As Tardes

A vida adulta está sempre dizendo “é tarde demais”. Por outro lado, quando criança, tinha impressão que era tarde de menos. Logo escurecia e minha mãe gritava de longe “vem pra casa, já está tarde”. Nunca entendi direito isso.

Há tardes que inspiram pessoas. Muitas vezes vemos o esforço em tentar registra-las com uma foto borrada do celular.

Mas há as que dão sono, também. O Outono que o diga. Se jogar no sofá, assistir Sessão da Tarde e acordar com o próprio ronco assim que o filme termina. É tarde demais!

Quando é muito tarde pode ser que nunca mais. Ou talvez volte amanhã. Se encontrar mais tarde pode ser desculpa para não ir. Ou, muitas vezes, o desejo desesperado de encontra-la de qualquer jeito. Nem que seja tarde.

Minhas memórias de tarde tem cheiro de café e gosto da manteiga no pão caseiro. Esses dias, tarde da noite, ria e chorava das memórias do entardecer, da família, as viagens, os amigos, o futebol na chuva, os amores da escola, o primeiro beijo, a primeira briga.

Nunca é tarde pra isso. Mas o tempo não se atrasa. Tem que ficar esperto.

Hoje, homem (a ser) feito me vejo entre belas manhãs, alucinantes noitadas e boas tardes.

Criamos um Sistema Suicida

Estava ouvindo “Songs For a Revolution Hope”, um dos projetos musicais do controverso (e querido) Brian D. McLaren.
Me deparei com essa musica/discurso que me deixou um tanto atordoado e pensativo como há muito tempo não ocorria. Segue uma livre tradução que realmente gostaria que você lesse e ouvisse. Quem sabe não compartilhemos o incômodo e a disposição.

http://brianmclaren.bandcamp.com/track/11-57

11:57

Criamos um sistema suicida e dissemos que estava predestinado. Dissemos que o diabo nos forçou a fazer isso. Dissemos um monte de mentiras. Era um sistema de injustiça construído em arrogância e ganância. Era um império para os poderosos e um inferno para os necessitados. Um sistema suicida. Continuar a ler

O Menino Que Fazia Versos

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.  Continuar a ler