Perder Alguém

As vezes me perguntam e eu nunca sei muito explicar como é lidar com a ausência de alguém essencial na nossa vida. São 4 anos que vi minha mãe pela última vez.
Ela descobriu a doença uma semana antes do Natal de 2011. E aí já não existiu mais Natal e Ano Novo. Nenhuma promessa fazia sentido.
Dez meses depois ela se foi.
Em algum momento a doença entra na rotina da familia. Na ultima vez que ela foi pro hospital com uma crise, era um domingo de manhã e eu tava chegando de uma balada. Minha irmã tava saindo com carro pra leva-la.
Me senti tão lixo com o fato de estar me divertindo a noite inteira e ela sem conseguir pregar o olho.
Cerca de um ou dois meses antes eu tinha terminado um namoro/casamento bem conturbado. Tava lidando com um acúmulo de dívidas por conta de um longo período desempregado e uma baixa auto-estima que era um repelente natural de pessoas.
Mas quando lacraram o caixão, nada mais fazia sentido. Nenhum dos meus problemas tinha peso. Pelo simples fato de não ter a pessoa com quem mais dividia essas crises.
Não tinha mais o café dela.
Quando a gente perde alguém assim todos os cravos da vida se tornam penitências. A gente é exposto a nossa impotência e humanidade.
Pensamos em todos os momentos que deveríamos estar e não estávamos. Você pensa que deveria ter mais dinheiro pra oferecer tudo o que tivesse ao alcance da prata. Você repensa todas as discussões e o quanto gostaria de triplicar o número de pedidos de perdão e voltar no tempo para dar um tapa em si mesmo afim de baixar a bola.
A morte, principalmente, de alguém enraizado em você é pedagógica. E com um certo distanciamento você acaba entendendo que a vida só tem sentido porque ela é uma doença terminal.
A falta nos amadurece. Percebe que os espaços vazios da sentido ao que preenche o coração. Se não nossa alma se torna um eterno quarto da bagunça, cheio de coisas irrelevantes.
Digo isso porque sou esse ser cheio de vazios e incompletude. Cheio de saudades que apaziguam as minhas maldades.
É difícil como uma cena clássica do cinema, colocar um piano num apartamento sem elevador. Pela janela. Com ajuda. Correndo o risco dele cair e se espatifar no chão.
Mas a música, ah a música, um contínuo milagre.

Divagações sobre a Saudade, a Língua e a Arte.

Um dos álbuns que mais tenho ouvindo nos últimos dias se chama “Saudade” da banda norte americana I/O. O trabalho foi lançado em 2014 e, na verdade, é o único registro deles até então. É um álbum de post-rock instrumental belíssimo (ouça aqui https://youtu.be/TqapUf9J9PI). Na descrição, a banda diz o seguinte:

“I/O acredita que a experiência humana pode ser muito bela e grotesca, inspiradora e abominável, reconfortante e traumática para se colocar em palavras.”

A empresa britânica Today Translations promoveu uma listagem das palavras mais difíceis de traduzir adequadamente, onde “Saudade” ocupou o sétimo lugar. As palavras que mais se assemelham são “Hiraeth”, do galês, e געגועים (pronuncia-se “Ga’agu’im”), do hebraico, com uma conotação textualmente semelhante. Existe a palavra “tęsknota”, em polonês, mas que falha por só ser aplicada a pessoas apaixonadas e há, ainda, a palavra galega “morriña”, mas que se concentra em, basicamente, sentir falta de casa.

O Chino Moreno do Deftones montou mais um super grupo com membros do Bad Brains e do Cro-Mags chamado, adivinhem só, Saudade (ouça aqui https://bundles.bittorrent.com/bundles/saudade). A música de divulgação também se chama Saudade.

O último álbum do duo Thievery Corporation (EUA), lançado em 2014, se chama Saudade (ouça aqui https://youtu.be/W0CBzKfvA80). E é um baita trabalho de “neo bossa nova”, se é que isso existe. Só ouvindo pra entender.

A questão é que há uma infinidade de trabalhos artísticos – e olha que nem fui para literatura – que evocam essa palavra difícil de entender até pra nós mesmos. Normalmente, utilizamos ela pra dizer algo indizível que fica remoendo no peito.

É importante dizer que saudade não é falta. Falta é uma palavra e saudade é outra. E por confundir as duas, elas se perdem no nosso dia a dia. Percebo isso quando pessoas de outras línguas acabam se apropriando dela a fim demonstrar algo que sua própria língua não permite.

Somos o único país de língua portuguesa materna na America Latina e isso, infelizmente, nos afastou de nossos vizinhos em muitos sentidos. Apesar de haver um início movimento dentro do Brasil de “orgulho latino”. Se, nas minhas observâncias, somos vira-latas em relação a América do Norte e Europa, nos sentimos o dono da coleira na America Latina.

Uma pena, já que a diversidade cultural e linguística da nossa região teria um efeito arrebatador na nossa cultura se fosse intencionalmente aplicada. É algo que nos faz falta, mas justo as falta de abertura para diálogo não nos permite a saudade.

Uma Vida de Interrogações

Relendo “O Dia do Curinga” de Jostein Gaarder, entre tantas conversas, há o seguinte diálogo entre pai e filho:

– O que ensinam pra você na escola Hans-Thomas? Perguntou meu pai.
– A ficar sentado na carteira sem perguntar nada. Respondi.
– Está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender.

Parece que sou fruto desses anos. Não há muito espaço para dúvidas nos meus dias. Minha fé precisa ser resoluta, a vida profissional, amorosa e tudo mais precisa ser uma eterna afirmação. É preciso ter respostas para tudo.
E numa auto reflexão, concluo que uma vida de pontos de exclamação, corrompe.

Creio ser necessário desconstruir algumas afirmações e se converter às perguntas. Mesmo as mais óbvias.
O inflexível afirma a si mesmo. A pergunta é inclusiva. Aceita uma realidade mais ampla. Entende o desconhecido como parte do processo de crescimento e não é cooptado por si próprio a posição de Deus.
Até Jesus se colocou a disposição de lidar com as tantas realidades de sua vida “Quem vocês dizem que eu sou?”.
E isso não significa se moldar pela visão de outrem. Mas entender que a nossa identidade é mais ampla que os nossos olhos enxergam.
Citando uma música do Crombie:

Eu me conheço mais
Olhando pra você, eu vou
Descobrindo quem sou
E penso agora no que você vê.

O que me diz de mim
O que eu não reconheço, sem você
Eu não me enxergo bem
Se vivo a vida sem querer saber de mais ninguém.

Criamos um Sistema Suicida

Estava ouvindo “Songs For a Revolution Hope”, um dos projetos musicais do controverso (e querido) Brian D. McLaren.
Me deparei com essa musica/discurso que me deixou um tanto atordoado e pensativo como há muito tempo não ocorria. Segue uma livre tradução que realmente gostaria que você lesse e ouvisse. Quem sabe não compartilhemos o incômodo e a disposição.

http://brianmclaren.bandcamp.com/track/11-57

11:57

Criamos um sistema suicida e dissemos que estava predestinado. Dissemos que o diabo nos forçou a fazer isso. Dissemos um monte de mentiras. Era um sistema de injustiça construído em arrogância e ganância. Era um império para os poderosos e um inferno para os necessitados. Um sistema suicida. Continuar a ler

Aprendendo Como Morrer

Eu acredito na voz de Deus, porque acredito em Deus. Acredito na sua manifestação, porque acredito na sua existência.
Uma das músicas que mais gosto do Jon Foreman se chama “Learning How To Die” (Aprendendo como morrer). Desde o título, ela passa longe do que o senso comum atribui a Deus, um ser que precisa me fazer feliz, me enriquecer e estar apronto a realizar meus grandes sonhos. Afinal, sou filho dessa força etérea.
Num dos trechos da música ele diz “O tempo todo pensei que estava aprendendo a ir levando, em como me encurvar. Não como quebrar. (Aprendendo) como viver, não como chorar. Mas, na verdade, eu tenho aprendido a morrer”.
Deus já me fez alguns convites estranhos e absurdos durante a vida. Ir para lugares, falar com pessoas, criar alguns projetos, servir em determinadas situações e afins. Sei que fui compelido por Ele a isso porque não era minha vontade fazer. Ainda sim, muitas vezes, fui. Confiei. E durante todo o processo percebi o que e porque dEle me querer em determinadas situações. Mesmo que em partes.
Essa semana me peguei pensando a respeito dessas experiências. Sei que é difícil entender para alguns e sei que muitos querem enquadrar tudo isso dentro de algum pensamento lógico. Mas uma das coisas que me fazem permanecer, em fé, dentro da afirmação “Deus falou comigo”, muitas vezes de forma audível e direta, foi a iminência (e concretude) do fracasso de cada situação.
Quase todos projetos que me envolvi por convite dEle nasceram, cresceram e morreram. A sua maioria, fracasso trágico e estressante, a ponto de muitas vezes, em prantos, discutir com Deus duvidando de sua voz.
Há uns meses eu estava orando/meditando a esse respeito. Normalmente, depois de oferecer minhas palavras permaneço um tempo em silêncio. E, pasmem, ouvi uma voz clara no coração. “Eu sabia que daria errado. Fui Eu que fiz o convite”.
Permaneci algumas horas totalmente incomodado ruminando essas palavras. Na manhã seguinte, indo trabalhar, ouvindo Jon Foreman, compreendi.
Eu que não tinha entendido o convite direito. Não era sobre ter ou estar em algo. Era sobre quebrar e morrer.

Histórias

Há sempre uma história acontecendo ao nosso lado. Em São Paulo, especialmente, sempre fico muito atento ao redor. Normalmente reparo detalhes e fico ruminando eles por horas. E uma das coisas que me chama muito atenção é que, na sua maioria, todas as historias a nossa volta tem uma trilha sonora. Por vezes, a trilha define a história. Se estou ouvindo um som deprê, reparo mais nas pessoas que estão reflexivas ou tristes, e assim vai. Quando não ouço música alguma, fico olhando o rosto das pessoas para tentar adivinhar o que estão ouvindo.
Já escrevi textos que me fizeram chorar. Outros que, se eu tivesse como, me daria um Nobel de Literatura. Isso normalmente dura algumas horas. De repente, aquele momento passa e quando releio penso na minha ingenuidade, imbecilidade ou qualquer outro adjetivo referente. Eu tinha muito medo de publicar o que fosse. A maioria das vezes porque a música já não era mais a mesma.
Hoje não me preocupo mais com isso. O caos urbano é música suficiente pra mim. Não tenho medo de soar piegas porque um casal no Metrô me inspirou. Não tenho medo mandar ninguém pra puta que o pariu em caixa alta porque me irritou. Mas o que mais gosto hoje é como as palavras me transformaram e, por isso, aprendi a escrever sem inspiração. Se falta música, eu componho uma que só eu possa ouvir. Logo em seguida tento traduzi-la em palavras. Eis os absurdos e bipolaridades das minhas publicações. Posso ser grato na merda. Amar odiando. Xingar amando. Eu acredito no poder místico da palavra. Na música que ela dedilha. E talvez seja uma parte do meu papel como personagem desse Teatro do Absurdo. Te fazer experimentar sensações a contragosto. Te fazer sentir o tesão do fel, a tensão do amor, a alegria do ódio e simpatia pelo feio.
Sei que isso é chato, mas gostaria de fazer um pedido. Se quiser saber como estou, me pergunte. Mas se ler um texto meu, em seguida, se pergunte como estás. Eu adoraria saber qual a sua música no momento.

Você Já Se Perguntou “O Que Eles Estão Fazendo No Céu Agora”?

“Estou pensando em amigos que eu conhecia, que viveram e sofreram neste mundo. Mas eles partiram para o céu. Mas eu quero saber, o que eles estão fazendo lá agora? Há alguns cujos corações foram sobrecarregados com cuidado. Eles pagaram por seus momentos de lutas e lágrimas. Mas eles agarraram-se à cruz com tremor e temor; Mas o que eles estão fazendo lá agora? E há alguns cujos corpos estavam cheios de doença. Os médicos e os doutores não poderiam dar-lhes tanta facilidade. Mas eles sofreram até que a morte trouxe uma libertação final. Mas o que eles estão fazendo lá agora? Há alguns que eram pobres e, muitas vezes desprezados. Eles olharam para o céu com olhos cegos de lágrimas enquanto as pessoas estavam desatentas e surdas para os seus clamores. Mas o que eles estão fazendo lá agora? O que eles estão fazendo no céu hoje, onde o pecado e tristeza estão do lado de fora? A paz abunda como um rio, dizem eles. Mas o que eles estão fazendo lá agora?”

[Tradução livre da música What Are They Doing In Heaven Today? do texano Washington Phillips, numa versão da banda inglesa Mogwai para o seriado Les Revenants.]

What are they doing in heaven today?
I don’t know boy
But it’s my biz to say it and sing about it

What are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
What are they doing there now?

I’m thinking of friends whom I used to know,
Who lived and suffered in this world below
But they’ve gone off to heaven, but I want to know
What are they doing there now?

Oh, what are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
But what are they doing there now?

There’s some whose hearts were burdened with care
They paid for their moment to fighting and tears
But they clung to the cross with trembling and fear
But what are they doing there now?

And there’s some whose bodies were full of disease
Physicians and doctors couldn’t give them much ease
But they suffered ‘til death brought a final release
But what are they doing there now?

There’s some who were poor and often despised
They looked up to heaven with tear-blinded eyes
While people were heedless and deaf to their cries

But what are they doing there now?

Versão original AQUI!