Mia Couto, Caetano Veloso e o Deus Literário

Quem pensa que sabe como são os africanos nunca imaginaria que Mia Couto fosse natural do continente negro. O romancista mais celebrado de Moçambique é branco, enche seus livros do realismo mágico da tradição latino-americana e tem um estilo que lembra Guimarães Rosa. Foi contado entre os melhores escritores africanos do século 20.

Em entrevista recente ao Estadão, perguntaram-lhe se há influência brasileira em sua literatura. Respondeu: “Sim. Ela veio justamente da música de Chico, de Caetano. Muitos músicos moçambicanos tinham tentado cantar em português, mas o português duro, rápido, de Portugal, não tinha musicalidade. Aí ouvimos Chico, Caetano, Gil e descobrimos que o português poderia ser outra coisa. Foi uma descoberta.”

Talvez tenha sido crítico demais ao português dos fadistas e trovadores, mas a descoberta de que a língua da mera comunicação corriqueira poderia ser também a língua da poesia e dos sonhos abriu-lhe um novo mundo. Muitos anos mais tarde, o comitê Nobel também reconheceu que a língua portuguesa possui a maleabilidade necessária para ser talhada por alguém com o talento de José Saramago. Aqueles que se importam com os idiomas enxergam na nossa gramática, nos nossos vocábulos e na nossa sintaxe as ferramentas para criar e perpetuar aquilo que só existe na língua. O português pode ser usado para emocionar, agregar e inspirar.

Como cristãos, temos o privilégio de servir e adorar a um Deus literário. A linguagem da Bíblia evidencia sua preocupação com a arte de expressar-se. Há nela não apenas a Verdade Revelada, mas as múltiplas verdades reveladas por meio de uma riqueza estonteante de poemas, acrósticos, canções, parábolas, paralelismos, hipérboles, metáforas, figuras de linguagem e artifícios da retórica. Não resta a menor dúvida de que Deus — o Verbo — se relaciona conosco através da Palavra, e que esta palavra tem forma intencional, bela e artística. Leland Ryken afirma que “os escritores da Bíblia e o próprio Jesus Cristo perceberam que é impossível comunicar a verdade de Deus sem usar os recursos da imaginação. A Bíblia faz muito mais que apenas sancionar o uso da arte. Ela demonstra que a arte é indispensável (“The Imagination as a Means of Grace”, Communiqué, 2003).

Penso, às vezes, que a linguagem usada em muitas igrejas é como o português “duro e rápido” que Mia Couto ouvia quando criança. É utilitária, descritiva e funcional, mas carece do tipo de imagística e musicalidade que despertam a alma. Como pastores e líderes, concentramo-nos no conteúdo de nossas doutrinas em detrimento de sua forma. Esquecemos que a Bíblia não divide a arte em sacra e secular. Nela, a arte possui valor igual tanto em ambientes de louvor quanto do cotidiano (Nm 21.16-18; Is 16.10; 52.8-9).

Como seria se nossos pastores se importassem tanto com a linguagem quanto se importam Chico, Caetano e Gil, assim também como Davi, Salomão e Jesus? Tenho a impressão que, se a poesia de nossas teologias saturasse as nossas palavras, os muitos Mias Coutos das nossas congregações de repente ouviriam algo diferente, algo novo, capaz de agarrar suas imaginações, inspirar-lhes e enviar-lhes correndo de volta à Palavra, fonte de nossa inspiração.

Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

Retirado do site da Revista Ultimato

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Parábola Contemporânea da História de Jesus

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co’os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:

“Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!”

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: “Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir”. Continuar a ler

O Velho

Era o seu último dia. E como um velho sábio, encarnava o provérbio de mais ouvir do que falar. Em certos momentos, isso era totalmente irritante, confesso. Eu esperava pela tão esperada resposta. Dizem que, as vezes, redundância é sinônimo de impaciência. Ansiedade. Pouco sono. Mas, graças a Deus, haviam muitas dúvidas para ocupar o tempo. Afinal, “em tudo dai graças”.

Alguém disse uma vez que decisões importantes geram dúvidas. Não sei porque, mas isso me soa um pouco redundante também. Voltamos a impaciência.

Ah, sim! O velho continuava lá, impassível. Não sei se pensava a respeito de tudo o que eu tinha lhe contado, se pensava em uma resposta ou se zombava das minhas dúvidas. Só sei que ele simplesmente estava lá e nada mais.

É incrível como o peso da palavra dita não é o mesmo da palavra guardada no coração. Cheguei a questionar se realmente estava com dúvida, se sentia mesmo tudo o que achava sentir, e vice versa.

Se levantou. Tomei um baita susto. Eu estava totalmente perdido nos meus devaneios. Mas de volta a terra e prestando toda atenção do mundo, ele andou até a porta e não disse uma mísera palavra. Quase infartei. Dizem que, as vezes, super valorização é sinônimo de imaturidade. Mas um pouco antes de fechar a porta, um resmungo rouco se fez ouvir.

“Preciso ir… e você também”.

Fiquei mais confuso. Ir pra onde? Eu estava em casa, oras.

Ainda sim, nunca mais esqueci disso.

A noite chegou a notícia. O velho tinha partido. Não tinha nem chegado em casa. Chico Buarque cantou baixinho no meu ouvido:

“E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

Alguns anos depois, vejo que as dúvidas mudaram, mas ainda são dúvidas. Ainda sim a frase do velho permaneceu. É preciso ir.

Por vezes, me sinto incapaz e medroso. Na gana de ir, deixo jardins construídos, mas também destroços de uma guerra que parece não ter fim.

Ainda me perco nas escolhas. Pedir perdão, parece perder a força ao longo do tempo. Ainda sim, é preciso ir.

E se vivemos, boa parte do tempo fora de contexto, Chico Buarque ainda é profeta ao sussurrar:

“E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague”

Foto: Luis Penetra