Fragmentos do Brasil

Mais de 700 anos antes de Cristo, o profeta Miqueias relatava a realidade desse meu Brasil:

“Se um mentiroso e enganador vier e disser: ‘Eu pregarei para vocês farturas’, ele será o profeta deste povo.”

Eis que o capitalismo é profeta e juiz da nossa sociedade.

Um dos postulados do mesmo profeta que permitiu não me perder em certas ideologias que se apresentam como ‘confronto’, mas na verdade são afronta a vida a humana é:

“…governantes que detestam a justiça e pervertem tudo o que é justo; que constroem a terra prometida com derramamento de sangue e impiedade.”

O genocídio pode sim ter aparência de paz.

É assim que muitos enxergam as chacinas promovidas por milicianos e o estado de exceção permanente nas periferias do nosso país.

“Tem passagem?” foi uma das perguntas feitas pelos assassinos na chacina de Osasco.

Quase que de forma automática, nós sociedade respondemos em silêncio: “é favelado. Tem sim. MATA!” em nome da nossa segurança.

O genocídio pode sim ter aparência de paz.

Sugiro o documentário “Ônibus 174” do José Padilha. Depois de assistir, se pergunte de que lado da história estava. Todos nós somos/fomos protagonistas em algum momento.

Alguns de nós abriram mão da história conquistada. O Estado Laico desce pela descarga de alguns. Queremos o tão sonhado “estado cristão”, seja lá o que isso significa. Eis que o profeta afirma:

“Seus líderes julgam a troco de suborno, seus sacerdotes ensinam por lucro e seus profetas adivinham em troca de prata. E ainda se apoiam no Senhor, dizendo: ‘O Senhor está no meio de nós. Nenhuma desgraça vai nos acontecer’.”

Piedade travestida. d´Eus a nossa semelhança. Justiça com nossas próprias mãos. O Cristo da cruz como amuleto inútil, já que a nossa sede é o sangue do próximo. O nosso bem estar que nunca cruza o outro lado da ponte. Uma (ir)realidade conhecida nas novelas. I love favelado.

Mas se tem iniquidade tem profeta. Graças a Deus. Mesmo que sejam pequenas mulas como eu e você.

“Por isso, por causa de vocês, os montes serão arados como um campo, o Estado se tornará um monte de entulho e os templos suntuosos se tornarão um matagal.”

Amém.

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O Assassinato da Solidão

Soledad Barret Viedma era neta do grande escritor paraguaio Rafael Barrett. Um pouco antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar “Viva Hitler!”. Aos 28 de idade, em 7 de Janeiro de 1973, Soledad foi assassinada grávida na cidade de Paulista, em Pernambuco, no que foi considerado um dos mais bárbaros casos do período da Ditadura. Ela, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi uma das seis pessoas emboscadas no conhecido “massacre da granja São Bento”. Os seis militantes, Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma foram mortos com 14 tiros na cabeça. Conta-se, que ao ser encontrada, Soledad estava dentro de um tonel com o feto a seus pés. A emboscada fora armada por seu esposo, agente infiltrado, cabo Anselmo. O mesmo José Anselmo dos Santos, líder da revolta dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de Março de 1964. Ato que contou com a presença de representantes dos sindicalistas e líderes estudantis, e além do deputado Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta dos Marinheiros de 1910. No dia, Anselmo discursava sobre as “reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis”. Episódio esse, por conta dos desdobramentos, considerado um dos epicentros do Golpe Civil Militar de 64. Carlos Alberto Augusto, nas duas últimas grandes manifestações contra o governo, era saudado como grande herói nacional. Não faltam selfies no Instagram para comprovar. “Carlinhos Metrallha” como ficou conhecido, braço direito de Fleury, foi um dos principais envolvidos nesse massacre cheio de detalhes obscuros ainda. A questão é que esses dias, por conta de tamanha boçalidade nos discursos de muitos, ditos, manifestantes contra o governo, me vi fazendo piadas desse período de trevas da nossa história recente para desqualificar tamanha imbecilidade. Mas chego a conclusão que não vale a pena mitigar algo tão sanguinário por conta de tais. Pensando a história de Soledad e tantas outras vítimas do Regime, não vale a pena rebaixar o nível do discurso e nem abrandar a crítica. O minimo flerte com intervenção militar deveria ser crime. E poderia ser, inclusive, com cumprimento de penas alternativas, como uma boa aula de história. Que Deus nos ajude a não perder a fé, a esperança e a sede por justiça.

Lembrar é Resistir

Estava na FLIP 2014, num fórum extremamente aguardado por mim. “Memórias do cárcere: 50 anos do golpe”, com Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva e Persio Arida. Feito as apresentações pela mediadora, a antropóloga social Lilia Schwarcz, Marcelo Rubens Paiva começou a ler um trecho de um texto falando sobre seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, desaparecido durante a ditadura militar no Brasil e que teve sua morte confirmada recentemente após depoimentos à Comissão Nacional da Verdade de ex-militares envolvidos no caso.
Na minha frente, uma senhora na casa dos 50 anos anos chorava copiosamente já nas primeiras palavras de Marcelo, que ao longo da leitura também precisou parar algumas vezes para conter a emoção. Como adendo, disse que seu filho tinha 5 meses de idade e por isso olhava com outros olhos para aquela história. Sob os olhos de pai, julgo eu.
Pelo que percebi de conversas da mulher, ela havia perdido parentes para a ditadura. Um dos tantos indigentes em valas comuns ou retalhados e lançados ao mar como se fossem isca de peixe.
Confesso que tive grandes dificuldades em segurar as lágrimas no rosto vendo e ouvindo tudo aquilo. O depoimento, principalmente do Marcelo Rubens Paiva, e as ferrenhas críticas feitas, em especial, pelo Bernardo Kucinski, me deram um choque de realidade muito forte.
Há mais de dois anos venho pesquisando, a título de conhecimento, sobre esse período de nossa história recente, sempre me perguntando do porque ele parecer tão distante sendo que eu poderia sentar com meu pai para conversar a respeito. A ditadura militar acabou, ou se metamorfoseou como aponta Kucinski, em 1985 quando eu tinha um ano de idade.
Eu queria conversar com a mulher ao fim do debate, mas senti que aquele momento era importante demais para ela para eu enche-la de perguntas a fim de sanar algumas curiosidades.
A questão é que, especialmente esse ano, tenho aprendido muito sobre a importância da história, de lembrar, relembrar e, em certos casos, reviver algumas situações a fim de não perder a realidade de vista.
Algo que foi citado, que eu realmente nunca havia parado para pensar, é sobre a brutalidade do desaparecimento. As famílias dos desaparecidos políticos foram interrompidas, nunca finalizadas. Ou seja, eles não passaram pelo importante processo luto, que dói mas cura. Marcelo até comenta “é por isso, que quase 50 anos depois, estou aqui chorando na frente de todos vocês”.
Pense nisso, por exemplo, na família do Amarildo, na esposa que tinha problemas com álcool e drogas, que chegou a deixar os filhos e desaparecer por uns dias. Se a estrutura familiar era escassa, ficou dilacerada. Essa me parece, muitas vezes, uma analogia da sociedade brasileira que vive plenamente a “vida líquida” em todas as áreas, sem bases concretas, sem conhecimento e sem estrutura emocional saudável. As redes sociais estão ai para provar, mesmo que empiricamente, essa observação.
Amarildo e tantos outros estão no limbo. E nós, muitas vezes, vivemos como os “interrompidos, não finalizados”. A metamorfose da ditadura no Brasil está diretamente ligada ao nosso cotidiano.
Que possamos aprender e se dispor a lembrança, enterrar os mortos e viver o tempo presente, rumando para o futuro, com os pés descalços sobre o chão firme.

O Menino Que Fazia Versos

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.  Continuar a ler

Estória do Brasil

Há uns anos, conversando com um amigo militante politico, ouvi que “a esquerda concentra os pensadores e ideológicos. Já a direita, os alienados”. De maneira geral, concordei. Isso, até começar a refutar mais vigorosamente algumas idéias, ideais e postura da (pseudo) esquerda brasileira. Nesse momento pareceu-me que a alienação mudou de lado. Hoje, estudando um pouco mais a fundo a história do Brasil, notei um fenômeno interessante. A politica brasileira sempre foi regida pela direita, mas para o povo, as histórias dos “heróis” brasileiros são contadas pelo viés da esquerda marxista. Um exemplo claro são os historiadores (marxistas) brasileiros que colocam Zumbi como ícone do movimento de classe contra a tirania imperialista. Isso quando a refutação dessa versão da nossa história coloca em check quase todos os “fatos” e argumentos desse herói. Ainda sim, temos um feriado baseado nessa história que ninguém sabe dizer até onde é verdade, a começar do nome de Zumbi.
O que quero dizer com isso é algo que sabemos por osmose, mas não damos o devido valor. O passado reflete quem somos hoje e para onde estamos indo.
Estamos vivendo tempos de efervescência politica, engajamento social, ambiental, direitos humanos e por ai vai. Tudo isso gritando na nossa cara. 2012 é ano de eleição. 2014 é ano de Copa do Mundo no Brasil das(os) “bundas (moles) e bolas”, e eleição no país dos coronéis.
A questão é: Continuar a ler