Conte Histórias

Procure conhecer boas biografias.

Por exemplo: o porteiro do seu prédio, o carteiro, a manicure. Cabeleireiros sempre tem boas historias.

Faça uma pesquisa sobre orçamento familiar com a senhora que limpa sua casa duas vezes por semana, normalmente, passando quatro ou cinco horas diárias dentro do transporte publico.

Questione sobre o sentido da vida àquele senhor que esta sempre no bar perto da sua casa pra tomar um Rabo de Galo.

Conheça o padre da paroquia e o questione sobre sua decisão de torna-se seminarista. Pergunte ao pastor que visita, principalmente, os fieis mais idosos que não podem se locomover, o porque de perder – ou ganhar – tempo com eles.

Arrume uma gripe e vá para o posto de saúde as 6:00 da manha conversar com mães que estão tentando consulta para si mesmas ou para os filhos.

Visite a escola que você estudou e surpreenda-se em ver aquela professora que você tanto detestava ainda devotando sua vida ao ensino de outras gerações.

Pergunte a historia dos seus pais. Não a versão oficial, mas aquela que os torna tão confusos quanto você em relação a vida. Pergunte de suas vitorias e arrependimentos.

Questione sobre o amor aquela sua vizinha velha rabugenta.
Finja fazer um censo e pergunte coisas que ela não imaginaria ouvir.

Deseje bom dia a todos os estranhos que passarem perto de você e aguarde uma resposta.

Pergunte aquele senhor ou senhora que vive há muito tempo sozinho se você pode abraça-lo. Não diga mais nada, só preste atenção ao seu rosto.

Olhe no espelho e fale a seu respeito para si mesmo. Preste atenção aos seus olhos e pergunte-se sobre o que é real, o que é plano, sonho ou mentira.

Passe a maior parte do tempo ouvindo.

Respire. E conte as histórias.

Vislumbres da infância

Vi esse garoto de uns 12 anos entrar no ônibus. Estava com uma mochila surrada nas costas, sujo da cabeça aos pés, camiseta furada, chinelo com correias de duas cores e calça uns dois números maior amarrada com cadarço.
Pagou a passagem, enfrentou de forma imponente o olhar de todos e sentou ao lado de uma bela menina.
Vibrei por dentro.
Lembrei do grande fora que tomei do meu primeiro amor escolar.
“Ah não! Você só anda com roupa furada“.
Doeu na hora.
Mas agora, de longe, penso que tive uma infância bem vivida.
E, graças a Deus, pouca coisa mudou. Inclusive as roupas.

Cristo e o Funk

No trem, voltando pra casa, um casal de irmãos na faixa dos 18 anos cantando música evangélica. Ao lado, a mãe, feliz, ouvindo e orando.

Na próxima estação entra a galera vendendo balas Fini e bala de coco. A mãe pede pros filhos esperarem um pouco pra não atrapalhar as vendas dos trabalhadores. No vagão, a lábia do vendedor vale ouro. Se fizer rir o cliente com as rimas, contos, cordel ou o que for, a venda é quase garantida.

Chegando perto da última estação, um dos ambulantes pede pros irmãos continuarem com os hinos. Ele senta do lado, prestando atenção e começa um beat box no ritmo do louvor – tchu tcha tcha tchu tcha… Outros no fundo do trem, acanhados, começam cantar junto as musicas de vitória. Satanás humilhado. Funk santificado.

A cantoria termina com a mãe rindo mais alto que os cantantes por achar engraçado o funk no louvor.

Mais um dia no cotidiano suburbano.

Relatos de um racista em recuperação

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu…

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Perder Alguém

As vezes me perguntam e eu nunca sei muito explicar como é lidar com a ausência de alguém essencial na nossa vida. São 4 anos que vi minha mãe pela última vez.
Ela descobriu a doença uma semana antes do Natal de 2011. E aí já não existiu mais Natal e Ano Novo. Nenhuma promessa fazia sentido.
Dez meses depois ela se foi.
Em algum momento a doença entra na rotina da familia. Na ultima vez que ela foi pro hospital com uma crise, era um domingo de manhã e eu tava chegando de uma balada. Minha irmã tava saindo com carro pra leva-la.
Me senti tão lixo com o fato de estar me divertindo a noite inteira e ela sem conseguir pregar o olho.
Cerca de um ou dois meses antes eu tinha terminado um namoro/casamento bem conturbado. Tava lidando com um acúmulo de dívidas por conta de um longo período desempregado e uma baixa auto-estima que era um repelente natural de pessoas.
Mas quando lacraram o caixão, nada mais fazia sentido. Nenhum dos meus problemas tinha peso. Pelo simples fato de não ter a pessoa com quem mais dividia essas crises.
Não tinha mais o café dela.
Quando a gente perde alguém assim todos os cravos da vida se tornam penitências. A gente é exposto a nossa impotência e humanidade.
Pensamos em todos os momentos que deveríamos estar e não estávamos. Você pensa que deveria ter mais dinheiro pra oferecer tudo o que tivesse ao alcance da prata. Você repensa todas as discussões e o quanto gostaria de triplicar o número de pedidos de perdão e voltar no tempo para dar um tapa em si mesmo afim de baixar a bola.
A morte, principalmente, de alguém enraizado em você é pedagógica. E com um certo distanciamento você acaba entendendo que a vida só tem sentido porque ela é uma doença terminal.
A falta nos amadurece. Percebe que os espaços vazios da sentido ao que preenche o coração. Se não nossa alma se torna um eterno quarto da bagunça, cheio de coisas irrelevantes.
Digo isso porque sou esse ser cheio de vazios e incompletude. Cheio de saudades que apaziguam as minhas maldades.
É difícil como uma cena clássica do cinema, colocar um piano num apartamento sem elevador. Pela janela. Com ajuda. Correndo o risco dele cair e se espatifar no chão.
Mas a música, ah a música, um contínuo milagre.

Mãe

Não pretendia escrever nada a respeito, apesar de ter feito nos últimos três anos.
É uma data importante, mas a gente nunca teve apego.
Chega uma hora que ninguém mais quer ouvir a respeito, mesmo pessoas próximas. E eu entendo elas, de verdade.
O que resta é deitar na cama, apagar a luz pra ninguém ver e chorar de mansinho.
Como disse, não planejei escrever nada. Mas em algum momento as palavras começaram a vazar de mim, fui perdendo o controle, tremendo por dentro, e aqui estou. Desculpa!
Não quero te desejar feliz aniversário, mãe.
Não faz sentido. Passou. Seu tempo aqui se foi e acredito que esteja muito feliz por isso.
Eu só queria desaguar mesmo. Abrir um pouquinho as comportas peito.
Dizer que tenho um monte de coisa pra te contar.
Tenho uma lista de perguntas pra fazer.
Saudade do seu sorriso, seja em que situação for.
Sinto falta do seu café. Do cafuné.
Tô com saudade.
Daquelas bem doidas. Doloridas.
Que não cabe em palavras.
Tô meio sem foco. Desconexo. Com partes faltando.
Mas juro que tô indo. Tô seguindo em frente.
Sou meio teimoso e cabeça dura ainda.
Mas vai dar certo, mãe.
A gente é daquele tipo que não desiste, né?
Uma hora te conto tudo, com calma. Sem embargar a voz.
Tô aqui, ouvindo a Elis cantar você.
“Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”
Até mais. Te amo muito.

A Luz

Calou-se.

Não deixou que nenhum som saísse de sua boca. Não permitiu ao coração outra função que não fosse bombear sangue.

Desacelerou.

Uma parada cardíaca pelo bem das feridas expostas. Para que não sangrassem nunca mais.

Se voltou para dentro. Parou a respiração para que nenhum som ensurdecesse. Largou a minha mão. Não queria sentir mais o suor dos dedos entrelaçados.

Fechou os olhos para não distrair a atenção. Queria somente enxergar o caminho. Tateou a parede até o interruptor. Tudo o que era artificial, inclusive a luz, se foi. Já não existia mais.

De repente, um grito de dor. Chorou. Um choro aberto de criança. E meio sem entender, percebi.

Ela havia acabado de dar à luz a si.