Histórias Reais III – A Saga de Um Anjo nas Ruas

Sentei em um banco de concreto na praça. Fiquei olhando a rua e me lembrei da cena que tinha visto semanas antes. Um carro encostando, uma das menores da cracolandia descendo arrumando o sutiã e um velho gordo com uma cara nojenta de satisfação. Ela… 13 anos de idade, extremamente comunicativa, bonita e muito simpática. Mas fingiu que não me viu quando passou. O ódio passou por todo meu corpo.

Infelizmente, cena comum nas ruas da Vila Rubim, região central de Vitória/ES.

Estou de volta a São Paulo e não consigo parar de pensar nas noites a dentro em conversas que marcaram minha vida pra sempre. Não consigo parar de pensar em A. e o nosso último triste episódio.

Tínhamos marcado de almoçar com ela na base, mas quando fomos busca-la debaixo da ponte onde normalmente ficava, não conseguia parar em pé. Estava há tantos dias sem dormir por causa do crack que o cerébro estava apagando. Estava com uma marmitex na mão e comia como um bixo, sem a menor noção do que estava fazendo. Não nos reconheceu. Ajudamos ela a comer para que não engasgasse, arrumamos um papelão limpo, deitamos ela e ficamos olhando com lágrima nos olhos ela dormir quase que imediatamente. Sabia que ela acordaria somente no outro dia. Continuar a ler

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Histórias Reais II – Um Anjo!

“Aqui, todo mundo come ela, mas na hora de cuidar quando está doente, ninguém quer saber de nada”.

A. é uma garota doce e linda. Tem 16 anos e o mesmo número de passagens pela policia. Conheci ela nas ruas do centro de Vitória com a galera do Avalanche.

Nessa mesma noite nos contou um pouco de sua história.

“Eu tenho família, tenho uma casa e tenho irmãos mais novos. Mas eu gosto da rua. Gosto da onde estou. Só volto de vez em quanto para ver meus irmãos. Grito o nome deles do lado de fora, abraço-os, vejo se estão bem e volto novamente pra rua”.

Logo se simpatizou com as meninas que estavam com a gente, o que acabou transformando a Cracolândia em um “clube da luluzinha”. Até chocolate, muito provavelmente roubado e vencido, foi compartilhado entre elas.

Depois de uma noite de troca de idéia com o pessoal da rua, fomos embora com um misto de alegria por tê-la conhecido e, ao mesmo tempo, uma tristeza no coração por não termos como ajudar-la efetivamente naquele momento.

Durante as outras sextas-feiras que íamos trocar idéia com o pessoal lá, sempre perguntávamos por ela. Raramente alguém sabia notícias. Ficamos bem incomodados com isso. Há uma semana atrás, J., uma garota de 13 anos, sobre quem pretendo escrever a respeito também, nos falou que A. “caiu. Foi pega fumando pedra”.

Era uma rotina a qual ela já estava acostumada, mas ficamos mais preocupados pelo fato de J. nos dizer que ela já deveria ter sido liberada pela polícia. Não é preciso dizer que ficamos a semana inteira pensando nela.

Mas nessa última sexta-feira, a reencontramos por volta da 00h00min perambulando pela Vila Rubim. Demos um grande abraço nela, mas ficou pouco tempo conosco, saiu e disse que voltaria logo. Estava indo comprar pedra.

Esperamos um bom tempo, mas ela não voltou. Resolvemos ir rever uma outra galera da rua e eu fui em direção a “boca” tentar achar J., o traficante com quem vinha mantendo um relacionamento. No meio do caminho a encontramos voltando da “boca” junto com mais um rapaz, na faixa dos 25 anos de idade. Ela veio na minha direção pra se despedir novamente e me dar um abraço. Gritou a galera que estava do outro lado da Avenida e foi em direção deles. Eu segui em frente pra ver se J. estava por lá. Dei uma olhada geral e nem sinal dele. Virei as costas e fui reencontrar a galera do Avalanche. Em questão de segundos, um camburão com cinco oficiais da Policia Militar chega fortemente armado pra dar geral em todo mundo da “boca”. Eu e um amigo abaixamos a cabeça e continuamos andando. Definitivamente, não estávamos querendo tomar coronhada de ninguém naquela noite. Continuar a ler

Histórias Reais! (Inclusive a minha)

É extremamente complicado explicar o quanto tenho aprendido nesses meses de escola aqui no Avalanche. Muito dos processos pelo qual eu passei em minha vida, não entendia o propósito até vir pra cá. Não há um dia sequer em que não somos confrontados em algo. Seja durante a aula. Seja numa discussão filosófica. Seja lavando louça. Seja acordando ou dormindo. Mas até o fato de estar crescendo em conhecimento aqui, me foi confrontado alguns dias atrás.

Sexta-Feira a noite é quando normalmente acontece o evangelismo de rua. Confesso que na maioria das vezes saio bem desanimado da base. Aliás, não necessariamente desanimado. Mas depois de uma semana tensa e intensa de aulas, debates e práticos, chegando final de semana estamos bem desgastados. Como normalmente vamos pra cracolândia daqui de Vitória, muitas vezes conversamos a noite inteira com os “nóias” da rua, sabendo que, pela manhã, eles nem se lembrarão que esse momento aconteceu.

Mas particularmente nesse dia, antes de sair, orei de forma extremamente sincera para com Deus. Pra que eu pudesse,pelo menos sentir no meu coração, que algo efetivo foi feito pela vida das pessoas que conversássemos.

Ganhamos a noite. A medida que fomos chegando no lugar, o grupo foi se dividindo tentando trocar uma idéia com os viciados, moradores de rua, prostitutas… pessoas em geral. Um dos responsáveis me apontou um grupo de umas quatro pessoas e me disse que eram os traficantes do lugar. Me perguntou se eu gostaria de ir lá conversar com eles. Não pensei duas vezes. Poderia conversar com uma pessoa “lúcida”, apesar de não saber exatamente como chegar nela e sobre o que conversar. Fomos eu e mais duas pessoas. Havia um bar aberto logo em frente e as pessoas começaram a nos olhar diferente, pois sabiam que não éramos daquela região. With, um amigo meu sentou-se em alguns degraus ao lado do bar e começou a puxar papo com uma menina e um rapaz que estavam no local. Eu e a Chrys, do Manifesto Missoes Urbanas de Uberlandia, atravessamos a rua para falar com o dono da “boca”. Como percebi que algumas pessoas da rua com quem já tínhamos algum contato não estavam nos seus lugares habituais, usei isso como desculpa para perguntar ao traficante se tinha acontecido algo por ali e onde o pessoal tava concentrado naquela noite. A conversa se desenvolveu mais ou menos assim:

Traficante: O que vocês querem?

Nós: Nada. Só queremos trocar idéia.

Traficante: Vocês não tem medo de ser roubado?

Nós: Não. Estamos de boa.

Traficante: Ahhh… vocês são de Jesus, neh?

Nós: Isso mesmo. Os crentes incomodam muito por aqui?

Traficante: Não não. Muito pelo contrário. Quem enche o saco são os macumbeiros.

A partir daí a conversa fluiu bem entre uma venda e outra de pó e pedra (e não foram poucas). A policia passava toda hora, pois havia acontecido ALGUNS homicídios na região. Até virei para minha amiga e já avisei pra ela se preparar pra tomar “geral dos homi”, o que graças a Deus não aconteceu.

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