(H)À(s) Vozes Que Não Clamam!

“…e se necessário use palavras“ me soou muito belo num primeiro momento. Mas pensando a respeito, chego a conclusão que coibir a voz ou lança-la num segundo plano, é cometer assassinado em massa, ou suicídio dependendo do ponto de vista.
Parafraseando Tolstoi, acredito que O Reino de Deus está em voZ.
Devemos nos atentar… ouvir… aprender…

“A sabedoria clama em voz alta nas ruas, ergue a voz nas praças públicas; nas esquinas das ruas barulhentas ela clama, nas portas da cidade faz o seu discurso: “Até quando vocês, inexperientes, irão contentar-se com a sua inexperiência? Vocês, zombadores, até quando terão prazer na zombaria? E vocês, tolos, até quando desprezarão o conhecimento?“ Proverbios 1:20-23

E  PRAXIS exige mais VOZ ainda!

“Erga a voz daqueles que não podem defender-se, seja defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda o direito dos pobres e necessitados“ Proverbios 31:8-9

E mesmo quando a velhice chegar, parafraseo Rubem Alves

“Por fim, sem fogo ou floresta, sem canções ou palavras, somente o infinito desejo e o silencio… e Deus tudo entendeu…“

Por fim, Hosana! Maranata!

Tolstói, entre o desespero e a fé

Quando escreveu este ensaio autobiográfico, nos finais de 1879 (com acrescentos e revisões posteriores, em 1881-82), Lev Tolstói estava sensivelmente a meio da sua vida intelectual adulta. Aos 51 anos, já publicara as suas obras-primas – “Guerra e Paz” (1869) e “Anna Karénina” (1877) -, mas ainda não entrara na fase tardia, a que correspondem livros importantes, como “A Morte de Ivan Ilitch” (1887), “A Sonata de Kreutzer” (1889) ou a novela “Hadji-Murat” (publicada em 1912, já depois da sua morte).

A imagem que me ocorre, ao ler esta “Confissão”, é a de um homem posto diante do espelho da sua própria consciência, completamente nu e desarmado, ainda à procura da lógica subjacente aos labirintos existenciais em que andou perdido toda a vida. Embora na linha de uma tradição europeia que remonta a Santo Agostinho, este impulso confessional diverge dessa tradição na medida em que aborda o problema da descoberta da fé num prisma exclusivamente individual, sem generalizações ou sínteses exemplares.

Tolstói começa por explicar como aos 18 anos já se afastara do sistema de crença em que crescera (o cristianismo ortodoxo), ao entender que “a doutrina religiosa não participa da vida”, é apenas um fenómeno exterior “aceite por confiança” e fruto da pressão social, sujeito por isso a um esvaziamento à medida que as experiências vividas vão contrariando os seus ditames. Sem saber ao certo em que acreditar, entregou-se ao ‘aperfeiçoamento’ próprio, tanto intelectual e físico como moral.

Escritores embriagados

Surge então a outra face da moeda: “Para ter fama e dinheiro, em prol dos quais escrevia, era preciso esconder o bom e manifestar o mau. Foi o que fiz.” A haver fé, era fé no ‘progresso’, de que os artistas e poetas seriam os arautos.

Mas esse progresso era ilusório, e os escritores embriagavam-se de uma importância que na verdade não tinham, lembra Tolstói, sem esconder uma certa vergonha: “É agora claro para mim que não existia qualquer diferença entre aquilo e um manicómio; mas naquela altura apenas desconfiava disso vagamente, e mesmo assim à maneira de todos os malucos – chamando malucos a toda a gente, tirando a mim próprio.”

Ao assistir a uma execução, em Paris, a “crença supersticiosa no progresso” cai por terra. Depois das deambulações pela Europa, regressa à Rússia, cria escolas para os camponeses e casa-se, assumindo o bem-estar da família como um desígnio. A necessidade de conforto material abafou durante uns tempos as questões existenciais de sempre (o porquê disto tudo, o para quê), mas elas regressariam, ocupando cada vez mais espaço e provocando-lhe “momentos de perplexidade”, quando não de paralisia. Continuar a ler