Encontro em Samarra

Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões.

Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.

O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi.

Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”

“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.

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Conto-Versão de Somerset Maugham para “Encontro em Samarra” de John O’Hara

Sobre boas perguntas e péssimas respostas

Em determinada tradição judaica, uma das dimensões da sabedoria é chamada de “Oculto do oculto”*.

Ela, basicamente, inverte a lógica de discernir e, aí sim, agir. Dentro dessa dimensão, a ação (compromisso) promove o discernimento (sabedoria).

Conta a história de um discípulo perguntar ao Reb Zalman Schachter sobre sapiência:

– Como é que se pode alcançar a sapiência, a sagacidade e a compreensão? – Pelo uso do bom-senso, de bons julgamentos. – E como é que se alcança o bom julgamento? – Por meio de muita experiência. – E como é que alguém atinge muita experiência? – Por intermédio de maus julgamentos!

Segundo algumas tradições judaicas interpretativas, foi graças ao conteúdo do capítulo 24, versículo 7 do Êxodo que o mar pode ser aberto.

“E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o Senhor tem falado faremos, e obedeceremos.”

Faremos e, então, obedeceremos.

A percepção de agir para depois ouvir, que contraria quase todos os métodos de conduta, surgia a partir da própria experiência de se estar encurralado.

Nisso, a tradição conta que o mar só abriu quando um homem, que não sabia nadar, se jogou nas águas do Mar Vermelho.

Não pode haver evolução na resolução de nenhum problema sem que uma medida empírica possa dar base ao que é pensado, conclui o rabino Nilton Bonder.

A vida nos propõe, muitas vezes, o paradoxo de viver num mundo onde o acerto é desastroso, confirmando apenas aquilo que pode ser confirmado – este mundo, onde quem acerta perde a chance de conhecer o incrível mundo do que “não é”.

No caso do povo de Israel, o acerto seria morrer na mão do Faraó, voltar ao cativeiro ou morrer afogado.

A prática nos aperfeiçoa menos na oferta de respostas e mais na proposição de boas perguntas. E jamais se deve trocar uma boa pergunta por qualquer resposta que seja, porque mesmo na impossibilidade há alternativas.

O livro Ética dos Ancestrais diz:

“A sabedoria daquele que ultrapassa o peso de seus atos não se preservará. No entanto, aquele cujos atos ultrapassam a medida de sua sabedoria – sua sabedoria se preservará”.

*Postagem baseada na leitura do livro “O Segredo Judaico de Resolução de Problemas” – Nilton Bonder

Relatos de um racista em recuperação

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu…

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Segredo de Estado

Um produto essencial da repressão nos tempos da Ditadura Militar no Brasil, negociado a preço de ouro na chamada “abertura democrática”, e que garantiu o sucesso total do DOI-Codi na repressão, torturas e mortes, entre 1969 e 1991, quando a relação entre a polícia e exército se desfez – mas que manteve a Polícia Militar – foi o SEGREDO de Estado. O AI-5, a censura plena, foi primordial para isso.
Para o jornalista Marcelo Godoy “é como se o segredo fosse o derradeiro poder dessa comunidade. Abrir mão dele é como dar adeus às armas”.
É preciso sempre relembrar e afirmar – A ditadura no Brasil nunca deixou de existir. E não digo isso como figura de linguagem, mas como fato. Ela negociou a anistia, manteve seus segredos e se metamorfoseou em Estado Democrático. Basta olhar para velhos políticos ainda no poder e sua relação com o período ditatorial – nem é preciso evocar Bolsonaro e suas bestialidades, mas lembremos Marina Silva homenageando Jarbas Passarinho, um dos chanceleres do AI-5.
A Polícia Militar e sua letalidade, também chancelada por boa parte da sociedade brasileira, está aí para não me deixar mentir. Percebe como a história é cíclica?
Referenciando Hannah Arendt, nas palavras de Kucinski, “O jornalismo tem mais a ver com a derrubada dos segredos do poder do que com a informação dos fatos contingentes, sujeita a interpretações e lacunas testemunhais”. Parece que, infelizmente os colegas de profissão e, mais triste ainda, os aspirantes a ela tem perdido essa dimensão de vista que, como a história comprova, é questão de vida e morte.

Bônus: a foto anexa é a primeira página do livro “A Casa da Vovó” do jornalista Marcelo Godoy. O livro conta a história do DOI-Codi usando testemunho de agentes que trabalharam lá. Muitos deles foram ‘repreendidos’ diretamente por Brilhante Ustra para que mantivessem o segredo guardado.

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Divagações sobre a Saudade, a Língua e a Arte.

Um dos álbuns que mais tenho ouvindo nos últimos dias se chama “Saudade” da banda norte americana I/O. O trabalho foi lançado em 2014 e, na verdade, é o único registro deles até então. É um álbum de post-rock instrumental belíssimo (ouça aqui https://youtu.be/TqapUf9J9PI). Na descrição, a banda diz o seguinte:

“I/O acredita que a experiência humana pode ser muito bela e grotesca, inspiradora e abominável, reconfortante e traumática para se colocar em palavras.”

A empresa britânica Today Translations promoveu uma listagem das palavras mais difíceis de traduzir adequadamente, onde “Saudade” ocupou o sétimo lugar. As palavras que mais se assemelham são “Hiraeth”, do galês, e געגועים (pronuncia-se “Ga’agu’im”), do hebraico, com uma conotação textualmente semelhante. Existe a palavra “tęsknota”, em polonês, mas que falha por só ser aplicada a pessoas apaixonadas e há, ainda, a palavra galega “morriña”, mas que se concentra em, basicamente, sentir falta de casa.

O Chino Moreno do Deftones montou mais um super grupo com membros do Bad Brains e do Cro-Mags chamado, adivinhem só, Saudade (ouça aqui https://bundles.bittorrent.com/bundles/saudade). A música de divulgação também se chama Saudade.

O último álbum do duo Thievery Corporation (EUA), lançado em 2014, se chama Saudade (ouça aqui https://youtu.be/W0CBzKfvA80). E é um baita trabalho de “neo bossa nova”, se é que isso existe. Só ouvindo pra entender.

A questão é que há uma infinidade de trabalhos artísticos – e olha que nem fui para literatura – que evocam essa palavra difícil de entender até pra nós mesmos. Normalmente, utilizamos ela pra dizer algo indizível que fica remoendo no peito.

É importante dizer que saudade não é falta. Falta é uma palavra e saudade é outra. E por confundir as duas, elas se perdem no nosso dia a dia. Percebo isso quando pessoas de outras línguas acabam se apropriando dela a fim demonstrar algo que sua própria língua não permite.

Somos o único país de língua portuguesa materna na America Latina e isso, infelizmente, nos afastou de nossos vizinhos em muitos sentidos. Apesar de haver um início movimento dentro do Brasil de “orgulho latino”. Se, nas minhas observâncias, somos vira-latas em relação a América do Norte e Europa, nos sentimos o dono da coleira na America Latina.

Uma pena, já que a diversidade cultural e linguística da nossa região teria um efeito arrebatador na nossa cultura se fosse intencionalmente aplicada. É algo que nos faz falta, mas justo as falta de abertura para diálogo não nos permite a saudade.

O Trabalho

“Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, como em Auschwitz I, onde a inscrição foi feita por prisioneiros com habilidades em metalurgia e foi erigida por ordem dos nazistas em junho de 1940.
Estou terminando de ler o livro semi-ficcional de Bernardo Kucinski chamado “K. Relato de Uma Busca” em que ele fala sobre o processo de procura por sua filha, Ana Rosa, professora de química da USP, militante comunista e uma das tantas desaparecidas do regime militar brasileiro. Segundo suas palavras “tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.
Em paralelo, tenho lido alguns relatos do período ditatorial e em determinado momento as histórias se encontraram. Num ponto de sua busca, K. vai falar com um médico no Rio de Janeiro que poderia ter informações sobre sua filha. O senhor em questão era responsável por manter vivo os presos torturados para que eles revelassem tudo o que fosse possível acerca dos opositores do regime.
Hoje meu amigo Leandro Barbosa, a cabeça por trás do site História Incomum, que você deveria conhecer – tem texto meu lá também ‪#‎jaba‬ – postou “A cada dia que passa eu amo mais o Jornalismo. É fantástico as possibilidades de exercer a justiça, que ele me dá.”
E nessa profusão de ideias, somando o ponto de Focault sobre o valor de um diploma (https://goo.gl/x2aH5g), fico pensando sobre como nosso acumulo de conhecimento tem servido a sociedade. Digo, porque, entendo trabalho como aplicação prática de um conhecimento específico ou genérico.
Mais do que chegar a uma conclusão, compartilho os seguintes questionamentos para reflexão no exercício de cidadania, da fé, nos relacionamentos interpessoais e o que mais couber na vida em sociedade:
Temos salvado a vida de alguns para prolongar a tortura e a dor?
A liberdade e independência proporcionada por nossos trabalhos/conhecimentos tem sido a mesma de um campo de concentração?

E é importante frisar que não se trata do que escolhemos fazer/conhecer, mas como.

Desobedecer

Para Foucault – analisando os séculos 17 e 18 – “o suplício [penas judiciais torturantes] não restabelecia a justiça” mas “reativava o poder” do soberano. Mesmo que uma infração cometida não lesasse ninguém, a pena tendia a ser severa por ser uma afronta direta ao rei.

“Vemos pela própria definição da lei que ela tende não só a defender, mas também a vingar o desprezo de sua autoridade com a punição daqueles que vierem a violar suas defesas” escreveu Muyart de Vouglans em 1780.

Num olhar generalista, apesar das reformas jurídicas ao longo dos anos, me parece que essa premissa foi amplificada. Se antes a afronta era diretamente ao rei ou o clero, hoje ela é intrínseca a sociedade de consumo. Por isso da validação dos linchamentos públicos baseados apenas na desconfiança e aparência, do aplauso em questões obscuras como o garoto de 10 anos assassinado pela PM, a crítica de muitos em relação ao, por exemplo, movimento secundarista em efervescência no Brasil, de nossa política que tem o falso moralismo como base de governo, culminando em aberrações como “dia de combate a cristofobia” e, em especial pelo calor do debate, a questão do estupro que culpabiliza a vítima.

Em resumo, a justiça, em todos os âmbitos, não tem servido a verdade, nem defendido o indefeso e, menos ainda, protegido o desvalido. Ela é serva plena do poder. Seja de um governo corrupto ou até do ‘cidadão de bem’ que se apossa do direito de matar física ou psicologicamente para, quem sabe um dia, refletir e julgar a veracidade e a justeza da questão.

Por isso, me parece mais próximo da justiça e da verdade, a desobediência. Seja ela civil, religiosa, familiar e/ou de qualquer outro núcleo.

Inclusive, me admira muitos projetarem essa lógica de (in)justiça e (usurpação de) poder no Deus cristão. Pensando que Jesus, sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente (ao chamado em Mateus 11:5 – e desobediente aos sistemas desse mundo) até à morte, e morte de cruz”.

Talvez alguns queimem nessa fogueira, outros sejam supliciados e crucificados, mas a história há de reverberar a paz e absolve-los. Mais do que isso, libertar outros.

Seres Híbridos

Estou terminando de ler (ouvir, na verdade) o livro A Guerra do Fim do Mundo do escritor peruano Mário Vargas Llosa. Lançado em 1981, o autor, depois de uma exaustiva pesquisa por bibliotecas mundo a fora, e de peregrinar por inúmeras cidades do sertão baiano, conta sua versão de Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos.

Llosa ficou impressionado com a leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha e se sentiu impelido a essa empreitada. Entre seus colaboradores nesse projeto estava o escritor e amigo Jorge Amado.

A grosso modo, Canudos se tornou um reduto onde o dinheiro da recém república fora abolido, onde o casamento civil, então, recém instituído fora recriminado e o amor livre apregoado. Onde ninguém poderia dizer que algo era seu. Tudo era de todos.

Todas esses ideais baseados numa leitura penitente e libertária dos evangelhos.

Lembre-se de pensar tudo isso em 1896/97 no sertão nordestino. Continuar a ler

Sobre a Arte de Escrever Um Livro

Há um bom tempo to lutando pra escrever meu primeiro livro. E não é uma daquelas coisas “Escreva um livro, plante uma árvore e tenha um filho”. É uma coisa que me domina mais do que eu domino sobre essa coisa.
Uma das minhas maiores inspirações contemporâneas é, com certeza, Donald Miller.
Há uns 3 anos ele publicou no seu blog um texto sobre a arte de escrever um livro. O Ricardo Alexandre fez o grande favor de traduzir.
Por isso, estou aqui me aproveitando disso pra compartilhar sobre esse “plano de cinco passos” pra você que está na batalha de escrever um livro, pra você que já escreveu e, principalmente, pra você que está sentado confortavelmente lendo um ótimo livro.
Só posso dizer que fico feliz por estar no caminho certo.

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Eu li muitos livros sobre a arte de escrever. Meus favoritos são On Writing Well de William Zinsser, Palavra por palavra, de Anne Lamott e A Guerra da arte, de Steven Pressfield. Todos livros fantásticos.
Pensei, então: vou compartilhar meu plano de cinco passos para escrever um livro. Aqueles livros são legais, mas esta é a verdade verdadeira.
Use-o como achar melhor, mas isso é realmente como o processo acontece:

1. Comece com uma idéia incrível: Saiba em sua cabeça que este livro vai ser um best-seller flamejante e vai mudar o mundo. Irrite seus amigos repetindo sempre essas coisas. Quando eles estiverem muito irritados, resmungue entre dentes em alguma conversa casual sobre como o seu livro coincidentemente responderá à questão em discussão, ou qualquer coisa do tipo. Continue o processo por cerca de um ano antes de começar a escrever. É importante. Continuar a ler

O Dia do Curinga

Quando a tempestade que se instalara no meu interior por fim começou a se acalmar, tomou conta de mim um sentimento que desde então nunca mais me deixou: ao me virar e, lá de cima, vislumbrar o povoado, eu me dei conta, pela primeira vez, de que o mundo é um milagre que está além da nossa compreensão. “Como explicar”, eu me perguntei, “o fato de que nascemos seres humanos?” Essa indagação e esse sentimento tiveram em mim o impacto de uma descoberta totalmente nova. E, não obstante, aquilo que eu descobria estava ali, à mostra, desde os primeiros dias da minha infância. Era como se eu tivesse dormido durante toda a minha vida até aquele momento. Um sono de muitos anos. “Eu existo!”, pensei. “Sou um ser vivo!” Pela primeira vez em minha vida entendi o que é um ser humano. (…).

Sentei-me num pequeno toco de árvore e logo vi um cervo que se aproximou de onde eu estava. Não havia nada de anormal na aproximação de um animal silvestre: nas florestas ao redor de Dorf havia muitos cervos. Mas não conseguia me lembrar de já ter visto e experimentado em mim mesmo a maravilha de um ser vivo como aquele. É claro que eu já tinha visto outros cervos, quase todos os dias. Mas nunca tinha entendido como cada um deles era algo único, misterioso, muito além do que a gente pode compreender. E naquele momento entendi também por que até aquele dia tudo tinha acontecido desse jeito: eu não tinha dado tempo a mim mesmo de vivenciar a presença de um cervo, exatamente porque já tinha visto tantos.

E é assim com tudo, pensei, com todas as coisas do mundo. Enquanto somos crianças, ainda possuímos a capacidade de experimentar intensamente o mundo à nossa volta. Com o passar do tempo, porém, acabamos por nos acostumar com o mundo. Ser criança e se tornar um adulto, pensei, é como embebedar-se de sensações, de experiências sensoriais (…).

O cervo me olhou por uns dois segundos e depois saltou de volta para o meio das árvores. Por um breve instante experimentei um silêncio indescritível. Depois, um rouxinol começou a cantar. Um canto lindo, repleto de júbilo. Era impressionante ver como um corpo tão pequeno podia conter tanto som, tanto fôlego, tanta música. “Este mundo”, pensei, “é um milagre tão fantástico que, diante dele, a gente não sabe se ri ou se chora. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo, o que não é nada fácil.”

Lembrei-me de uma camponesa que vivia lá em Dorf. Ela só tinha dezessete anos, mas naquela semana havia entrado na padaria com um bebé: uma menina de, no máximo, duas ou três semanas de vida. Nunca tinha me interessado muito por crianças de colo, mas quando olhei aquele cestinho em que estava a menina, pareceu me ver nos olhos da criança uma expressão de surpresa, de espanto sem palavras. Eu não tinha mais pensado sobre o assunto, mas sentado ali na floresta sobre o tronco de árvore e ouvindo o canto do rouxinol, enquanto um tapete de sol se estendia sobre as cumeadas do outro lado do vale, naquele momento entendi o que o bebé teria dito se pudesse falar: teria dito que aquele mundo a que ele tinha chegado era uma coisa de fato surpreendente.

Não tinha me esquecido de cumprimentar aquela jovem mãe pelo nascimento de sua filha, mas acho que no fundo devia mesmo era ter dado os parabéns à criança. Do mesmo modo como a gente deveria se debruçar sobre cada novo cidadão do mundo e dizer: “Bem vindo a este mundo, meu pequeno amigo! Você tem realmente uma sorte incrível em poder nascer e viver!”.

Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida.
Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos… e então… bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo.

_O Dia do Curinga – Jostein Gaarder

A Vida. Um Filme.

Se assistisse a um filme sobre um menino que queria um Volvo e trabalhou durante anos para comprá-lo, você não choraria no fim ao vê-lo sair do estacionamento ao volante, testando o limpador de para-brisas. Você não diria a seus amigos que assistiu a um filme bonito nem iria para casa e apertaria o botão do DVD para se lembrar da história que viu. A verdade é que você não iria se lembrar do filme uma semana depois, a não ser que se sentisse lesado e quisesse seu dinheiro de volta. Ninguém chora no fim de um filme sobre um menino que quer um Volvo.
Mas, na verdade, passamos anos vivendo essas histórias e esperamos que nossa vida tenha sentido. A verdade é que, se o que escolhemos fazer com nossa vida não criar uma história com sentido, isso também não dará sentido à vida.

Donald MillerUm Milhão de Quilômetros em Mil Anos

O Poder da Metafora

A palestra era sobre o poder da metáfora. Spencer começou perguntando em quais metáforas pensávamos quando o tema era o câncer. Nós demos respostas, basicamente todas iguais; “nós combatemos o câncer”, “nós lutamos contra o câncer”, “nós estamos reconstruindo nossas células brancas”, e assim por diante. Spencer chamou a atenção para o fato de que a maioria esmagadora das metáforas indicadas por nós eram de metáforas de guerra. (…) Ele então começou a falar sobre pacientes de câncer e de como, por conta das metáforas bélicas, muitas pessoas que sofrem de câncer sentem um fardo maior do que deveriam. (…) algumas, achando que foram lançadas em uma guerra mortal, simplesmente desistem.
(…)
O Sr. Spencer então nos perguntou sobre outra área em que ele achava que as metáforas causavam problemas. Ele nos pediu que pensássemos em relacionamentos. Que metáforas usamos quando pensamos em relacionamentos? “Nós valorizamos as pessoas”, gritei eu. Sim, disse ele, e escreveu no quadro. “Nós investimos nas pessoas”, acrescentou outra pessoa. E logo tínhamos uma longa relação de metáforas econômicas. “Os relacionamentos podem falir”, dissemos. “As pessoas não tem preço”, dissemos. Sempre metáforas econômicas. Fiquei chocado.
Foi quando isso me atingiu como uma epifania em minhas artérias. O problema da cultura (…) é que pensamos no amor como uma mercadoria. Nós o utilizamos como dinheiro. (…) Se alguém está fazendo algo por nós, nos oferecendo algo – sejam presentes, tempo, popularidade, o que quer que seja -, sentimos que ela tem valor para nós e, talvez, sintamos que ela não tem preço. Vi isso claramente, e senti isso nas paginas da minha vida. Eu usava o amor como moeda. (…) Com amor, negamos afirmação às pessoas que não concordam conosco, mas financiamos prodigamente os que concordam.

Donald Miller – Blue Like Jazz

A reflexão fica por conta de cada um.