Suspeitas

É engraçado como ela acredita não acreditar em toda crença que ela mesma canta.
Suas conversas com Deus são hilárias. Sempre, do tipo, um happy hour para contar as novidades, agradecer ajudas, falar amenidades e piadas toscas entre alguns conselhos. No final, simplesmente diz: “OK! Hora de ir embora. Você não existe. Mas poderia, por favor, pagar a conta?”.
Corre pra casa, se afunda no confortável sofá com uma xícara de chá quente na mão e pensa sobre o diálogo que acabou de ter. Ou talvez tenha alucinado?
Ela tem um rosto engraçado. Bonito, mas engraçado. Adora conversar sentada ao piano. Está sempre em reflexão. E sempre as coloca em notas maiores em tons sarcásticos, daquelas ironias que só o amor é capaz de causar.
Encarna a aposta de Pascal mesmo sem saber. E, apesar de ter migrado pro outro lado do mundo por acreditar, ainda acredita não acreditar.
É um relacionamento confuso. Mas o tipo de ‘boa confusão’. A melhor definição de Deus é aquela que não O define.
No fim das contas, os grandes questionamentos surgem logo de manhã. Nunca sabe se oferece uma xícara de café, uma conversa sobre o que sonhou na madrugada, os planos do dia, da semana, do mês e do ano ou simplesmente exorciza a sua presença. Essa cumplicidade ofende sua estabilidade.
Sai de casa com uma canção que ela própria compôs.
“Você vai voltar quando acabar. Não há necessidade de dizer adeus”.
Ah, Deus!

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A Responsabilidade de Ser um Milagre

“Em nenhum caso Deus é condicionado por ninguém, exceto por si mesmo. O que já vimos na história, no entanto, é que Deus intervém porque continua a ser Deus do seu povo. Ele intervém porque aquele que encarna o povo, que normalmente deveria representar Deus para o povo (…) deixa de cumprir esse papel(…). Nesse momento Deus toma sobre si a miséria do povo, sua vergonha, e o mal que ele comete. Podemos quase dizer que o que “determina” a ação de Deus em dada circunstância é que Deus toma sobre si o mal e a miséria do homem. Referindo-se a Jesus Cristo, podemos dizer que o que determina a ação e a decisão de Deus aqui e agora é que ele tomou sobre si toda a miséria e toda a revolta do homem em seu Filho Jesus Cristo: toda a miséria e todo o mal, incluindo aquele da situação particular que estamos agora enfrentando em nossas vidas. Deus intervém nesta situação precisamente por essa razão. É simplesmente outro modo de dizer que Deus ama todo homem em cada momento e em cada situação específica, como ele amou seu filho Jesus Cristo: não mais (pois Jesus Cristo foi entregue à tentação, à prova, à fadiga, à fome, ao sofrimento e à morte), mas também não menos.
(…)
Mas, em cada ocorrência, o milagre está ligado ao homem, ao homem de Deus. O milagre não cai diretamente do céu. Ele é inserido no nexo das ações humanas. Ele não tem um significado em si mesmo. Quando o milagre começa, o homem está associado a ele pela oração; quando o milagre termina, o homem está associado a ele pelo testemunho e pela explicação. Esse testemunho do imenso amor de Deus – que não só cria e salva, mas que também, em sua incompreensível humildade, quer associar o homem à sua obra (…). Trata-se de uma notável ilustração da delicada fórmula de Pascal: ‘Deus estabeleceu a oração para comunicar a dignidade da causalidade a suas criaturas'”.

Ausências

Chego a conclusão que a ausência tem sido um dos maiores professores dos nossos dias. Falamos em segurança e cuidado depois dela se fazer falta e levar tantas vidas consigo. Tenho a impressão que dizemos mais “Eu Te Amo” e “Me Perdoe” no feriado de finados do que no dia dos namorados. A liberdade vociferada por tantos tem sido um dos senhores de escravos mais severos que já conheci. E moralismo vira apelo à vida do dia pra noite. Política só faz sentido quando palhaço é eleito e desiludido. Ou quando condenado se torna o dono da chave das algemas do povo. E fé é só uma palavra cuspida da boca de lobos. Óculos só faz sentido quando não muda a visão de ninguém. E desapego é desculpa do irresponsável. E na moda, até doença entrou na passarela. Afinal, ter algum distúrbio é ter histórias pra contar. E no Brasil, água demais pra quem já matou a sede e água de menos pra quem nunca viu ela transparente. A lista é longa e, na verdade, até fácil de mapear. É só você perceber o quanto brasileiro gosta de marchar. Nem no carnaval se vê tanta marchinha, mas nem pra ajudar na obesidade elas tem servido. Das vadias a Jesus. Da maconha ao fascismo. Da corrupção a ocupação. As marchas mostram as manchas. Mas contradição virou paradoxo de quem confunde tese e antítese. E o jogo relativo empurra absolutas certezas na guela de quem perdeu o chão. E se o divino não existe para alguns, inclusive bons amigos, creio que, ainda sim, entenderam que o homem como rei, é erradicação certa e total. Sei que alguns me chamam tolo por dobrar meus joelhos a Deus, justamente na busca da ausência de vozes. E fico na dúvida se dúvidam de Deus ou da ausência. Afinal é, paradoxal, encontrar Deus no silêncio, no grito mudo do caos; mas é certo que Ele está.

Deus e não dEU$!

God

Eu me lembro como se fosse hoje. Eu tinha por volta de 10 anos de idade. Meu pai me pegou no colo e começou a brincar comigo. Logo em seguida me perguntou num tom jovial; “Quem é o melhor pai do mundo?”. E eu mais do que de pressa respondi sem hesitar. “O ‘Seu mané’, pai do Rafinha. Ele deu um Nintendo novo pra ele hoje”. Lembro com clareza da expressão de tristeza do meu pai. Da minha mãe vindo conversar comigo. Éramos (somos) de familia pobre, nunca tive grandes brinquedos, fui ter meu primeiro videogame por volta dos 16 anos quando comecei a trabalhar. Mas nunca nos faltou o alimento em casa. Sempre tinhamos o necessário pra viver. Passados mais de 15 anos, eu fico extremamente triste em ver que a teologia da prosperidade e outras aberrações vem dominando o Brasil com toda a força. Parafraseando John Piper “Quem não quer um Deus que dá um carro novo, uma casa, dinheiro e tudo mais?” As pessoas correm, literalmente, atrás de um “deus Tabajara” – SEUS PROBLEMAS ACABARAM! Se esquecem de versículos na biblia como:

“Meus irmãos, tomai por exemplo de aflição e paciência os profetas que falaram em nome do Senhor.” (Tiago 5:10)

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá.” (I Pedro 5:10)

“Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação é; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos;E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação.”  (I Corintios 1:6,7)

Me sobe o sangue vendo homens e mulheres usurpando a palavra de Deus para beneficio próprio. Pregando um evangellho triunfalista que nunca existiu. Usando partes de versículos como “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido…” Mas se esquecendo do complemento dele “para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” e não para enriquecer os bolsos, comprar carros do ano, templos banhados a ouro e por ai vai. Até a “biblia da prosperidade financeira” criaram para fundamentar as suas peripécias. E este post não é para atacar nenhum desses, ditos, lideres, que podem ser tudo, menos espirituais. A questão é. Esse não é meu deus. Ta bem longe de ser. Esse deus que vem sendo apresentado por ai é só um mero rascunho de deuses pagãos que se perpetuaram de tempos em tempos na história. É só você parar pra ler um pouco de mitologia grega, nórdica e outras e vai encontrar grandes semelhanças.

É na angústia que tenho visto a atuação do verdadeiro Deus. É no sofrimento que tenho visto o Seu cuidado. É no desespero que tenho visto o Seu amor. É no frio que tenho sentido Seu calor. É nesse mundo relativista que tenho visto o quão único e absoluto Ele o É e sempre será. E, particularmente, é no meu imerecimento, sabendo o quão nada eu sou,  sei que Ele é Deus. Pois só a sua graça e misericórdia é o que me mantém vivo e disposto a suportar e amar o próximo. A compartilhar da vida que Ele pode oferecer, que nada tem a ver com barganha. Que nada tem a ver com qualquer coisa que possam me oferecer, porque tudo isso vai passar. Mas tem a ver com a Eternidade, com o Reino de Amor. E o mais louco é que –  tudo isso é aqui… agora!