17 de Fevereiro

Passei o dia no hospital entre esperas, injeções, exames e dores no corpo.
Ao meu lado, um senhor estava inquieto. Não aparentava estar doente, mas sentava, levantava, andava para todos os lados e olhava para todos os cantos.
Ele havia sofrido um assalto há cerca de um mês e tinha tomado pancadas na cabeça. Passado o susto, voltou ao trabalho. Mas uma sensação constante de perseguição começou aterroriza-lo.
Sozinho na boleia do caminhão, sentia como se alguém estivesse atrás dele para matá-lo. O ápice, hoje, na estrada, atrasado para uma entrega, uma voz ameaçadora o subjugou. Ele instintivamente jogou o caminhão pro acostamento, batendo em outros carros que, supostamente, seriam cúmplices do seu assassinato.
No fim das contas, até a carga que ele precisava entregar não estava atrasada. Quando a enfermeira perguntou que dia era hoje, ele informou “17 de fevereiro”.
Sou um saudosista. Gosto de remexer as lembranças para encontrar vestígios de algo que não havia percebido naquele momento ou, simplesmente, sentir um alívio no peito como uma droga tranquilizadora que coloca meus pés no chão, no meio do turbilhão.
As vezes queremos viver tempos que já se foram como se não houvesse ontem e amanhã. Queremos recontar a história, inserir personagens e tomar decisões diferente das que tomamos em certos períodos da vida.
A questão é que estamos aqui. Hoje. Não mais em 17 de fevereiro.
Viver em função de tempos que já não nos cabem mais irá, somente, matar a nossa alma e daqueles a nossa volta.
A vida segue cheia de surpresas porque seu roteiro é torto. Amém!
Eclesiastes nos adverte:
“Não diga: ‘Por que os dias do passado foram melhores que os de hoje?’ Pois não é sábio fazer tais perguntas. A sabedoria, como uma herança, é coisa boa e beneficia aqueles que vêem o sol. A sabedoria oferece proteção, como o faz o dinheiro, mas a vantagem do conhecimento é esta: a sabedoria preserva a vida de quem a possui.”
E só se obtém sabedoria aquele que consegue olhar o passado para como a semente do futuro, que precisa ser regada e cuidada ou, talvez, arrancada e replantada.
Uma vez mais, Eclesiastes afirma que o fim das coisas é melhor do que o seu início, e o paciente é melhor que o orgulhoso.
Que não morramos hoje de overdose de orgulho em 17 de fevereiro.

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