Ventura

Conheci muita gente esse ano. Fico até abismado com o nível da minha sociabilidade. Nessas interações, comecei reparar na necessidade de demonstrar o quão resolvidas com a vida muitas dessas pessoas estão. Pensei varias vezes comigo “que vida chata. Tudo perfeito e resolvido. Programado e com horário marcado. Não sentem falta de nada. Entediante”.
Mas não é preciso ir muito além pra perceber que, em suma, isso é uma máscara usada para evitar que outras pessoas ao redor vejam as feridas dos tombos da vida. Que sejam da lida ou pinga. No que, num primeiro momento, parece arrogância e tédio, na verdade, quase sempre, é medo.
Ao contrário do meu sósia Ed Motta, não perceberam ainda que “…a vida é muito mais que vencer”. E o grande sonho de muitos parece ser tornar-se padrão a fim de se encaixar nas engrenagens que fazem esse mundo girar (e ser consumido), em vez de transformar o próprio corpo em algo único com as cicatrizes dos arames farpados da vida.
Pior ainda, quando a gente aprofunda as relações vejo, infelizmente, isso sendo passado de pai pra filho. E nem penso que todos devem se tornar subversivos. A questão me parece muito mais simples e profunda. O ambiente das relações humanas tem seguido um caminho contrário ao propósito. Em vez de afirmarmos a identidade do próximo, usurpamo-as ou simplesmente negamos ela. Deixamos de completar nossa humanidade com as diferenças e nos tornamos seres numerados em produção seriada.
Aprendi a gostar das minhas deformidades e, muitas vezes, é isso que tento fazer as pessoas perceber no seu cotidiano. Obviamente, isso é bem diferente de faze-las se conformarem. Eu, definitivamente, acredito no conceito de redenção, transcendência e renascimento. E é isso que Jesus deixa claro nas bem aventuranças. Os pobres de espírito, os mansos, os aflitos, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos. Uma gama de talentos e deficiências reconhecidas, redimidas, que vivem uma vida plena aqui, para além das engrenagens, e que herdarão o Reino dos Céus.

Mãos Dadas

Eu tenho miopia. E fazem alguns meses que perdi meus óculos e to procrastinando para fazer os novos. Agora imagina eu, míope, a noite esperando o ônibus, no cinema tentando ler a legenda, enxergar o cardápio de longe afixado na parede e tantas outras rotinas simples, sem óculos. Vou te dizer, é um parto. As pessoas te cumprimentam de longe no Metrô, no ônibus, na rua, e você passa o dia tentando adivinhar quem é quando não consegue chegar mais perto pra ver. Rende cenas engraçadíssimas, do tipo, abraçar desconhecidos e perceber que se confundiu ou errou o alvo.
Tem uma música muito legal do Crombie chamada “Convívio” que, por vezes, me pego me analisando a partir dela. Segue um trecho.

“Eu me conheço mais
Olhando pra você eu vou descobrindo quem eu sou
E penso agora no que você vê”

Frente as minhas crises de fobia social (ou frescura mesmo), que parece ser uma epidemia global da nossa geração (inclusive a frescura), acho que por encarnarmos o “mito do individuo”, uma verdade, na contramão, se afirma cada dia mais – precisamos uns dos outros. Por mais nihil, iconoclasta ou misantropo que possamos ser.
O meu nascimento só foi possível por causa de terceiros. E até para morrer há tantas outras pessoas envolvidas. Para eu enxergar, preciso de um oftalmo/oculista. Na falta dos óculos, de algum amigo que não me sacaneie e, até mesmo, de algum desconhecido disposto a gastar alguns segundos comigo.
E aqui fica um pensamento alto cantado pelo Crombie.

“O que me diz de mim?
O que eu não reconheço sem você?
Eu não me enxergo bem se vivo a vida sem querer saber de mais ninguém”

Se amar está difícil, que pelo menos nos suportemos. Sempre em amor.

O Contrato

Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: “Coisa rara hoje em dia”. De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre.
Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.

Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo “vou sempre amar você”, como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. “Eu amarei você para sempre” deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.

Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher “ideal” para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu “verdadeiro amor” estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas.

As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: “Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia”. Homens e mulheres que conheceram alguém “melhor” e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.

O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros “melhores”. Eles aprendem a conviver com os pais que têm.

Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.

Autor: Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Editora Abril, Revista Veja, edição 1873, ano 37, nº 39, 29 de setembro de 2004, página 22

As Cartas Que Nunca Escrevi

Velho ditado aquele que diz que “de boas intenções, o inferno está cheio”. Demorei uns 16 anos para dizer, conscientemente, que amava meus pais. O sentimento sempre existiu. Meu pai e minha mãe são os grandes heróis da minha vida, sem dúvida alguma, mas não conseguia expressar isso de forma clara, o que só aconteceu depois da morte de um tio. quando o vi no caixão, e me imaginei enterrando meus pais sem dizer tudo o que queria. Esse é apenas um exemplo dentre vários parecidos na minha vida. Às vezes paro, meio nostálgico, e dói saber que para muitas pessoas, que foram e são extremamente importantes para mim, nunca mais terei a oportunidade de demonstrar o que sinto.

Fico pensando também no quanto Deus nos ama, e como parece difícil entender isso. É muito fácil dizermos que amamos a Deus. Cantamos músicas e mais músicas sobre nosso amor por Ele, mas será que realmente nos sentimos amados? Ou será algo como Woody Allen escreveu: “confesso que não gosto de contrapor as pessoas e os pensamentos, porque acredito na individualidade perceptiva de cada um, mesmo em se tratando de Deus, quando cada um sente, vê e segue o que lhe supre a carência deixada…”? Esse amor (ou essa forma de achar que sentimos o amor de Deus) seria o tal “ópio do povo”? Quando tal tipo de pensamento bate muito forte em mim, coloco uma boa música para ouvir e saio a caminhar, de preferência à noite, e Ele toda vez arruma uma maneira bem criativa de me mostrar explicitamente Seu amor.

Mas queria focar em outra situação. Acho que a frase de Carl Rogers vem a calhar: “é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa”. Não há sensação pior que perder um grande amor (sim, estou falando de relacionamento amoroso) por pura incompetência. Passei por isso, e a dor e o vazio que ficam são indescritíveis. Por mais que queira compartilhar com alguém, ninguém nunca entenderá o grau de intensidade, ou vai achar que é super valorização ou simplesmente frescura. E se tivesse mandado aquelas flores quando pensei? E se a tivesse levado naquele teatro chato, somente para estar com ela? E se tivesse escrito aquela carta a punho, mesmo falando com ela todos os dias? E se…? O mais legal é que muita gente vai rir ao ler esse post, principalmente meus amigos.São raras as pessoas que exteriorizam seus sentimentos e suas decepções amorosas, apesar de ser um dos fatores que mais transformam a vida do ser humano. Quem é que jamais viu um amigo se afastar por causa de um relacionamento? As roupas mudam, o gosto musical muda, a perspectiva de vida muda, a personalidade se adapta, e outras mudanças profundas acontecem. É até engraçado ver o processo.

Dentro do cristianismo, amor é assunto em voga. Mas pouco se fala dos corações, a não ser que “devemos guardá-lo”, embora relacionamentos impliquem riscos, inclusive. Riscos altos que devem ser ponderados, sim, mas que, muitas vezes, devem ser enfrentados. Diferenças sempre haverão, mas a capacidade de lidar com elas é que vai fazer a verdadeira diferença. A questão é: ouse; e náo hesite em ser piegas. Isso pode “garantir” seu casamento com a pessoa amada. E se não der certo, que não seja por falta de demonstrar seus sentimentos. A decepção faz parte da vida; porém, em tempos de “redes sociais”, um papel em branco e uma caneta bic podem mudar tudo.

Obs.: As frases de Woody Allen e Carl Rogers, furtei do Facebook da Tatá (‘creative commons’).

Diálogo de corpos. Diálogo de mentes.

Diálogo de corpos. Diálogo de mentes.
Os corpos falam. As mentes falam.
Corpos e mentes se manifestam diferentemente. Cada qual com sua própria linguagem.
De fato se comunicam. Há momentos em que suas mensagens se cruzam, e outros em que andam paralelas.
Contudo, quando os corpos conversam, as mentes se calam.
Namoro é conhecimento, casamento é experiência.
Sexo em tempo de teoria é falta de diálogo em tempo de prática.

*Por uma amiga que prefere permanecer anônima.