Alter Egos e Estilhaços

Aos poucos o cérebro decifrava os meus olhos.
A bomba explodiu antes do previsto. Nisso, o verdadeiro alvo permaneceu ileso. Mas crianças, mães e trabalhadores deixaram partes do corpo espalhados no chão.
O estrondo surdo no ouvido dos que estavam por perto não permitia o senso de localização.
Para onde correr? Se esconder?
Um vácuo preenchido de poeira.
Demorou mais de um minuto para o primeiro grito de socorro ser ouvido – abafado, rouco, entre o desespero e a lágrima.
Quem gritava não sabia o por quê. Não sentia dor. Somente lidava com o tremor do corpo. Adrenalina cumprindo seu papel. Mas nada entendia.
Sentiu medo ao perceber vários vultos correndo em sua direção. Palavras inauditas pareciam ser vociferadas. Se sentia culpado de ser vítima. Olhara nos olhos de Medusa e sua pele se tornara pedra. Mas por dentro tudo era terremoto.
Tentou se levantar e, na mesma hora, fora jogado de costas para o chão com violência. Ainda ouvia os berros que não compreendia. Sentia alguém violando seu corpo.
A segunda bomba explodiu e me arremessou para a realidade. Onde diabos tinha ido parar meu braço e minha perna esquerda?
Aos poucos a dor foi chegando junto dos palavrões. Vislumbrou uma mulher tentando ajudar. Parecia ser paramédica ou algo que o valha. Ela apertava abruptamente meu membro superior e inferior. Só então percebi o tanto de sangue no chão e o torniquete improvisado.
Caralho.
Desmaiou. Acordei. E não sabia precisar o tempo do apagão. Continuava entre escombros, mortos, sangue e partes do corpo que não eram seus. Meus. Não saberia dizer.
A calma só chegou em forma de morfina. Metamorfoseado dormiu o sonho dos justos.
Teria de esperar o jornal da próxima manhã para saber. Se era autor ou simples personagem.

Quando a Falta Faz Falta

É como sentir o cheiro da morte quando as palavras faltam. Sobretudo quando, além de dar vazão as inquietações, são elas que colocam comida na mesa. É sob essa luz que a irritação vem. Provocante. Ela aperta o coração, cutuca com agulhas todo o corpo mas, ao mesmo tempo, é um fantasma. De punhos serrados não há um alvo real para acertar. E nisso a irritação segue retroalimentada.

Os óculos perdem sua função porquê os olhos já não são mais os mesmos há muitos anos. Tudo sai de foco. Perde-se cor e vivacidade. Tudo opaco. Cinza. Grey, como diria a famosa autora de romances de gosto duvidoso pseudo eróticos.

O cachorro, companheiro de insônias, se torna um promotor. Os olhos que inspiravam são acusadores e um debate surdo acontece entre latidos estridentes. O descontrole vai tomando conta e, aos poucos, começa fazer vítimas ao redor.

Faz frio e falta vinho. A ira flerta com a autocomiseração e todos se tornam inimigos. Os rascunhos do romance lotam a lixeira do computador por conta de um acesso de raiva. A vontade é de destruir peça por peça da máquina. Mas o desanimo impede a loucura. Nada de bom sobra quando são os extremos que impedem a ação.

No espairecer, entre uma notícia e outra do jornal, a morte de um jovem no bairro de classe média chama atenção. Um outro menino vítima do confronto entre polícia e trafico fora do estado vem numa sequência sadicamente óbvia. E uma miserável esperança nasce na história de uma criança resgatada de escombros provocados por um bombardeio em um país em guerra do outro lado do mundo. Uma guerra que ninguém liga mas que todos são culpados.

O ódio começa ganhar forma. É como um ácido corroendo por dentro. Não consegue escrever sobre. Chora. Lamenta. Mas não escreve. Uma paralisia provocada por algum motivo não aparente. Não lhe falta inspiração. Tem tanta vida e tanta morte acontecendo que conclui ter sido amaldiçoado. Só lhe resta o grito e palavrões.

As contas empilhadas no canto da mesa são o castigo do silêncio. Provas de um crime sob investigação com uma grande peculiaridade. A vítima, o criminoso e o investigador dividem o mesmo corpo.

A madrugada se aproxima e falta de barulho da digitação enfatiza o ruído dos ponteiros do relógio. A cada segundo que passa já não pode culpar mais ninguém por tirar sua atenção, apesar de saber que sua auto imersão o havia deslocado do tempo e espaço. O dia passara e não percebera.

Se lembra do celular, pega-o e repara algumas ligações perdidas e um punhado de mensagens. Na lista de chamadas há números desconhecidos, seu agente, a garota com quem saíra algumas vezes e seu pai. Agradece por não ter percebido nenhum das ligações. Não queria ouvir mais ninguém. Já tinha vozes demais com que lidar. Todas elas acusatórias na sua cabeça.

Sabia, ainda sim, que não estava louco. O racional que percebe sua irracionalidade não sofre de insanidade. Mas de falta de continuidade. É como um capítulo interrompido que deixa dúvidas, curiosidades e ausências. Imagine-se no teatro de Romeu e Julieta em que eles não morressem, não se casassem e, ao se apaixonarem, ficassem estáticos. Aquele incomodo tomando conta da plateia, olhares furtivos de incompreensão, cochichos aqui e ali, adrenalina subindo e, de repente, as cortinas se fecham, as luzes são acesas, os atores agradecem e encerram ali a peça. Ficaria por conta de cada um a devida interpretação, uma análise, uma versão do porquê daquela mísera encenação. As ofensas dividiriam espaço com as palmas. E, provavelmente, as únicas pessoas que entenderiam aquilo seriam aquelas que se permitissem dizer – “Não entendi!”.

O Trabalho

“Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, como em Auschwitz I, onde a inscrição foi feita por prisioneiros com habilidades em metalurgia e foi erigida por ordem dos nazistas em junho de 1940.
Estou terminando de ler o livro semi-ficcional de Bernardo Kucinski chamado “K. Relato de Uma Busca” em que ele fala sobre o processo de procura por sua filha, Ana Rosa, professora de química da USP, militante comunista e uma das tantas desaparecidas do regime militar brasileiro. Segundo suas palavras “tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.
Em paralelo, tenho lido alguns relatos do período ditatorial e em determinado momento as histórias se encontraram. Num ponto de sua busca, K. vai falar com um médico no Rio de Janeiro que poderia ter informações sobre sua filha. O senhor em questão era responsável por manter vivo os presos torturados para que eles revelassem tudo o que fosse possível acerca dos opositores do regime.
Hoje meu amigo Leandro Barbosa, a cabeça por trás do site História Incomum, que você deveria conhecer – tem texto meu lá também ‪#‎jaba‬ – postou “A cada dia que passa eu amo mais o Jornalismo. É fantástico as possibilidades de exercer a justiça, que ele me dá.”
E nessa profusão de ideias, somando o ponto de Focault sobre o valor de um diploma (https://goo.gl/x2aH5g), fico pensando sobre como nosso acumulo de conhecimento tem servido a sociedade. Digo, porque, entendo trabalho como aplicação prática de um conhecimento específico ou genérico.
Mais do que chegar a uma conclusão, compartilho os seguintes questionamentos para reflexão no exercício de cidadania, da fé, nos relacionamentos interpessoais e o que mais couber na vida em sociedade:
Temos salvado a vida de alguns para prolongar a tortura e a dor?
A liberdade e independência proporcionada por nossos trabalhos/conhecimentos tem sido a mesma de um campo de concentração?

E é importante frisar que não se trata do que escolhemos fazer/conhecer, mas como.

Sobre Não Escrever Um Livro

Algumas pessoas já perguntaram por que de eu gostar tanto de ler e escrever. Ler é herança familiar. Escrever me ajuda organizar os pensamentos.
Por isso tendo a gostar de alguns temas em especial como política, cultura, religião e sociedade. Apesar de escrever bem menos a respeito do que gostaria. Isso, pelo simples fato de reconhecer que há pessoas muito melhores que eu fazendo isso em todas essas áreas.
Tudo o que escrevo é resposta a algum tipo de provocação. Um comentário que ouço, uma leitura, qualquer cena cotidiana. Quase sempre é não-intencional.
Normalmente escrevo sobre três perspectivas. De enxerido, como um desafio pessoal. Para amplificar a voz de outros melhores que eu. E de raiva.
Dois grandes culpados pelo fato de eu escrever são, com certeza, Rubem Alves e Mia Couto. Pra mim, são os mestres da percepção do cotidiano.
Rubem Alves era esse ser totalmente mal resolvido, não com a vida, mas com setores dela. Ele sempre conseguia expandir o cotidiano como se fosse um tipo de armadura e arma de combate contra essa gigante gaiola de ratos que fazemos girar todos os dias. O cotidiano proposto por ele quebra grilhões da mente e da alma, sem dúvida. Nos faz insurgir em tanta beleza, cheiro e sabor. Ele força a percepção. Ou você percebe a vida ou a vida jamais percebera você.
Mia Couto me faz sentir, estranhamente, em casa. Por pura percepção o vejo como um dos melhores discípulo de Gabriel García Márquez e seu famigerado Realismo Fantástico. Cada morte, cada bomba explodida, cada sexo, cada absurdo parece fazer total sentido no caos diário da minha mente. Se você tem idade suficiente, lembra quando a televisão não funcionava direito e você dava um tapa na lateral e tudo voltava ao normal? É mais ou menos assim minha relação com Mia Couto e, menção honrosa, Dostoievski.
Não tenho vergonha de nada do que já escrevi. Tenho o costume de reler as coisas mais antigas com frequência e, muitas vezes, discordo dos escritos. Mas eles tinham um objetivo no momento em que foram concebidos. Se você possui um arranhado faz mais sentido passar álcool e colocar um band-aid em vez de operar. Com a escrita é assim. Quanto maior a provocação, mais profunda a reflexão.
Nisso entra o papel fundamental da leitura que acelera esse processo de provocação e reflexão e da percepção do cotidiano.
Cristo, por exemplo, só faz sentido porque ele pisou, sentiu, cheirou, beijou e sangrou onde escreveu sua história. Por isso tenho uma grande aversão ao pedantismo acadêmico de tantos escritos coerentes, mas que nunca pisaram o chão que tentam descrever. Deve ser por isso que o apelo verborrágico nesse meio é tão importante.
Por que ainda não escrevi um livro? Acho que to prestando atenção demais ao cotidiano.
Mentira. To lutando contra a procrastinação e a falta de foco.

Sobre a Arte de Escrever Um Livro

Há um bom tempo to lutando pra escrever meu primeiro livro. E não é uma daquelas coisas “Escreva um livro, plante uma árvore e tenha um filho”. É uma coisa que me domina mais do que eu domino sobre essa coisa.
Uma das minhas maiores inspirações contemporâneas é, com certeza, Donald Miller.
Há uns 3 anos ele publicou no seu blog um texto sobre a arte de escrever um livro. O Ricardo Alexandre fez o grande favor de traduzir.
Por isso, estou aqui me aproveitando disso pra compartilhar sobre esse “plano de cinco passos” pra você que está na batalha de escrever um livro, pra você que já escreveu e, principalmente, pra você que está sentado confortavelmente lendo um ótimo livro.
Só posso dizer que fico feliz por estar no caminho certo.

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Eu li muitos livros sobre a arte de escrever. Meus favoritos são On Writing Well de William Zinsser, Palavra por palavra, de Anne Lamott e A Guerra da arte, de Steven Pressfield. Todos livros fantásticos.
Pensei, então: vou compartilhar meu plano de cinco passos para escrever um livro. Aqueles livros são legais, mas esta é a verdade verdadeira.
Use-o como achar melhor, mas isso é realmente como o processo acontece:

1. Comece com uma idéia incrível: Saiba em sua cabeça que este livro vai ser um best-seller flamejante e vai mudar o mundo. Irrite seus amigos repetindo sempre essas coisas. Quando eles estiverem muito irritados, resmungue entre dentes em alguma conversa casual sobre como o seu livro coincidentemente responderá à questão em discussão, ou qualquer coisa do tipo. Continue o processo por cerca de um ano antes de começar a escrever. É importante. Continuar a ler

Náusea

Quando os 30 anos chegaram, Iara não tinha encontrado as resposta dos questionamentos da juventude. Havia, na verdade, colecionado mais perguntas. Questões que excitavam sua mente, moviam seu corpo e impulsionava olhar a vida mais atenta aos detalhes, as esquinas, os sinais abertos e fechados das grandes avenidas.
Plantara um jardim secreto.
Mas chegara um momento que não tinha mais tempo para cuidar desse jardim. Precisava lidar com a futilidade de alguns próximos, outros nem tanto assim.
“Quando casa? Quando terá filho? Por que não terminou a faculdade? Vai sair com essa roupa? Cuidado, vai ficar pra titia”.
O Natal que deveria celebrar o nascimento do Menino Jesus era, na verdade, a sua crucificação. Ela tinha sede e lhe davam vinagre. Tinha respeito e, por isso, muitos se achavam livres para escolher a vida que deveria levar.
Iara nunca sofreu abuso físico. Nenhum tio, pai, padrasto, vizinho ou desconhecido tentou, deliberadamente, violar seu corpo. Era uma garota de sorte. Só teve de lidar com olhos cheios de luxúria e a falta de maturidade de alguns homens em sua vida.
Mas, pensando bem, talvez não tenha sido uma garota de tanta sorte assim, na verdade. Não violaram seu corpo. Violavam sua alma. Plantavam daninhas que precisavam ser arrancadas. Somente por ela mesma, todos os dias.
Ainda sim, não sabia exatamente como lidar. Onde está a Delegacia da Alma da Mulher nessas horas?
Expor a macula, o flagelo da vagina da alma. Era também abertura para que outro viesse tentar arar a terra que só precisava de um pouco de chuva e descanso.
Iara flertara algumas vezes com o suicídio intelectualmente. Não tinha coragem. Não tinha vontade de perder a vida, por mais que parecesse que alguns estivessem provocando exatamente isso nela.
Distraída com o interior, Iara sofreu um acidente. Violentada, não percebeu a diferença entre o verde e o vermelho do sinal. Como sempre, quando deveriam parar, avançavam sobre si.
Não lembra direito do que aconteceu. Acordou numa cama de hospital confusa e assustada tentando discernir se aquilo era realidade, sonho ou pesadelo. Afinal, todos os seus estupradores estavam ali sorrindo, fazendo-lhe carinho. Oferecendo cuidado, amor e dedicação. Estavam seu pai, mãe, irmão, avós, amigos, pastor e namorado.
“Parabéns”, disse médico entrando de forma displicente no quarto “está tudo bem com ele”.
“Com ele?”
“Você terá um belo e saudável menino”.

O Dia do Curinga

Quando a tempestade que se instalara no meu interior por fim começou a se acalmar, tomou conta de mim um sentimento que desde então nunca mais me deixou: ao me virar e, lá de cima, vislumbrar o povoado, eu me dei conta, pela primeira vez, de que o mundo é um milagre que está além da nossa compreensão. “Como explicar”, eu me perguntei, “o fato de que nascemos seres humanos?” Essa indagação e esse sentimento tiveram em mim o impacto de uma descoberta totalmente nova. E, não obstante, aquilo que eu descobria estava ali, à mostra, desde os primeiros dias da minha infância. Era como se eu tivesse dormido durante toda a minha vida até aquele momento. Um sono de muitos anos. “Eu existo!”, pensei. “Sou um ser vivo!” Pela primeira vez em minha vida entendi o que é um ser humano. (…).

Sentei-me num pequeno toco de árvore e logo vi um cervo que se aproximou de onde eu estava. Não havia nada de anormal na aproximação de um animal silvestre: nas florestas ao redor de Dorf havia muitos cervos. Mas não conseguia me lembrar de já ter visto e experimentado em mim mesmo a maravilha de um ser vivo como aquele. É claro que eu já tinha visto outros cervos, quase todos os dias. Mas nunca tinha entendido como cada um deles era algo único, misterioso, muito além do que a gente pode compreender. E naquele momento entendi também por que até aquele dia tudo tinha acontecido desse jeito: eu não tinha dado tempo a mim mesmo de vivenciar a presença de um cervo, exatamente porque já tinha visto tantos.

E é assim com tudo, pensei, com todas as coisas do mundo. Enquanto somos crianças, ainda possuímos a capacidade de experimentar intensamente o mundo à nossa volta. Com o passar do tempo, porém, acabamos por nos acostumar com o mundo. Ser criança e se tornar um adulto, pensei, é como embebedar-se de sensações, de experiências sensoriais (…).

O cervo me olhou por uns dois segundos e depois saltou de volta para o meio das árvores. Por um breve instante experimentei um silêncio indescritível. Depois, um rouxinol começou a cantar. Um canto lindo, repleto de júbilo. Era impressionante ver como um corpo tão pequeno podia conter tanto som, tanto fôlego, tanta música. “Este mundo”, pensei, “é um milagre tão fantástico que, diante dele, a gente não sabe se ri ou se chora. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo, o que não é nada fácil.”

Lembrei-me de uma camponesa que vivia lá em Dorf. Ela só tinha dezessete anos, mas naquela semana havia entrado na padaria com um bebé: uma menina de, no máximo, duas ou três semanas de vida. Nunca tinha me interessado muito por crianças de colo, mas quando olhei aquele cestinho em que estava a menina, pareceu me ver nos olhos da criança uma expressão de surpresa, de espanto sem palavras. Eu não tinha mais pensado sobre o assunto, mas sentado ali na floresta sobre o tronco de árvore e ouvindo o canto do rouxinol, enquanto um tapete de sol se estendia sobre as cumeadas do outro lado do vale, naquele momento entendi o que o bebé teria dito se pudesse falar: teria dito que aquele mundo a que ele tinha chegado era uma coisa de fato surpreendente.

Não tinha me esquecido de cumprimentar aquela jovem mãe pelo nascimento de sua filha, mas acho que no fundo devia mesmo era ter dado os parabéns à criança. Do mesmo modo como a gente deveria se debruçar sobre cada novo cidadão do mundo e dizer: “Bem vindo a este mundo, meu pequeno amigo! Você tem realmente uma sorte incrível em poder nascer e viver!”.

Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida.
Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos… e então… bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo.

_O Dia do Curinga – Jostein Gaarder