Encontro em Samarra

Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões.

Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.

O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi.

Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”

“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.

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Conto-Versão de Somerset Maugham para “Encontro em Samarra” de John O’Hara

Garoto do Interior

“Nós não somos daqueles que desistem”, sempre lembrava minha mãe.
Após sua partida, descobrimos que ela havia preparado e organizado muitas coisas. Deixado recado e dicas através de outras pessoas para resolver algumas questões. De alguma maneira ela esperava pela morte sem grandes preocupações. Apesar de nova, de todo o processo de quimioterapia, indas e vindas ao hospital, internações e momentos de muita dor, ela constantemente estava sorrindo.
Tenho algumas dividas com ela. Algumas coisas que gostaria de ter falado e reafirmado. A idade avança e parece que a gente passa pela transição de filhos para pais ao longo da vida. Mesmo sem um filho biológico ou adotado. Então hoje consigo reconhecer algumas de suas atitudes que na época não entendia direito, mas que desembocaram em exemplos perfeitos a serem seguidos.
Já estive em rota de colisão com a vida em vários momentos. Algumas vezes, admito, por vontade própria. E não se trata de pensamentos suicidas, nesse caso. Mas um tipo de auto degradação, melindre e um certo desespero que gerava uma necessidade de sentir dor para se sentir vivo. Apesar de períodos angustiantes, minha relação com a dor nunca mais foi a mesma. Como disse certa vez C.S. Lewis Continuar a ler

Quanto pesamos?

Já assistiu a morte de alguém? Já viu alguém parar de respirar e nunca mais voltar?

Um médico americano chamado Duncan MacDougall fez um experimento em 1907. Ele acompanhava o peso de seus pacientes terminais. De repente, um deles morreu subitamente e a balança registrou imediatamente a perda de 21 gramas. Eis o porque do título do segundo filme da chamada Trilogia da Morte do Iñárritu, composto por Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Filmes, para mim, considerados imperdíveis.

Apesar de seu experimento registrar diferentes pesos durante a morte de outros pacientes, o médico dizia que isso tinha a ver com o temperamento e a personalidade de cada um; “Um dos homens era apático, lento no pensamento e na ação. Nesse caso, acredito que a alma ficou suspensa no corpo, depois da morte, até se dar conta de que estava livre”.
Apesar de varias refutações e tantas outras explicações frente as brechas do experimento do médico, em 16 de outubro de 1920, o The New York Times anunciava a morte de MacDougall com o título “Ele pesou a alma humana”.
Assisti a morte de uma pessoa muito próxima – até o último suspiro. E por alguns segundos parei de respirar junto. Uma agonia quase indescritível. Minha única reação foi chorar descontroladamente a dor da falta. Ao mesmo tempo, minha mente estava a milhões de quilômetros por hora. Pensei no seu corpo; o que sentia? Na sua alma; qual seu estado de consciência? No seu espirito; o que via?
Dicotomias a parte, senti claramente naquela sala uma sensação de esvaziamento. Não poética. Era uma percepção clara e quase palpável. Do nada não estava mais lá. E, apesar do rombo na alma, o esvaziamento trouxe paz. Descansou. Não sei mensurar quanto tempo se passou nesse processo, mas creio que não mais que segundos.
Fiquei muito tempo a pensar. Qual será o peso de nossa alma? Qual o seu legado?
“Louco! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?” Lucas 12:20

O Caminho da Morte

O caminho da morte segue as flores deixadas pelos amantes e desconhecidos. Um simbolo. Um jardim morto. De flores arrancadas.
O caminho da morte segue a música. Um cortejo. Fúnebre, mas um cortejo. Um símbolo. A música que nossa vida deixou ressoar.
O caminho da morte segue o amor. É como uma fonte que sangra amor puro, líquido e transparente. Um símbolo. O coração do próximo vive em nós.
Dizem que flores bem regadas, que ouvem música, florescem da melhor forma possível. Acho que é disso que se trata o caminho da morte; o plantar de um grande jardim. Pena que nem todo terreno floresce. Alguns simplesmente se ressentem, secam e ficam estéreis.
Mas o tempo ainda canta. O caminho da morte começa na vida. E termina em saudade. O que colherão na primavera?

Minha Mãe Se Foi…

A vida é para frente.

Desde que me conheço por gente, minha mãe sempre me preparou para a morte. Compartilhando a fé, falando sobre a vida e o futuro. Apresentando valores e não preços. Valores esses que muitas vezes deixei de lado.

Quando rolava uma situação extremamente complicada, que saia totalmente do nosso controle, ela sempre dizia, principalmente para o meu pai, “nós não somos daqueles que não tem esperança”.

Sempre me perguntam se estou triste. Não estou. O que resta é uma saudade imensurável que dói constantemente. Mas é como se fosse uma tatuagem. No fim, o desenho no peito, por mais estranho que pareça, reflete a maior lição deixada – Esperança.
E “eu sigo certo na contra-mão…” do jeito que ela me ensinou.