Sonho de Poeta

Poeta é o eterno mal resolvido. Conta rima e chora amores da infância a velhice – todos mal resolvidos. Está sempre em falta e em vazio – anseio, na verdade.

Descaminha para seguir rumo ao futuro. Vive todas as histórias de uma vez. Entende e sofre todas elas. Transcreve e deixa a memória no papel. Raramente conta as vitórias. Só se faz sentido num curto espaço de tempo. Normalmente, começa a valer quando já não vale mais nada.

Vive verdades espirituais absolutas. Fala de etéreos momentos de razão. E nunca se cansa. Ama a crítica porque fortalece o ego. “Sou único”. Fala com a profundidade de um ancião. Com ânsia adolescente e confusão juvenil.

Os raros momentos de sobriedade se dão na bebida forte que amortece o espirito. Difama. Desfama. Estranha. Entranha. Te extraña. Veste a vida de fantasias mas está sempre nu.

E não há como negar: tudo o que escreve e o que deixa passar, está sempre à espreita – à esperar. Vive de eterna saudade daquilo que passa a vida inteira tentando expressar.

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Tolstói, entre o desespero e a fé

Quando escreveu este ensaio autobiográfico, nos finais de 1879 (com acrescentos e revisões posteriores, em 1881-82), Lev Tolstói estava sensivelmente a meio da sua vida intelectual adulta. Aos 51 anos, já publicara as suas obras-primas – “Guerra e Paz” (1869) e “Anna Karénina” (1877) -, mas ainda não entrara na fase tardia, a que correspondem livros importantes, como “A Morte de Ivan Ilitch” (1887), “A Sonata de Kreutzer” (1889) ou a novela “Hadji-Murat” (publicada em 1912, já depois da sua morte).

A imagem que me ocorre, ao ler esta “Confissão”, é a de um homem posto diante do espelho da sua própria consciência, completamente nu e desarmado, ainda à procura da lógica subjacente aos labirintos existenciais em que andou perdido toda a vida. Embora na linha de uma tradição europeia que remonta a Santo Agostinho, este impulso confessional diverge dessa tradição na medida em que aborda o problema da descoberta da fé num prisma exclusivamente individual, sem generalizações ou sínteses exemplares.

Tolstói começa por explicar como aos 18 anos já se afastara do sistema de crença em que crescera (o cristianismo ortodoxo), ao entender que “a doutrina religiosa não participa da vida”, é apenas um fenómeno exterior “aceite por confiança” e fruto da pressão social, sujeito por isso a um esvaziamento à medida que as experiências vividas vão contrariando os seus ditames. Sem saber ao certo em que acreditar, entregou-se ao ‘aperfeiçoamento’ próprio, tanto intelectual e físico como moral.

Escritores embriagados

Surge então a outra face da moeda: “Para ter fama e dinheiro, em prol dos quais escrevia, era preciso esconder o bom e manifestar o mau. Foi o que fiz.” A haver fé, era fé no ‘progresso’, de que os artistas e poetas seriam os arautos.

Mas esse progresso era ilusório, e os escritores embriagavam-se de uma importância que na verdade não tinham, lembra Tolstói, sem esconder uma certa vergonha: “É agora claro para mim que não existia qualquer diferença entre aquilo e um manicómio; mas naquela altura apenas desconfiava disso vagamente, e mesmo assim à maneira de todos os malucos – chamando malucos a toda a gente, tirando a mim próprio.”

Ao assistir a uma execução, em Paris, a “crença supersticiosa no progresso” cai por terra. Depois das deambulações pela Europa, regressa à Rússia, cria escolas para os camponeses e casa-se, assumindo o bem-estar da família como um desígnio. A necessidade de conforto material abafou durante uns tempos as questões existenciais de sempre (o porquê disto tudo, o para quê), mas elas regressariam, ocupando cada vez mais espaço e provocando-lhe “momentos de perplexidade”, quando não de paralisia. Continuar a ler