Licenças

Tem poesia que não gosta de conversar
É somente som
Rima
Música dançante aos ouvidos
Ainda sim, poetisa

Tem poesia que denuncia
Chega ser estridente
Tiro
Traçante dividindo dicotomia
Ainda sim, alivia

Tem poesia que não se compromete
É carta aberta
Coração
Aquela desconhecida que passa sem aviso
Ainda sim, brilha

Tem poesia que é pra te ter
Mas não carrega seu nome
Identidade
É preciso se conhecer pra se ver
Ainda sim, você

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A Responsabilidade de Ser um Milagre

“Em nenhum caso Deus é condicionado por ninguém, exceto por si mesmo. O que já vimos na história, no entanto, é que Deus intervém porque continua a ser Deus do seu povo. Ele intervém porque aquele que encarna o povo, que normalmente deveria representar Deus para o povo (…) deixa de cumprir esse papel(…). Nesse momento Deus toma sobre si a miséria do povo, sua vergonha, e o mal que ele comete. Podemos quase dizer que o que “determina” a ação de Deus em dada circunstância é que Deus toma sobre si o mal e a miséria do homem. Referindo-se a Jesus Cristo, podemos dizer que o que determina a ação e a decisão de Deus aqui e agora é que ele tomou sobre si toda a miséria e toda a revolta do homem em seu Filho Jesus Cristo: toda a miséria e todo o mal, incluindo aquele da situação particular que estamos agora enfrentando em nossas vidas. Deus intervém nesta situação precisamente por essa razão. É simplesmente outro modo de dizer que Deus ama todo homem em cada momento e em cada situação específica, como ele amou seu filho Jesus Cristo: não mais (pois Jesus Cristo foi entregue à tentação, à prova, à fadiga, à fome, ao sofrimento e à morte), mas também não menos.
(…)
Mas, em cada ocorrência, o milagre está ligado ao homem, ao homem de Deus. O milagre não cai diretamente do céu. Ele é inserido no nexo das ações humanas. Ele não tem um significado em si mesmo. Quando o milagre começa, o homem está associado a ele pela oração; quando o milagre termina, o homem está associado a ele pelo testemunho e pela explicação. Esse testemunho do imenso amor de Deus – que não só cria e salva, mas que também, em sua incompreensível humildade, quer associar o homem à sua obra (…). Trata-se de uma notável ilustração da delicada fórmula de Pascal: ‘Deus estabeleceu a oração para comunicar a dignidade da causalidade a suas criaturas'”.

O Sonho

Tudo aconteceu mais ou menos assim. Eu morri.
Não entendi direito como, mas foi o que aconteceu. Lembro do barulho surdo do tiro e do vermelho sangue em minha roupa. Mas, curioso, não lembro da dor. Inclusive não saberia nem definir o que é essa tal de dor. Estranho.
Lembro das vozes. “Volte. Por favor, volte”. “Estamos perdendo ele”. Pessoas, gritos, sirenes. Era tudo meio confuso mas, enfim, o fim chegou. Não fiz força pra ficar. Não fiz força pra ir embora. Mas preciso lhes confessar algo. Fiquei frustrado. Cadê a luz branca?
Lembrei dos filmes “caminhe para a luz”. Mas na falta dela, admito, fiquei perdido. Tinha que seguir pra qual direção? Fica a dica, não confie em tudo o que os filmes dizem. Continuar a ler

Gilvado – Aquele Preto Nordestino

Passei boa parte da minha vida num bairro periférico no interior de SP. Por muito tempo considerado um dos lugares mais perigosos de Jundiaí. Mas isso, como sempre, mais aos olhos de quem não era da vizinhança. Em geral a vida era tranquila. Eu sabia quem era mocinho e bandido. A maioria dos que acabaram na criminalidade, desde pequenos furtos ao tráfico de drogas, haviam estudado comigo desde a infância ou tive algum contato nos frequentes campeonatos de futebol da vila.
Lembro certa vez, eu tinha 16 pra 17 anos, voltando do principal shopping center da cidade com um amigo, fomos cercados por umas trinta pessoas querendo nos assaltar. Era uma época em que ocorria muitos arrastões. Fui salvo quando um dos líderes do movimento me reconheceu. Éramos da mesma sala do terceiro ano. Mandou todo mundo se afastar e me liberar. Pediu desculpa e deu a rota mais segura pra voltar pra casa.
Eu morava numa rua sem saída. Perfeita pra jogar “golzinho” com os amigos. Sempre a mesma galera nos fins de tarde, fizesse chuva ou sol.
Certa vez um rapaz na casa dos 25/30 anos apareceu pra jogar com a pivetaiada. Eu devia ter uns 14 anos. Não vimos problema e assim foi. Ele começou aparecer com frequência, sempre com uma roupa suja de cimento e chapisco. Como não o conhecíamos resolvemos procurar saber qual era a dele.
Havia chego há uns 2 meses do interior de Pernambuco. O pai havia falecido e não tinha mais ninguém como família. Vendeu o que tinha, comprou uma passagem para São Paulo e, sabe lá Deus porque, veio parar no nosso bairro.
Descobrimos também que ele, até então, ainda não havia conseguido um lugar para morar. Por isso dormia meio escondido do dono na obra onde trabalhava como servente de pedreiro fazia pouco tempo.
Terminado o futebol fomos com ele até onde estava ficando, umas duas ruas para baixo da nossa. Um dos meus amigos perguntou se ele tinha alguma coisa pra comer. Disse-nos que já havia comido. Desconfiei que, apesar do trabalho duro, provavelmente não tinha nem almoçado. Ainda não havia recebido o primeiro salário e duvido que o pedreiro ou o dono da obra soubessem da sua exata condição.
Subi correndo pra casa e falei pra minha mãe, que estava preparando a janta, se ela podia fazer uma marmita. Ela achou estranho mas não questionou. Peguei uns pacotes de bolacha e levei pra ele e os amigos. Ficamos conversando e comendo.
Givaldo aparecia sempre pro futebol e revezávamos na marmita da janta dele por um tempo. Depois da pelada sempre rolava um papo e mastigávamos alguma coisa. Pouco tempo depois alugou um muquifo. Conseguira um emprego mais tranquilo mas de horários alternados. Nisso aparecia raramente. Em alguns meses perderíamos total contato com ele.
Voltei a vê-lo quase 3 anos depois. Mantínhamos o futebol firme e forte na rua, principalmente nos finais de semana. Estava com um voyaginho e parou com o carro no meio do nosso campo de asfalto. Quando íamos tretar com ele, reconheci seu rosto. Já não morava mais no bairro e levava sua pobre vida com dignidade de empreendedor. Estava trabalhando com entregas, por conta. Como estava no bairro resolveu passar para dar um alô. Nos agradeceu muito a força que havia recebido naqueles dias difíceis e prestes a chorar, começou contar piadas toscas como só ele fazia. A gente queria chorar, mas ria descontroladamente. Desde então, nunca mais o vi.
Aquela história me fez pensar que era a primeira vez que eu me dispunha de forma prática a ajudar alguém com sinceridade. Compaixão, enfim, fazia sentido. Aprendi também o significado de resiliência, mesmo sem saber da existência dessa palavra naqueles dias. E que bairrismo só é bom se for inclusivo.
Mas uma coisa me marcou muito na época e me fez dar devido valor também a história do meu pai. Quando a professora na escola falou sobre o êxodo nordestino, não era mais um amontoado de números, datas, estatísticas e nomes de cidades. Ele tinha um rosto, uma história e um nome, Givaldo. Pernambucano (como meu pai), pobre, preto e, hoje, empreendedor.

O Poder da Metafora

A palestra era sobre o poder da metáfora. Spencer começou perguntando em quais metáforas pensávamos quando o tema era o câncer. Nós demos respostas, basicamente todas iguais; “nós combatemos o câncer”, “nós lutamos contra o câncer”, “nós estamos reconstruindo nossas células brancas”, e assim por diante. Spencer chamou a atenção para o fato de que a maioria esmagadora das metáforas indicadas por nós eram de metáforas de guerra. (…) Ele então começou a falar sobre pacientes de câncer e de como, por conta das metáforas bélicas, muitas pessoas que sofrem de câncer sentem um fardo maior do que deveriam. (…) algumas, achando que foram lançadas em uma guerra mortal, simplesmente desistem.
(…)
O Sr. Spencer então nos perguntou sobre outra área em que ele achava que as metáforas causavam problemas. Ele nos pediu que pensássemos em relacionamentos. Que metáforas usamos quando pensamos em relacionamentos? “Nós valorizamos as pessoas”, gritei eu. Sim, disse ele, e escreveu no quadro. “Nós investimos nas pessoas”, acrescentou outra pessoa. E logo tínhamos uma longa relação de metáforas econômicas. “Os relacionamentos podem falir”, dissemos. “As pessoas não tem preço”, dissemos. Sempre metáforas econômicas. Fiquei chocado.
Foi quando isso me atingiu como uma epifania em minhas artérias. O problema da cultura (…) é que pensamos no amor como uma mercadoria. Nós o utilizamos como dinheiro. (…) Se alguém está fazendo algo por nós, nos oferecendo algo – sejam presentes, tempo, popularidade, o que quer que seja -, sentimos que ela tem valor para nós e, talvez, sintamos que ela não tem preço. Vi isso claramente, e senti isso nas paginas da minha vida. Eu usava o amor como moeda. (…) Com amor, negamos afirmação às pessoas que não concordam conosco, mas financiamos prodigamente os que concordam.

Donald Miller – Blue Like Jazz

A reflexão fica por conta de cada um.

Ela

Ela riu de nervosa fingindo não levar a serio cada palavra que lia. Resolveu caminhar afim de encontrar um lugar para pensar e tomar uma xícara de café quente. Quem a visse não diria que vestia a blusa ganha do avô, tão linda que estava, ainda mais com as bochechas rosadas. Passou pela farmácia afim de comprar uma escova de dente sem saber bem porque. Talvez para prolongar o tempo. Mais um dia. Menos um dia. Mais uma hora. Menos uma hora. Sentiu as mãos suadas. As borboletas no estômago deram lugar a gastrite, tamanho o nervosismo. Pensou em sair correndo. Ignorar o dia. “Que se foda tudo. Não preciso passar por isso. Será que realmente vale a pena?”. Mas sabia que não dormiria sem ao menos olha-lo calma e profundamente. Talvez riria de alegria sem razão. Talvez o beijaria racionalmente. Talvez fugiria.
Ao que parece, ele esperava que ela se perdesse de si e se encontrasse nele, logo ali, na esquina do Metrô.
 

O Caminho da Gratidão

Um dia amei loucamente. Escrevia textos e compunha músicas num alto frenesi. Ainda sim, numa intensidade aquém do que gostaria. Queria abrir o coração de cada ser humano para que sentisse o mínimo daquele meu enlevo. Mas a maioria não entendeu, me achou doido ou simplesmente chato. Pois bem, acho que isso vai acontecer novamente.
Dentre todos os sentimentos que experimentei durante esses meus tantos anos de vida, o único que se igualou a essa chama de amor foi a gratidão. E, hoje, apesar de me sentir num cruzamento da vida pensando em qual lado seguir, meu coração segue transbordando gratidão, inclusive, nas mais pequenas coisas que, por vezes, deixo de perceber na vida. Gratidão pela família, pelos amigos, pelos conhecidos e desconhecidos que constantemente cruzam meu caminho. Gratidão pela manhã, tarde e noite. Pela chuva. Pelo sol. Pelo companheirismo e a solidão. E acima de tudo isso, gratidão pelo constante amor, abundante graça e extrema misericórdia vinda da parte de Deus através de cada pessoa com quem tive algum minimo de contato.
As vezes tenho a impressão de que Jesus está rindo de mim, Continuar a ler