Segredo de Estado

Um produto essencial da repressão nos tempos da Ditadura Militar no Brasil, negociado a preço de ouro na chamada “abertura democrática”, e que garantiu o sucesso total do DOI-Codi na repressão, torturas e mortes, entre 1969 e 1991, quando a relação entre a polícia e exército se desfez – mas que manteve a Polícia Militar – foi o SEGREDO de Estado. O AI-5, a censura plena, foi primordial para isso.
Para o jornalista Marcelo Godoy “é como se o segredo fosse o derradeiro poder dessa comunidade. Abrir mão dele é como dar adeus às armas”.
É preciso sempre relembrar e afirmar – A ditadura no Brasil nunca deixou de existir. E não digo isso como figura de linguagem, mas como fato. Ela negociou a anistia, manteve seus segredos e se metamorfoseou em Estado Democrático. Basta olhar para velhos políticos ainda no poder e sua relação com o período ditatorial – nem é preciso evocar Bolsonaro e suas bestialidades, mas lembremos Marina Silva homenageando Jarbas Passarinho, um dos chanceleres do AI-5.
A Polícia Militar e sua letalidade, também chancelada por boa parte da sociedade brasileira, está aí para não me deixar mentir. Percebe como a história é cíclica?
Referenciando Hannah Arendt, nas palavras de Kucinski, “O jornalismo tem mais a ver com a derrubada dos segredos do poder do que com a informação dos fatos contingentes, sujeita a interpretações e lacunas testemunhais”. Parece que, infelizmente os colegas de profissão e, mais triste ainda, os aspirantes a ela tem perdido essa dimensão de vista que, como a história comprova, é questão de vida e morte.

Bônus: a foto anexa é a primeira página do livro “A Casa da Vovó” do jornalista Marcelo Godoy. O livro conta a história do DOI-Codi usando testemunho de agentes que trabalharam lá. Muitos deles foram ‘repreendidos’ diretamente por Brilhante Ustra para que mantivessem o segredo guardado.

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Desobedecer

Para Foucault – analisando os séculos 17 e 18 – “o suplício [penas judiciais torturantes] não restabelecia a justiça” mas “reativava o poder” do soberano. Mesmo que uma infração cometida não lesasse ninguém, a pena tendia a ser severa por ser uma afronta direta ao rei.

“Vemos pela própria definição da lei que ela tende não só a defender, mas também a vingar o desprezo de sua autoridade com a punição daqueles que vierem a violar suas defesas” escreveu Muyart de Vouglans em 1780.

Num olhar generalista, apesar das reformas jurídicas ao longo dos anos, me parece que essa premissa foi amplificada. Se antes a afronta era diretamente ao rei ou o clero, hoje ela é intrínseca a sociedade de consumo. Por isso da validação dos linchamentos públicos baseados apenas na desconfiança e aparência, do aplauso em questões obscuras como o garoto de 10 anos assassinado pela PM, a crítica de muitos em relação ao, por exemplo, movimento secundarista em efervescência no Brasil, de nossa política que tem o falso moralismo como base de governo, culminando em aberrações como “dia de combate a cristofobia” e, em especial pelo calor do debate, a questão do estupro que culpabiliza a vítima.

Em resumo, a justiça, em todos os âmbitos, não tem servido a verdade, nem defendido o indefeso e, menos ainda, protegido o desvalido. Ela é serva plena do poder. Seja de um governo corrupto ou até do ‘cidadão de bem’ que se apossa do direito de matar física ou psicologicamente para, quem sabe um dia, refletir e julgar a veracidade e a justeza da questão.

Por isso, me parece mais próximo da justiça e da verdade, a desobediência. Seja ela civil, religiosa, familiar e/ou de qualquer outro núcleo.

Inclusive, me admira muitos projetarem essa lógica de (in)justiça e (usurpação de) poder no Deus cristão. Pensando que Jesus, sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente (ao chamado em Mateus 11:5 – e desobediente aos sistemas desse mundo) até à morte, e morte de cruz”.

Talvez alguns queimem nessa fogueira, outros sejam supliciados e crucificados, mas a história há de reverberar a paz e absolve-los. Mais do que isso, libertar outros.

Sou eu

Sou soro positivo e negativo. Obediente e de castigo. Sou pai, mãe e filho.
Sou prostituto, vagabundo travestido. Crente no Cristo. Entre complexos e inestimáveis vazios.
Sou policial, refém e meliante. Conhecedor das coisas que, de hoje em diante, querendo ser, sem antes, não seriam.
Sou de todas as manhãs. Das tardes e atrasos. Das noites em desembargo. Cigarro barato ou cachimbo de fumo puro não tragado.
Dos amigos, sou cerveja gelada. O vinho quente das viradas. A companhia inesperada da madruga. Muda e sentada.
Sou raiz. Em crescimento lento. Em observação. Em noite de alento ou de chuva e trovão.

De Carnaval Em Carnaval

Mamãe faria aniversario hoje, cinco de Outubro. E eu estava aqui cogitando sobre escrever ou não. Se sim, o que escrever? Saudade, obviamente. Ainda sim, não saberia expor tudo o que se passa aqui dentro. Então, vou falar um pouco sobre o lado de fora.
Nesse mesmo mês fará 3 anos que ela se foi. Maldito câncer que, assim como do nada veio, do nada a levou. Não à toa Sérgio Sampaio muito cantou: “Eu tenho os dias contados. Um encontro marcado e as mãos na cabeça […] Mesmo eu não estando em perigo, quero que você me aqueça neste inverno”.
E apesar das constantes reflexões, a gente não tem noção real de que a vida acaba do nada. Pode ser um bebê de alguns dias ou um idoso no auge dos seus 100 anos. Mamãe terminou sua jornada um pouco antes do meio.
Morei um ano fora de São Paulo. Lembro que quando voltei pra casa dos meus pais, meu cachorro fez uma festa imensa ao meu ver. Passamos o dia brincando, com ele efusivo. Mas quando mamãe voltou depois alguns dias internada, estava estampado na cara dele a felicidade de vê-la e, ao mesmo tempo, preocupação. Ele sabia o que estava acontecendo. E isso me incomodou muito na época. Porque acho que ele sabia mais do que eu. Afinal, minha mãe era imortal.

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O Dia do Curinga

Quando a tempestade que se instalara no meu interior por fim começou a se acalmar, tomou conta de mim um sentimento que desde então nunca mais me deixou: ao me virar e, lá de cima, vislumbrar o povoado, eu me dei conta, pela primeira vez, de que o mundo é um milagre que está além da nossa compreensão. “Como explicar”, eu me perguntei, “o fato de que nascemos seres humanos?” Essa indagação e esse sentimento tiveram em mim o impacto de uma descoberta totalmente nova. E, não obstante, aquilo que eu descobria estava ali, à mostra, desde os primeiros dias da minha infância. Era como se eu tivesse dormido durante toda a minha vida até aquele momento. Um sono de muitos anos. “Eu existo!”, pensei. “Sou um ser vivo!” Pela primeira vez em minha vida entendi o que é um ser humano. (…).

Sentei-me num pequeno toco de árvore e logo vi um cervo que se aproximou de onde eu estava. Não havia nada de anormal na aproximação de um animal silvestre: nas florestas ao redor de Dorf havia muitos cervos. Mas não conseguia me lembrar de já ter visto e experimentado em mim mesmo a maravilha de um ser vivo como aquele. É claro que eu já tinha visto outros cervos, quase todos os dias. Mas nunca tinha entendido como cada um deles era algo único, misterioso, muito além do que a gente pode compreender. E naquele momento entendi também por que até aquele dia tudo tinha acontecido desse jeito: eu não tinha dado tempo a mim mesmo de vivenciar a presença de um cervo, exatamente porque já tinha visto tantos.

E é assim com tudo, pensei, com todas as coisas do mundo. Enquanto somos crianças, ainda possuímos a capacidade de experimentar intensamente o mundo à nossa volta. Com o passar do tempo, porém, acabamos por nos acostumar com o mundo. Ser criança e se tornar um adulto, pensei, é como embebedar-se de sensações, de experiências sensoriais (…).

O cervo me olhou por uns dois segundos e depois saltou de volta para o meio das árvores. Por um breve instante experimentei um silêncio indescritível. Depois, um rouxinol começou a cantar. Um canto lindo, repleto de júbilo. Era impressionante ver como um corpo tão pequeno podia conter tanto som, tanto fôlego, tanta música. “Este mundo”, pensei, “é um milagre tão fantástico que, diante dele, a gente não sabe se ri ou se chora. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo, o que não é nada fácil.”

Lembrei-me de uma camponesa que vivia lá em Dorf. Ela só tinha dezessete anos, mas naquela semana havia entrado na padaria com um bebé: uma menina de, no máximo, duas ou três semanas de vida. Nunca tinha me interessado muito por crianças de colo, mas quando olhei aquele cestinho em que estava a menina, pareceu me ver nos olhos da criança uma expressão de surpresa, de espanto sem palavras. Eu não tinha mais pensado sobre o assunto, mas sentado ali na floresta sobre o tronco de árvore e ouvindo o canto do rouxinol, enquanto um tapete de sol se estendia sobre as cumeadas do outro lado do vale, naquele momento entendi o que o bebé teria dito se pudesse falar: teria dito que aquele mundo a que ele tinha chegado era uma coisa de fato surpreendente.

Não tinha me esquecido de cumprimentar aquela jovem mãe pelo nascimento de sua filha, mas acho que no fundo devia mesmo era ter dado os parabéns à criança. Do mesmo modo como a gente deveria se debruçar sobre cada novo cidadão do mundo e dizer: “Bem vindo a este mundo, meu pequeno amigo! Você tem realmente uma sorte incrível em poder nascer e viver!”.

Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida.
Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos… e então… bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo.

_O Dia do Curinga – Jostein Gaarder

O Assassinato da Solidão

Soledad Barret Viedma era neta do grande escritor paraguaio Rafael Barrett. Um pouco antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar “Viva Hitler!”. Aos 28 de idade, em 7 de Janeiro de 1973, Soledad foi assassinada grávida na cidade de Paulista, em Pernambuco, no que foi considerado um dos mais bárbaros casos do período da Ditadura. Ela, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi uma das seis pessoas emboscadas no conhecido “massacre da granja São Bento”. Os seis militantes, Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma foram mortos com 14 tiros na cabeça. Conta-se, que ao ser encontrada, Soledad estava dentro de um tonel com o feto a seus pés. A emboscada fora armada por seu esposo, agente infiltrado, cabo Anselmo. O mesmo José Anselmo dos Santos, líder da revolta dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de Março de 1964. Ato que contou com a presença de representantes dos sindicalistas e líderes estudantis, e além do deputado Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta dos Marinheiros de 1910. No dia, Anselmo discursava sobre as “reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis”. Episódio esse, por conta dos desdobramentos, considerado um dos epicentros do Golpe Civil Militar de 64. Carlos Alberto Augusto, nas duas últimas grandes manifestações contra o governo, era saudado como grande herói nacional. Não faltam selfies no Instagram para comprovar. “Carlinhos Metrallha” como ficou conhecido, braço direito de Fleury, foi um dos principais envolvidos nesse massacre cheio de detalhes obscuros ainda. A questão é que esses dias, por conta de tamanha boçalidade nos discursos de muitos, ditos, manifestantes contra o governo, me vi fazendo piadas desse período de trevas da nossa história recente para desqualificar tamanha imbecilidade. Mas chego a conclusão que não vale a pena mitigar algo tão sanguinário por conta de tais. Pensando a história de Soledad e tantas outras vítimas do Regime, não vale a pena rebaixar o nível do discurso e nem abrandar a crítica. O minimo flerte com intervenção militar deveria ser crime. E poderia ser, inclusive, com cumprimento de penas alternativas, como uma boa aula de história. Que Deus nos ajude a não perder a fé, a esperança e a sede por justiça.

Amor a Peso de Chumbo

Não foi surpresa quando Alice, ao vasculhar as caixas cheias de velharias no quarto da bagunça, achou as cartas que tanta desejava ler.
Ela sabia que as histórias contadas pela mãe, em tom de conto de fadas, escondiam verdades. Haviam detalhes nítidos demais. A felicidade tinha sua fonte, assim como a tristeza que sempre deixava seus olhos marejados.
Tinha certeza que tudo o que ouvira era a vida de alguém. “Histórias reais, seres imaginários”como dizia um dos álbuns que mais gostava de ouvir. Mas agora passara dessa fase. Os seres imaginários ganhavam forma, tempo e espaço naquele tesouro que tinha em mãos, papéis antigos corroídos pela traça.
Abril de 1977 “…permaneço escondido assim como meu amor por você. Espero você me achar…”
Junho de 1979 “…alimento a esperança de ver sua carta chegar. Sei das impossibilidades. Mas também sei que ainda permanece vivo. Meu o coração sabe e segue guardado…”
Janeiro de 1981 “…aqui me despeço. Você não lerá. Mas quem sabe aquele que o tenha matado receba e, ao menos, sinta o peso dessas palavras. Matou um corpo. Três almas…”
Um logotipo do Ministério do Exercito chamava atenção no rodapé das páginas xerocadas. Era uma das poucas não originais.
Ouviu a voz da mãe que, sem perceber, permanecia encostada no batente da porta.
– Recuperei essa carta anos depois com a abertura das investigações sobre a Ditadura.

– Três almas… você, papai e eu?

– Sim. Temos muito o que conversar a respeito.

– Tenho certeza que sim.

– Confesso que depois de ser desacreditada pelo falseamento da história, porque não te contar a verdade em um conto? Mas é hora de tirar a magia e colocar o chumbo.

Corri abraça-la e ouvi baixinho sua voz de choro “hora de ressuscitar nosso passado. Nossas almas. E, quem sabe, de outrem”