Por Uma Prática Cristã Que Nos Permita Cagar em Paz em Louvor a Deus!

Há uma oração matinal judaica que diz o seguinte:

“Bendito Sejas, nosso Deus, Soberano do Universo, que moldastes os seres humanos com sapiência e criaste neles muitas aberturas e cavidades. É óbvio e conhecido, diante do Teu Trono de Glória, que basta apenas que uma delas se rompa, ou que uma delas fique bloqueada, para tornar-se impossível sobreviver e estar diante de Ti, que curas toda a carne e ages através de atos maravilhosos.”
Na tradição rabínica, compreender o conceito de receber, e poder vivenciá-lo, é uma arte sagrada a ser exercitada e aperfeiçoada por toda vida.
O ser humano tem um relacionamento mais do que vital com a alimentação. Quantas vezes não descontamos nossas frustrações ou celebramos nossas vitórias através da comida, mesmo não estando, necessariamente, com fome.
Eis porquê muitos rabinos tratam da obesidade menos no sentido de magro/gordo e mais como leve/pesado.
Segundo o Rabino Nilton Bonder, “uma antiga lenda sobre a geografia da terra de Canaã compara seus dois mares, o mar da Galiléia, abundante em peixes e vida, e o mar morto, um caldo de matéria sem vestígio algum de vida, e pergunta qual a razão desta diferença. A respostas, explica-se, encontra-se no fato de no mar da Galiléia receber através do rios o resultado do descongelamento das neves do maciço de Golan, mas também deixar flui de si as águas do rio Jordão, que terminam no mar Morto. Este, porém, não as deixa seguir. Não sabe receber e estabelecer uma relação com a natureza ou com o universo. Se experimentamos o recebimento como um fenômeno unilateral, que se limita a algo que nos é dado, separamo-nos gradativamente da troca que, em última instância, representa vida”.
E não é assim nosso processo digestivo? Alimentar-se sem a possibilidade de expelir os dejetos pode, literalmente, nos matar. A boca e o anus são extremidades do mesmo processo.
Em 2013, de acordo com os dados do Ministério das Cidades (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS), 82,5% da população do país era abastecida com água tratada, ou seja, mais de 35 milhões de brasileiros não possuíam este serviço. Em relação à coleta dos esgotos, 48,6% da população recebia este serviço, totalizando quase 100 milhões de brasileiros fora da conta.
O processo de acabar a miséria e a fome no Brasil (e no mundo) passa pela questão de saneamento básico. E enquanto gastamos extremo esforço na articulação de uma política extremamente retrógrada e moralista no Brasil, nada se ouve em nossos púlpitos (leia-se no dia-a-dia) a respeito de tal questão tão presente na nossa realidade – basta um mínimo esforço para enxergar.
Se concordamos com a oração no começo desse texto que diz que “basta apenas que uma das cavidades se rompa, ou que uma delas fique bloqueada, para tornar-se impossível sobreviver e estar diante de Ti” pecamos por omissão e nosso louvor é estéril por não permitir que milhares de irmãos e irmãs se quer tenham o direito de cagar em paz.

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