Conversas Inomiváveis

A enfermeira que me atendeu tinha um sorriso largo no rosto, mas começou a conversa reclamando do último paciente que havia feito barraco em sua sala. O cara tava enchendo o saco desde a recepção, como se todos devessem um atendimento exclusivo. Ainda sim, foram super atenciosos e pacientes com o infeliz. Cheguei, inclusive, ceder minha vez para o velho reclamão. Era isso ou manda-lo para o raio que o parta. Mas não queria estragar ainda mais o ambiente de quem tava trabalhando ali.
Super simpática e prática, foi tirando os vários tubos de sangue para os exames enquanto comentava o fato de “gente ruim” sempre se dar bem. Reclamava e ria de gargalhar.
Ela, uma negra linda de 51 anos, que eu não daria mais de 30, me falou do recém namorado e como estava feliz em poder construir algo na atual idade, apesar de uma ex perseguidora estar em seu encalço.
Apesar de gostar do trabalho, o salário não era dos melhores e por isso estava mandando curriculos para outros hospitais para tentar completar a renda. “Quero dar um gás agora. Minha filha já está as portas de tomar o rumo dela e eu quero, logo mais, salgar a bunda com meu homem, em paz”.
Uma outra enfermeira entrou na sala e disse que havia uma criança birrenta para fazer exame de sangue. “Tranquilo. Desses pestinhas eu dou conta com as mãos nas costas”. A outra moça sorriu e saiu.
“Mas se acredita que todas as piores enfermeiras aqui, que não conseguem nem achar uma veia direito, conseguiram um segundo hospital e eu não?”. Comentei que o processo seletivo tava invertido. Que ela deveria se orgulhar de não estar no time das piores.
Rimos.
Disse que havia um versículo na Bíblia que dizia para não termos inveja dos ímpios, nem desejar sua companhia.
Ela retrucou que eu não tinha cara de quem lia a Bíblia. Concordei.
“De qualquer forma, não tem como não ficar puto com Deus”.
Balancei a cabeça afirmativamente.
“Mas esse foi um dom que Ele me deu. Então não tem pra onde correr”.
Eu sorri e respondi que sim. Disse que as coisas iam fluir como sempre fluem.
“Cê tem razão. Valeu amigo. Pronto. Bora casa que eu quero é saber de um café agora. Um bom pretinho da sempre jeito em tudo”, riu maliciosamente.
Foi chegando no Metrõ que me dei conta que nem perguntei seu nome. Algumas conversas ordinárias parecem ser inomináveis.

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Mexerica

Foi logo de manhanzinha. Tomei um soco na boca do estômago quando entrava em uma quitanda. Estava sonolento e fiquei totalmente aturdido pois não estava esperando por aquilo. Não sabia mais onde estava.

O senhor que vinha me atender me olhou nos olhos e perguntou se ficaria bem. A porrada tinha sido tão forte que foi quase impossível segurar as lágrimas. As palavras faltaram junto com o ar.

Balancei a cabeça lenta e afirmativamente.

Ele insistiu:

– Tem certeza?

– Mexerica – respondi com dificuldade tentando explicar.

– Mexerica?

– O cheiro de mexerica. De repente eu estava na minha antiga velha casa com minha mãe descascando um saco de mexerica e conversando sobre qualquer coisa.

O vendendor ficou com cara de paisagem sem entender nada. Desisti das frutas e fui tomar um café pra conversar comigo mesmo.

Memória afetiva, além de roubar o folêgo, as vezes, rouba a lógica.

Conte Histórias

Procure conhecer boas biografias.

Por exemplo: o porteiro do seu prédio, o carteiro, a manicure. Cabeleireiros sempre tem boas historias.

Faça uma pesquisa sobre orçamento familiar com a senhora que limpa sua casa duas vezes por semana, normalmente, passando quatro ou cinco horas diárias dentro do transporte publico.

Questione sobre o sentido da vida àquele senhor que esta sempre no bar perto da sua casa pra tomar um Rabo de Galo.

Conheça o padre da paroquia e o questione sobre sua decisão de torna-se seminarista. Pergunte ao pastor que visita, principalmente, os fieis mais idosos que não podem se locomover, o porque de perder – ou ganhar – tempo com eles.

Arrume uma gripe e vá para o posto de saúde as 6:00 da manha conversar com mães que estão tentando consulta para si mesmas ou para os filhos.

Visite a escola que você estudou e surpreenda-se em ver aquela professora que você tanto detestava ainda devotando sua vida ao ensino de outras gerações.

Pergunte a historia dos seus pais. Não a versão oficial, mas aquela que os torna tão confusos quanto você em relação a vida. Pergunte de suas vitorias e arrependimentos.

Questione sobre o amor aquela sua vizinha velha rabugenta.
Finja fazer um censo e pergunte coisas que ela não imaginaria ouvir.

Deseje bom dia a todos os estranhos que passarem perto de você e aguarde uma resposta.

Pergunte aquele senhor ou senhora que vive há muito tempo sozinho se você pode abraça-lo. Não diga mais nada, só preste atenção ao seu rosto.

Olhe no espelho e fale a seu respeito para si mesmo. Preste atenção aos seus olhos e pergunte-se sobre o que é real, o que é plano, sonho ou mentira.

Passe a maior parte do tempo ouvindo.

Respire. E conte as histórias.

Vislumbres da infância

Vi esse garoto de uns 12 anos entrar no ônibus. Estava com uma mochila surrada nas costas, sujo da cabeça aos pés, camiseta furada, chinelo com correias de duas cores e calça uns dois números maior amarrada com cadarço.
Pagou a passagem, enfrentou de forma imponente o olhar de todos e sentou ao lado de uma bela menina.
Vibrei por dentro.
Lembrei do grande fora que tomei do meu primeiro amor escolar.
“Ah não! Você só anda com roupa furada“.
Doeu na hora.
Mas agora, de longe, penso que tive uma infância bem vivida.
E, graças a Deus, pouca coisa mudou. Inclusive as roupas.

Cristo e o Funk

No trem, voltando pra casa, um casal de irmãos na faixa dos 18 anos cantando música evangélica. Ao lado, a mãe, feliz, ouvindo e orando.

Na próxima estação entra a galera vendendo balas Fini e bala de coco. A mãe pede pros filhos esperarem um pouco pra não atrapalhar as vendas dos trabalhadores. No vagão, a lábia do vendedor vale ouro. Se fizer rir o cliente com as rimas, contos, cordel ou o que for, a venda é quase garantida.

Chegando perto da última estação, um dos ambulantes pede pros irmãos continuarem com os hinos. Ele senta do lado, prestando atenção e começa um beat box no ritmo do louvor – tchu tcha tcha tchu tcha… Outros no fundo do trem, acanhados, começam cantar junto as musicas de vitória. Satanás humilhado. Funk santificado.

A cantoria termina com a mãe rindo mais alto que os cantantes por achar engraçado o funk no louvor.

Mais um dia no cotidiano suburbano.

Relatos de um racista em recuperação

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu…

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Perder Alguém

As vezes me perguntam e eu nunca sei muito explicar como é lidar com a ausência de alguém essencial na nossa vida. São 4 anos que vi minha mãe pela última vez.
Ela descobriu a doença uma semana antes do Natal de 2011. E aí já não existiu mais Natal e Ano Novo. Nenhuma promessa fazia sentido.
Dez meses depois ela se foi.
Em algum momento a doença entra na rotina da familia. Na ultima vez que ela foi pro hospital com uma crise, era um domingo de manhã e eu tava chegando de uma balada. Minha irmã tava saindo com carro pra leva-la.
Me senti tão lixo com o fato de estar me divertindo a noite inteira e ela sem conseguir pregar o olho.
Cerca de um ou dois meses antes eu tinha terminado um namoro/casamento bem conturbado. Tava lidando com um acúmulo de dívidas por conta de um longo período desempregado e uma baixa auto-estima que era um repelente natural de pessoas.
Mas quando lacraram o caixão, nada mais fazia sentido. Nenhum dos meus problemas tinha peso. Pelo simples fato de não ter a pessoa com quem mais dividia essas crises.
Não tinha mais o café dela.
Quando a gente perde alguém assim todos os cravos da vida se tornam penitências. A gente é exposto a nossa impotência e humanidade.
Pensamos em todos os momentos que deveríamos estar e não estávamos. Você pensa que deveria ter mais dinheiro pra oferecer tudo o que tivesse ao alcance da prata. Você repensa todas as discussões e o quanto gostaria de triplicar o número de pedidos de perdão e voltar no tempo para dar um tapa em si mesmo afim de baixar a bola.
A morte, principalmente, de alguém enraizado em você é pedagógica. E com um certo distanciamento você acaba entendendo que a vida só tem sentido porque ela é uma doença terminal.
A falta nos amadurece. Percebe que os espaços vazios da sentido ao que preenche o coração. Se não nossa alma se torna um eterno quarto da bagunça, cheio de coisas irrelevantes.
Digo isso porque sou esse ser cheio de vazios e incompletude. Cheio de saudades que apaziguam as minhas maldades.
É difícil como uma cena clássica do cinema, colocar um piano num apartamento sem elevador. Pela janela. Com ajuda. Correndo o risco dele cair e se espatifar no chão.
Mas a música, ah a música, um contínuo milagre.