Falta de Atenção

Minha filha de 6 anos morreu.
Nossa! Do que?
Assassinada pela policia.
Tão nova.

Troca ambiente

Se viu que a policia matou a filha da fulana?
Sério?
Devia estar envolvida com sujeira.

Na mesma linha do tempo

Meu filho morreu.
Nossa! Do que?
Tirou a própria vida.
Que triste

Troca ambiente

Seu viu que o filho do fulano se suicidou?
Credo. Sério?
Cabeça fraca né, mente vazia oficina de satanás.

Na mesma linha do tempo

MInha filha foi abusada.
Caramba!
Estava voltando da casa de uns amigos e pegaram no ponto de onibus.
Nossa.

Troca ambiente

Você viu que a filha da cicrana foi estuprada.
Meu Deus!
Mas isso são horas de estar na rua. Devia ta com aquelas pernas de fora, pra variar.
Verdade.

A gente ta tão entorpecido com tanta informação que qualquer desgraça, por nuclear que seja, é só mais uma desgraça.

E a culpa é sempre da vítima. Afinal, a gente ta cansado de ler/ver sobre casos assim.

Falta de atenção.

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Sobre boas perguntas e péssimas respostas

Em determinada tradição judaica, uma das dimensões da sabedoria é chamada de “Oculto do oculto”*.

Ela, basicamente, inverte a lógica de discernir e, aí sim, agir. Dentro dessa dimensão, a ação (compromisso) promove o discernimento (sabedoria).

Conta a história de um discípulo perguntar ao Reb Zalman Schachter sobre sapiência:

– Como é que se pode alcançar a sapiência, a sagacidade e a compreensão? – Pelo uso do bom-senso, de bons julgamentos. – E como é que se alcança o bom julgamento? – Por meio de muita experiência. – E como é que alguém atinge muita experiência? – Por intermédio de maus julgamentos!

Segundo a tradição interpretativa judaica, foi graças ao conteúdo do capítulo 24, versículo 7 do Êxodo que o mar pode ser aberto.

“E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o Senhor tem falado faremos, e obedeceremos.”

Faremos e, então, obedeceremos.

A percepção de agir para depois ouvir, que contraria quase todos os métodos de conduta, surgia a partir da própria experiência de se estar encurralado.

Nisso, a tradição conta que o mar só abriu quando um homem, que não sabia nadar, se jogou nas águas do Mar Vermelho.

Não pode haver evolução na resolução de nenhum problema sem que uma medida empírica possa dar base ao que é pensado, conclui o rabino Nilton Bonder.

A vida nos propõe, muitas vezes, o paradoxo de viver num mundo onde o acerto é desastroso, confirmando apenas aquilo que pode ser confirmado – este mundo, onde quem acerta perde a chance de conhecer o incrível mundo do que “não é”.

No caso do povo de Israel, o acerto seria morrer na mão do Faraó, voltar ao cativeiro ou morrer afogado.

A prática nos aperfeiçoa menos na oferta de respostas e mais na proposição de boas perguntas. E jamais se deve trocar uma boa pergunta por qualquer resposta que seja, porque mesmo na impossibilidade há alternativas.

O livro Ética dos Ancestrais diz:

“A sabedoria daquele que ultrapassa o peso de seus atos não se preservará. No entanto, aquele cujos atos ultrapassam a medida de sua sabedoria – sua sabedoria se preservará”.

*Postagem baseada na leitura do livro “O Segredo Judaico de Resolução de Problemas” – Nilton Bonder

Cristo e o Funk

No trem, voltando pra casa, um casal de irmãos na faixa dos 18 anos cantando música evangélica. Ao lado, a mãe, feliz, ouvindo e orando.

Na próxima estação entra a galera vendendo balas Fini e bala de coco. A mãe pede pros filhos esperarem um pouco pra não atrapalhar as vendas dos trabalhadores. No vagão, a lábia do vendedor vale ouro. Se fizer rir o cliente com as rimas, contos, cordel ou o que for, a venda é quase garantida.

Chegando perto da última estação, um dos ambulantes pede pros irmãos continuarem com os hinos. Ele senta do lado, prestando atenção e começa um beat box no ritmo do louvor – tchu tcha tcha tchu tcha… Outros no fundo do trem, acanhados, começam cantar junto as musicas de vitória. Satanás humilhado. Funk santificado.

A cantoria termina com a mãe rindo mais alto que os cantantes por achar engraçado o funk no louvor.

Mais um dia no cotidiano suburbano.

Relatos de um racista em recuperação

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu…

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Perder Alguém

As vezes me perguntam e eu nunca sei muito explicar como é lidar com a ausência de alguém essencial na nossa vida. São 4 anos que vi minha mãe pela última vez.
Ela descobriu a doença uma semana antes do Natal de 2011. E aí já não existiu mais Natal e Ano Novo. Nenhuma promessa fazia sentido.
Dez meses depois ela se foi.
Em algum momento a doença entra na rotina da familia. Na ultima vez que ela foi pro hospital com uma crise, era um domingo de manhã e eu tava chegando de uma balada. Minha irmã tava saindo com carro pra leva-la.
Me senti tão lixo com o fato de estar me divertindo a noite inteira e ela sem conseguir pregar o olho.
Cerca de um ou dois meses antes eu tinha terminado um namoro/casamento bem conturbado. Tava lidando com um acúmulo de dívidas por conta de um longo período desempregado e uma baixa auto-estima que era um repelente natural de pessoas.
Mas quando lacraram o caixão, nada mais fazia sentido. Nenhum dos meus problemas tinha peso. Pelo simples fato de não ter a pessoa com quem mais dividia essas crises.
Não tinha mais o café dela.
Quando a gente perde alguém assim todos os cravos da vida se tornam penitências. A gente é exposto a nossa impotência e humanidade.
Pensamos em todos os momentos que deveríamos estar e não estávamos. Você pensa que deveria ter mais dinheiro pra oferecer tudo o que tivesse ao alcance da prata. Você repensa todas as discussões e o quanto gostaria de triplicar o número de pedidos de perdão e voltar no tempo para dar um tapa em si mesmo afim de baixar a bola.
A morte, principalmente, de alguém enraizado em você é pedagógica. E com um certo distanciamento você acaba entendendo que a vida só tem sentido porque ela é uma doença terminal.
A falta nos amadurece. Percebe que os espaços vazios da sentido ao que preenche o coração. Se não nossa alma se torna um eterno quarto da bagunça, cheio de coisas irrelevantes.
Digo isso porque sou esse ser cheio de vazios e incompletude. Cheio de saudades que apaziguam as minhas maldades.
É difícil como uma cena clássica do cinema, colocar um piano num apartamento sem elevador. Pela janela. Com ajuda. Correndo o risco dele cair e se espatifar no chão.
Mas a música, ah a música, um contínuo milagre.

A Luz

Calou-se.

Não deixou que nenhum som saísse de sua boca. Não permitiu ao coração outra função que não fosse bombear sangue.

Desacelerou.

Uma parada cardíaca pelo bem das feridas expostas. Para que não sangrassem nunca mais.

Se voltou para dentro. Parou a respiração para que nenhum som ensurdecesse. Largou a minha mão. Não queria sentir mais o suor dos dedos entrelaçados.

Fechou os olhos para não distrair a atenção. Queria somente enxergar o caminho. Tateou a parede até o interruptor. Tudo o que era artificial, inclusive a luz, se foi. Já não existia mais.

De repente, um grito de dor. Chorou. Um choro aberto de criança. E meio sem entender, percebi.

Ela havia acabado de dar à luz a si.

Quando a Falta Faz Falta

É como sentir o cheiro da morte quando as palavras faltam. Sobretudo quando, além de dar vazão as inquietações, são elas que colocam comida na mesa. É sob essa luz que a irritação vem. Provocante. Ela aperta o coração, cutuca com agulhas todo o corpo mas, ao mesmo tempo, é um fantasma. De punhos serrados não há um alvo real para acertar. E nisso a irritação segue retroalimentada.

Os óculos perdem sua função porquê os olhos já não são mais os mesmos há muitos anos. Tudo sai de foco. Perde-se cor e vivacidade. Tudo opaco. Cinza. Grey, como diria a famosa autora de romances de gosto duvidoso pseudo eróticos.

O cachorro, companheiro de insônias, se torna um promotor. Os olhos que inspiravam são acusadores e um debate surdo acontece entre latidos estridentes. O descontrole vai tomando conta e, aos poucos, começa fazer vítimas ao redor.

Faz frio e falta vinho. A ira flerta com a autocomiseração e todos se tornam inimigos. Os rascunhos do romance lotam a lixeira do computador por conta de um acesso de raiva. A vontade é de destruir peça por peça da máquina. Mas o desanimo impede a loucura. Nada de bom sobra quando são os extremos que impedem a ação.

No espairecer, entre uma notícia e outra do jornal, a morte de um jovem no bairro de classe média chama atenção. Um outro menino vítima do confronto entre polícia e trafico fora do estado vem numa sequência sadicamente óbvia. E uma miserável esperança nasce na história de uma criança resgatada de escombros provocados por um bombardeio em um país em guerra do outro lado do mundo. Uma guerra que ninguém liga mas que todos são culpados.

O ódio começa ganhar forma. É como um ácido corroendo por dentro. Não consegue escrever sobre. Chora. Lamenta. Mas não escreve. Uma paralisia provocada por algum motivo não aparente. Não lhe falta inspiração. Tem tanta vida e tanta morte acontecendo que conclui ter sido amaldiçoado. Só lhe resta o grito e palavrões.

As contas empilhadas no canto da mesa são o castigo do silêncio. Provas de um crime sob investigação com uma grande peculiaridade. A vítima, o criminoso e o investigador dividem o mesmo corpo.

A madrugada se aproxima e falta de barulho da digitação enfatiza o ruído dos ponteiros do relógio. A cada segundo que passa já não pode culpar mais ninguém por tirar sua atenção, apesar de saber que sua auto imersão o havia deslocado do tempo e espaço. O dia passara e não percebera.

Se lembra do celular, pega-o e repara algumas ligações perdidas e um punhado de mensagens. Na lista de chamadas há números desconhecidos, seu agente, a garota com quem saíra algumas vezes e seu pai. Agradece por não ter percebido nenhum das ligações. Não queria ouvir mais ninguém. Já tinha vozes demais com que lidar. Todas elas acusatórias na sua cabeça.

Sabia, ainda sim, que não estava louco. O racional que percebe sua irracionalidade não sofre de insanidade. Mas de falta de continuidade. É como um capítulo interrompido que deixa dúvidas, curiosidades e ausências. Imagine-se no teatro de Romeu e Julieta em que eles não morressem, não se casassem e, ao se apaixonarem, ficassem estáticos. Aquele incomodo tomando conta da plateia, olhares furtivos de incompreensão, cochichos aqui e ali, adrenalina subindo e, de repente, as cortinas se fecham, as luzes são acesas, os atores agradecem e encerram ali a peça. Ficaria por conta de cada um a devida interpretação, uma análise, uma versão do porquê daquela mísera encenação. As ofensas dividiriam espaço com as palmas. E, provavelmente, as únicas pessoas que entenderiam aquilo seriam aquelas que se permitissem dizer – “Não entendi!”.