Conselho aos Filósofos Cristãos – Alvin Plantinga

O texto que se segue é bem maior do que o que costumo postar aqui. Há muito eu queria traduzir este texto de Plantinga. O blogueiro Vitor Grando poupou-me o trabalho. Segue a postagem feita por ele, incluindo uma pequena introdução do próprio Vitor com três links para pesquisa sobre Plantinga (o link para o original em inglês está aqui e os links do artigo traduzido também foram inseridos pelo Vitor).

———- x —– x —– x ———-

Conselho aos Filósofos Cristãos – Alvin Plantinga

Alvin Plantinga é um filósofo cristão que dispensa qualquer comentário. Tido como um dos maiores filósofos cristãos das últimas décadas, Plantinga foi um dos grandes responsáveis pelo ressurgimento do teísmo cristão no âmbito filosófico profissional nos últimos anos. Seus trabalhos em filosofia da religião e epistemologia causaram verdadeiras revoluções nas respectivas áreas. Este é o 5º artigo do Plantinga que este blog tem o privilégio de traduzir. Neste artigo clássico divulgado em 1984, Plantinga fala sobre a apropriada relação do filósofo cristão com sua disciplina, ele defende que o filósofo cristão não pode prontamente adotar as metodologias correntes no âmbito filosófico profissional por serem, boa parte delas, nocivas ao pensamento cristão. Plantinga defende uma maior independência e autonomia da comunidade filosófica cristã em relação ao resto da comunidade filosófica. É um artigo importante não só para filósofo mas como para qualquer crente que busca uma vida intelectual responsável e cristã. Sugiro também a leitura do artigo Como Pensar Sobre o Secularismo, do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, que também fala da relação do cristão com a cultura secular ao seu redor.
Mais informações sobre Alvin Plantinga:
1. Wikipedia
2. Guilherme de Carvalho
3. Alvin Plantinga: The Analytic Theist

Conselho aos Filósofos Cristãos
(Com um prefácio especial para pensadores cristãos de diferentes disciplinas)

Professor Alvin Plantinga
Tradução: Vitor Grando (DespertaiBereanos.blogspot.com)

Prefácio

No artigo seguinte eu escrevo na perspectiva de um filósofo e, é claro, eu tenho conhecimento detalhado apenas do (no máximo) meu campo de trabalho. Estou convicto, entretanto, de que muitas outras disciplinas se assemelham à filosofia no que tange às coisas que eu digo abaixo. (Fica a cargo dos praticantes de tais disciplinas observar se estou certo ou não).

Primeiro, não é somente na filosofia que nós cristãos somos altamente influenciados pelas práticas e procedimentos de nossos colegas não-cristãos. (De fato, tendo em vista o caráter rixento dos filósofos e o grande desacordo na filosofia é provavelmente mais fácil ser um dissidente na filosofia do que em qualquer outra disciplina.) O mesmo vale para aproximadamente qualquer disciplina intelectual contemporânea importante: história, crítica literária e artística, musicologia, e as ciências tanto sociais quanto naturais. Em todas essas áreas há maneiras de se proceder, hipóteses difundidas sobre a natureza da disciplina (por exemplo, hipóteses sobre a natureza da ciência e seu lugar na nossa economia intelectual), hipóteses sobre como a disciplina deve ser realizada ou sobre o que é uma contribuição importante; nós absorvemos essas hipóteses, se não quando jovens, de qualquer forma absorvemos ao trabalhar nas disciplinas. Em todas essas áreas aprendemos como praticar nossas disciplinas sob a direção e influência de nossos colegas. Mas em muitos casos essas hipóteses e pressuposições não se conformam facilmente a uma forma cristã ou teísta de enxergar o mundo. Isso é óbvio em muitas áreas: na crítica literária e teoria cinematográfica, onde o anti-realismo criativo (veja abaixo) invade; na sociologia e na psicologia e outras ciências humanas; Continuar a ler

Sobre a Brevidade da Vida

Eu estava no ponto de ônibus enquanto lia isso

“Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo para aquele que sabe dela bem dispor. 2 – 1: Por que nos queixamos da Natureza? Ela mostrou se benevolente: a vida, se souberes utilizá la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossasse de, um de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho, outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias e o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão pelos assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; (2) a busca da beleza de um outro ou o cuidado com sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: “Pequena é a parte da vida que (3) vivemos.” Pois todo o restante não é vida, mas tempo. Os vícios atacam nos, e rodeiam nos de todos os lados e não permitem que nos reergamos, nem que os olhos se voltem para discernir a verdade, mantendo os submersos, pregados às paixões. Nunca é permitido às suas vítimas voltar a si: se por acaso acontecer de encontrarem alguma trégua, ainda assim, tal como no fundo do mar, no qual, mesmo após a tempestade, ainda há agitação, eles ainda assim são o joguete das paixões, e nenhum repouso (4) lhes é concedido. Pensas que falo daqueles cujos vícios são declarados? Vê aqueles cuja fortuna faz acorrer a multidão: são sufocados pelos seus bens. A quantos as riquezas não são um peso! Quantos não verteram seu sangue por causa de sua eloqüência e da presteza diária com que exibiam seus talentos! Quantos não estão pálidos por causa de seus contínuos prazeres! A quantos a vasta multidão de clientes não dá nenhuma liberdade! Passa os olhos por todos, desde os mais pequenos até os mais poderosos: este advoga, aquele assiste, um é acusado, outro defende, e um outro ainda julga ninguém reivindica nada para si, todos consomem mutuamente suas vidas. Pergunta por aqueles cujos nomes se aprendem de cor e verás que eles são identificados pelas características seguintes: este é servidor daquele, que o é de um outro ninguém pertence a si próprio. (5) E, portanto, é o cúmulo da insensatez, a indignação de alguns: queixam se do desdém de seus superiores, porque estes não tiveram tempo de ir ter com eles quando o desejavam. Quem ousará queixar se da soberba de um outro, quando ele mesmo não tem um momento livre para si próprio? E aquele, contudo, apesar de seu aspecto insolente, olhou te uma vez com consideração, sem saber quem eras, prestou atenção às tuas palavras e mesmo recebeu te junto de si; tu não te dignaste a considerar nem a ti mesmo. Portanto não há razão para pedires contas de teus favores a quem quer que seja, uma vez que, quando os fizeste, não desejavas estar com um outro, mas não podias estar contigo.” *

… de repente uma mulher é atropelada por um ônibus, na minha frente. Muitas pessoas se assustaram, viravam o rosto para não ver. O único comentário que ouvi foi de uma mulher que estava na minha frente “agora que eu não chego mesmo em casa”. Pensei comigo “se a insensibilidade e apatia dessa mulher estão nesse nível, na verdade, ela deixou de viver há muito tempo, bem antes da mulher atropelada”.

*Livro: Sobre A Brevidade da Vida Autor: Lucius Annaeus Seneca [Sêneca] (4 a.C. – 65 d.C.)

Estórias que me contaram…

Silencio

“Havia certa vez um homem que dizia nome de Deus. Quando o coração lhe doía por uma criança que chorava, ou um pobre que mendigava, ele andava até a floresta, acendia o fogo, entoava canções e dizia as palavras. E Deus o ouvia… O tempo passou. Voltou à mesma floresta. Mas não carregava fogo nas mãos. Só lhe restou cantar as canções e dizer as palavras. E Deus o atendeu ainda assim…
Um tempo mais longo se foi. Sem fogo nas mãos, sem força nas pernas, não alcançou a floresta. Mas do seu quarto saíram as mesmas canções e as mesmas palavras. E Deus lhe disse que sim…
Chegou a velhice. Nem floresta nem fogo ou canções. Restaram as palavra. E o mesmo milagre ocorreu…
Por fim, sem fogo ou floresta, sem canções ou palavras. Só mesmo o infinito desejo e o silêncio: e Deus atendeu…”

Texto integral de “Quando o silencio cobre o Homem” do escritor, teólogo e filósofo Rubem Alves
Música: Catedral
CD: Está Consumado