foi apreendido uma quantidade enorme de alimentos em uma churrascaria antiga na cidade. Alimentos esses que deveriam ser distribuídos nas escolas estaduais. Uma semana depois, a tradicional churrascaria fechou e ninguém sabe dos donos.
Não ouço falar de casos de violência e roubo na região. Mas, vez por outra, a polícia está estourando alguns desses locais de fachada – presenciei de longe um caso hoje à tarde onde encontraram produtos de contrabando.
Acho que pouquíssimas pessoas aqui no bairro se dão conta de tudo isso.
Meu pai sai pra trabalhar quase todo dia 4:30 da madrugada e é estranho como me forço à preocupação pelo horário mas, ao mesmo tempo, por entender a dinâmica do bairro fico em paz por ele.
Por que estou contando tudo isso?IMG_20160727_181406 Toda vez no fim da tarde que sento no banco da praça pra ver o cidade no horizonte e o pôr do sol (foto), me pego pensando – por conta das leituras sobre segurança pública – em como as violências, mesmo que simbólicas, são intrínsecas ao nosso cotidiano – o que não deveria ser. Ou, pelo menos, não deveríamos nos conformar com tal coisa.
E esse é o momento de uma reflexão e uma oração silenciosa em favor da minha família, mas também por aqueles que cruzaram a linha da criminalidade. Acredito que mais do que acumular informações sobre o local onde vivemos é preciso sinalizar possibilidades de mudança. Não sei como exatamente. Mas tô aqui escrevendo e pensando.

Divagações sobre a Saudade, a Língua e as Arte.

Um dos álbuns que mais tenho ouvindo nos últimos dias se chama “Saudade” da banda norte americana I/O. O trabalho foi lançado em 2014 e, na verdade, é o único registro deles até então. É um álbum de post-rock instrumental belíssimo (ouça aqui https://youtu.be/TqapUf9J9PI). Na descrição, a banda diz o seguinte:

“I/O acredita que a experiência humana pode ser muito bela e grotesca, inspiradora e abominável, reconfortante e traumática para se colocar em palavras.”

A empresa britânica Today Translations promoveu uma listagem das palavras mais difíceis de traduzir adequadamente, onde “Saudade” ocupou o sétimo lugar. As palavras que mais se assemelham são “Hiraeth”, do galês, e געגועים (pronuncia-se “Ga’agu’im”), do hebraico, com uma conotação textualmente semelhante. Existe a palavra “tęsknota”, em polonês, mas que falha por só ser aplicada a pessoas apaixonadas e há, ainda, a palavra galega “morriña”, mas que se concentra em, basicamente, sentir falta de casa.

O Chino Moreno do Deftones montou mais um super grupo com membros do Bad Brains e do Cro-Mags chamado, adivinhem só, Saudade (ouça aqui https://bundles.bittorrent.com/bundles/saudade). A música de divulgação também se chama Saudade.

O último álbum do duo Thievery Corporation (EUA), lançado em 2014, se chama Saudade (ouça aqui https://youtu.be/W0CBzKfvA80). E é um baita trabalho de “neo bossa nova”, se é que isso existe. Só ouvindo pra entender.

A questão é que há uma infinidade de trabalhos artísticos – e olha que nem fui para literatura – que evocam essa palavra difícil de entender até pra nós mesmos. Normalmente, utilizamos ela pra dizer algo indizível que fica remoendo no peito.

É importante dizer que saudade não é falta. Falta é uma palavra e saudade é outra. E por confundir as duas, elas se perdem no nosso dia a dia. Percebo isso quando pessoas de outras línguas acabam se apropriando dela a fim demonstrar algo que sua própria língua não permite.

Somos o único país de língua portuguesa materna na America Latina e isso, infelizmente, nos afastou de nossos vizinhos em muitos sentidos. Apesar de haver um início movimento dentro do Brasil de “orgulho latino”. Se, nas minhas observâncias, somos vira-latas em relação a América do Norte e Europa, nos sentimos o dono da coleira na America Latina.

Uma pena, já que a diversidade cultural e linguística da nossa região teria um efeito arrebatador na nossa cultura se fosse intencionalmente aplicada. É algo que nos faz falta, mas justo as falta de abertura para diálogo não nos permite a saudade.

Para Sempre

Tive de seguir viagem no pensamento. Não aguentava mais uma palavra se quer. Ela falava de si cheia de histórias e de vazios desconcertantes. Nem conto de fadas parecia tão irreal.

Não lembro detalhes daquela noite. Eram os primeiros dias de fevereiro. Sei que garoava. Alguns amigos haviam me convidado para sair, mas eu tinha algumas questões para resolver. Desci a ruazinha paralela à sua casa e esperei. Estava cinco minutos adiantado. Me recostei na árvore do outro lado da rua, no escuro, para não chamar atenção.

Ela apareceu. Estava animada. Parecia uma criança com um brinquedo novo. Segui no seu ritmo a fim de tentar aliviar a tensão do que imaginava ser a conversa.

O tempo passava e parecíamos estar numa conversa daquelas de ponto de ônibus. Divaguei. Não lembro de quase nada. Talvez não quisesse prestar atenção. Achei que haveria alguma coisa de “nós” naquela conversa. Mas era só ela. Confesso a birra.

A volta da garoa me fez despertar do limbo. Percebi pressa na leitura do corpo. Instantaneamente disse “é isso. Eu só queria te ver”. E assim, foi.

Inquieto, voltei no outro dia. A casa estava vazia. A porta aberta revelava a falta de móveis e um senhor desconhecido varria um dos cômodos.

Ela Tinha ido. Sem deixar contato. Sem um endereço. Sem um abraço.

Queria me ver para nunca mais ver.