Encontro em Samarra

Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões.

Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.

O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi.

Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”

“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.

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Conto-Versão de Somerset Maugham para “Encontro em Samarra” de John O’Hara

Inacabada

Quando o caminhar se tornou insuportável, Julia gritou.
Foi taxada de louca, mesmo que não houvessem palavras ditas. Tudo pairava no ar. E ela ouvia.
Ainda sim, gritou mais alto e mais alto e mais alto, até quase perder o fôlego.
Sentou exausta e encostou a cabeça na janela do trem. Era uma janela para dentro de si. Refletia sua vida – suas vidas, por conta das máscaras que fora obrigada a colocar – suas agonias. Tanta coisa inacabada. Tantas pontas soltas que a faziam tropeçar nos próprios pensamentos.
Esboçou um sorriso malfadado. Pensou em gritar uma vez mais, mas a voz também lhe abandonara.
Muitos pares de olhos a investigavam e julgavam – riam furtivamente. Mas, ela, a mais solitária das pessoas.
Mas tudo bem. Enquanto pudesse sentir as dores, sentia. Vivia!
Isso até o dia em que parou de sentir.
Quando o caminhar se tornou indiferente, Julia pulou.
Não percebeu o ar cortante nem o asfalto quente.
Ninguém percebeu. Passou como um conto mal contado de um carnaval sem fim.

Relatos de um racista em recuperação

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu…

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A Luz

Calou-se.

Não deixou que nenhum som saísse de sua boca. Não permitiu ao coração outra função que não fosse bombear sangue.

Desacelerou.

Uma parada cardíaca pelo bem das feridas expostas. Para que não sangrassem nunca mais.

Se voltou para dentro. Parou a respiração para que nenhum som ensurdecesse. Largou a minha mão. Não queria sentir mais o suor dos dedos entrelaçados.

Fechou os olhos para não distrair a atenção. Queria somente enxergar o caminho. Tateou a parede até o interruptor. Tudo o que era artificial, inclusive a luz, se foi. Já não existia mais.

De repente, um grito de dor. Chorou. Um choro aberto de criança. E meio sem entender, percebi.

Ela havia acabado de dar à luz a si.

Alter Egos e Estilhaços

Aos poucos o cérebro decifrava os meus olhos.
A bomba explodiu antes do previsto. Nisso, o verdadeiro alvo permaneceu ileso. Mas crianças, mães e trabalhadores deixaram partes do corpo espalhados no chão.
O estrondo surdo no ouvido dos que estavam por perto não permitia o senso de localização.
Para onde correr? Se esconder?
Um vácuo preenchido de poeira.
Demorou mais de um minuto para o primeiro grito de socorro ser ouvido – abafado, rouco, entre o desespero e a lágrima.
Quem gritava não sabia o por quê. Não sentia dor. Somente lidava com o tremor do corpo. Adrenalina cumprindo seu papel. Mas nada entendia.
Sentiu medo ao perceber vários vultos correndo em sua direção. Palavras inauditas pareciam ser vociferadas. Se sentia culpado de ser vítima. Olhara nos olhos de Medusa e sua pele se tornara pedra. Mas por dentro tudo era terremoto.
Tentou se levantar e, na mesma hora, fora jogado de costas para o chão com violência. Ainda ouvia os berros que não compreendia. Sentia alguém violando seu corpo.
A segunda bomba explodiu e me arremessou para a realidade. Onde diabos tinha ido parar meu braço e minha perna esquerda?
Aos poucos a dor foi chegando junto dos palavrões. Vislumbrou uma mulher tentando ajudar. Parecia ser paramédica ou algo que o valha. Ela apertava abruptamente meu membro superior e inferior. Só então percebi o tanto de sangue no chão e o torniquete improvisado.
Caralho.
Desmaiou. Acordei. E não sabia precisar o tempo do apagão. Continuava entre escombros, mortos, sangue e partes do corpo que não eram seus. Meus. Não saberia dizer.
A calma só chegou em forma de morfina. Metamorfoseado dormiu o sonho dos justos.
Teria de esperar o jornal da próxima manhã para saber. Se era autor ou simples personagem.

Quando a Falta Faz Falta

É como sentir o cheiro da morte quando as palavras faltam. Sobretudo quando, além de dar vazão as inquietações, são elas que colocam comida na mesa. É sob essa luz que a irritação vem. Provocante. Ela aperta o coração, cutuca com agulhas todo o corpo mas, ao mesmo tempo, é um fantasma. De punhos serrados não há um alvo real para acertar. E nisso a irritação segue retroalimentada.

Os óculos perdem sua função porquê os olhos já não são mais os mesmos há muitos anos. Tudo sai de foco. Perde-se cor e vivacidade. Tudo opaco. Cinza. Grey, como diria a famosa autora de romances de gosto duvidoso pseudo eróticos.

O cachorro, companheiro de insônias, se torna um promotor. Os olhos que inspiravam são acusadores e um debate surdo acontece entre latidos estridentes. O descontrole vai tomando conta e, aos poucos, começa fazer vítimas ao redor.

Faz frio e falta vinho. A ira flerta com a autocomiseração e todos se tornam inimigos. Os rascunhos do romance lotam a lixeira do computador por conta de um acesso de raiva. A vontade é de destruir peça por peça da máquina. Mas o desanimo impede a loucura. Nada de bom sobra quando são os extremos que impedem a ação.

No espairecer, entre uma notícia e outra do jornal, a morte de um jovem no bairro de classe média chama atenção. Um outro menino vítima do confronto entre polícia e trafico fora do estado vem numa sequência sadicamente óbvia. E uma miserável esperança nasce na história de uma criança resgatada de escombros provocados por um bombardeio em um país em guerra do outro lado do mundo. Uma guerra que ninguém liga mas que todos são culpados.

O ódio começa ganhar forma. É como um ácido corroendo por dentro. Não consegue escrever sobre. Chora. Lamenta. Mas não escreve. Uma paralisia provocada por algum motivo não aparente. Não lhe falta inspiração. Tem tanta vida e tanta morte acontecendo que conclui ter sido amaldiçoado. Só lhe resta o grito e palavrões.

As contas empilhadas no canto da mesa são o castigo do silêncio. Provas de um crime sob investigação com uma grande peculiaridade. A vítima, o criminoso e o investigador dividem o mesmo corpo.

A madrugada se aproxima e falta de barulho da digitação enfatiza o ruído dos ponteiros do relógio. A cada segundo que passa já não pode culpar mais ninguém por tirar sua atenção, apesar de saber que sua auto imersão o havia deslocado do tempo e espaço. O dia passara e não percebera.

Se lembra do celular, pega-o e repara algumas ligações perdidas e um punhado de mensagens. Na lista de chamadas há números desconhecidos, seu agente, a garota com quem saíra algumas vezes e seu pai. Agradece por não ter percebido nenhum das ligações. Não queria ouvir mais ninguém. Já tinha vozes demais com que lidar. Todas elas acusatórias na sua cabeça.

Sabia, ainda sim, que não estava louco. O racional que percebe sua irracionalidade não sofre de insanidade. Mas de falta de continuidade. É como um capítulo interrompido que deixa dúvidas, curiosidades e ausências. Imagine-se no teatro de Romeu e Julieta em que eles não morressem, não se casassem e, ao se apaixonarem, ficassem estáticos. Aquele incomodo tomando conta da plateia, olhares furtivos de incompreensão, cochichos aqui e ali, adrenalina subindo e, de repente, as cortinas se fecham, as luzes são acesas, os atores agradecem e encerram ali a peça. Ficaria por conta de cada um a devida interpretação, uma análise, uma versão do porquê daquela mísera encenação. As ofensas dividiriam espaço com as palmas. E, provavelmente, as únicas pessoas que entenderiam aquilo seriam aquelas que se permitissem dizer – “Não entendi!”.

Laxante Para Alma

Não costumo medir palavras. Na verdade, sempre falo um pouco além da conta. Sou mestre em falar em momentos inoportunos. E, infelizmente, guardar silêncio quando deveria gritar. Mas me valendo de uma analogia proposta por Rubem Alves, minha mente é constantemente masturbada por muitas histórias. Observo e absorvo demais. O que, por fim, me causa um certo tipo de “ereção precoce textual” (Deus abençoe os neologismos).
Refletindo algumas situações ocorridas ao longo da vida, penso ter alimentado muitos porcos com pérolas. E, com certeza, tudo o que já comi de Bacon nesses anos não devem ter compensado isso.
Mas eis que não me arrependo. A sensação é de que escrevo e fico mais pobre. Continuar a ler

Os Mortos

Vi na TV.
Uma multidão de cegos empedernidos terminarem a procissão num suicídio coletivo. Seguiram precipício abaixo mas não viram a morte chegar. Só se aperceberam dela quando já não eram mais nada.
Como se voltassem a enxergar uma nova realidade, reclamavam ao nada como se tivessem perdido o ônibus por causa do motorista que não parou. “Uma total falta de respeito” comentavam entre si.
A matéria especial seguia com uma entrevista exclusiva com um dos falecidos. Não entendi direito o que dizia, pois a articulação da boca havia sido afetada com a queda. Mas percebi, pelos comentários na internet, que foi uma conversa interessante. O público vibrara.
Confesso que fiquei um pouco constrangido em não me emocionar com a massa e nem entender direito o que se passava. Me senti deslocado no tempo-espaço, por isso resolvi dormir.
Logo de manhã verifiquei as horas, conferi o calendário e comprei o jornal para confirmar que dia era hoje. Se era passado, presente ou futuro.
Li a matéria de capa analisando a foto da procissão e fiquei com um enorme ponto de interrogação. “Muito parecido comigo aquele moço de chapéu igual ao meu”, pensei.
Peguei o ônibus para o trabalho e reparei que o motorista, habitual do horário, estava irritado. “Bom dia Seu Zé”, cumprimentei. “Bom dia é pra quem tem” respondeu. E continuou resmungando para si mesmo; “malditos cegos que só enxergam o que não veem”.
Foi ai que entendi. Aos seus olhos meus olhos não eram os seus. Quem eu vi morrer, ontem, na verdade fui eu.

Sobre Não Ser

A beleza e a tragédia do efeito borboleta não está no furacão que ele produz. Mas no seu imperceptível bater de asas.

Uma pergunta comum feita no meio de uma tempestade relacional é “como deixamos que chegasse até aqui?”

De fato, esse era eu encostado no mármore gelado na cozinha da kitnet, olhando-a. Pensando.

Não conseguia expressar uma letra se quer. Tinha a impressão de que qualquer palavra dita nos próximos instantes abriria perpetuamente os portões do inferno. Seriamos condenados a nos relacionar eternamente sob sombras indecifráveis com vozes assustadoras, chão fervendo, cheiro de enxofre em um tipo de sala de espelhos. Assim não teria como não nos vermos. Nem os olhos fechados impediriam isso.

Eu penso em grandes romances como Orgulho e Preconceito. Penso na jornada do herói. Todas as nuances. O ápice da história. O ponto onde tudo muda e converge para que os amantes se encontrem e permaneçam juntos.

Engraçado o fato de acusarmos uma geração, principalmente as mulheres, por acreditarem em contos de fadas, príncipes e princesas, nutrindo, por conseguinte, relacionamentos doentios.

Mas, no fim das contas, nós inquisitores do intelecto, acabamos vivendo em função da Musa. E, nela, não se pode chegar nem perto. As tratamos como princesas poliglotas, artisticas, sensíveis, musicistas e sábias escritoras. Ainda sim, princesas sob o nosso castelo.

Penso que eu devo ser o dragão. Mas não importa. E preciso terminar bem. Esse é o ópio do escritor. Mesmo que seja um final surpreendente, sempre será bom, no sentido da alma. Pode haver um massacre, mas está tudo bem. Há um tipo de alívio inerente.

Mas naquele exato momento num comodo sufocante em que o raios do sol passavam pela janela sem cortina e refletiam um bilho intenso nos olhos raivosos e tristes daquela que um dia eu amei, repenso meus textos. Repenso do começo ao fim. Que maldito egoísta eu sou. Que maldita hora para pensar nisso.

Falta um pouco de ressentimento nos fins. Falta baixa auto-estima. Falta estigma. Falta disparate aos heróis. Algo que não seja encoberto pela ironia ou sarcasmo. Falta um pouco de pura maldade.

E eu só consigo chorar. Eu não amo mais. Não acredito que ela ame também. Talvez nos tenha sobrado um pouco de curiosidade e obsessão. Mas o amor fora arrastado com todos os escombros.

“Como deixamos que chegasse até aqui, desse jeito? Onde estão as borboletas no estomago?”

Eu te respondo. Por queremos ser borboletas, nos enclausuraram, mataram nossa essencia por mais feia que fosse. O casulo se tornou nosso abrigo, nosso único mundo, até que arreganhamos as portas e janelas e deixamos nosso primeiro bater de asas acontecer. Pensamos em Dostoievski e que a “beleza salvaria o mundo”. Mas, no fim, nos esquecemos. Não somos salvadores. Não somos heróis. Somos nós. Aqueles que não deveriam ser.

Sobre Não Escrever Um Livro

Algumas pessoas já perguntaram por que de eu gostar tanto de ler e escrever. Ler é herança familiar. Escrever me ajuda organizar os pensamentos.
Por isso tendo a gostar de alguns temas em especial como política, cultura, religião e sociedade. Apesar de escrever bem menos a respeito do que gostaria. Isso, pelo simples fato de reconhecer que há pessoas muito melhores que eu fazendo isso em todas essas áreas.
Tudo o que escrevo é resposta a algum tipo de provocação. Um comentário que ouço, uma leitura, qualquer cena cotidiana. Quase sempre é não-intencional.
Normalmente escrevo sobre três perspectivas. De enxerido, como um desafio pessoal. Para amplificar a voz de outros melhores que eu. E de raiva.
Dois grandes culpados pelo fato de eu escrever são, com certeza, Rubem Alves e Mia Couto. Pra mim, são os mestres da percepção do cotidiano.
Rubem Alves era esse ser totalmente mal resolvido, não com a vida, mas com setores dela. Ele sempre conseguia expandir o cotidiano como se fosse um tipo de armadura e arma de combate contra essa gigante gaiola de ratos que fazemos girar todos os dias. O cotidiano proposto por ele quebra grilhões da mente e da alma, sem dúvida. Nos faz insurgir em tanta beleza, cheiro e sabor. Ele força a percepção. Ou você percebe a vida ou a vida jamais percebera você.
Mia Couto me faz sentir, estranhamente, em casa. Por pura percepção o vejo como um dos melhores discípulo de Gabriel García Márquez e seu famigerado Realismo Fantástico. Cada morte, cada bomba explodida, cada sexo, cada absurdo parece fazer total sentido no caos diário da minha mente. Se você tem idade suficiente, lembra quando a televisão não funcionava direito e você dava um tapa na lateral e tudo voltava ao normal? É mais ou menos assim minha relação com Mia Couto e, menção honrosa, Dostoievski.
Não tenho vergonha de nada do que já escrevi. Tenho o costume de reler as coisas mais antigas com frequência e, muitas vezes, discordo dos escritos. Mas eles tinham um objetivo no momento em que foram concebidos. Se você possui um arranhado faz mais sentido passar álcool e colocar um band-aid em vez de operar. Com a escrita é assim. Quanto maior a provocação, mais profunda a reflexão.
Nisso entra o papel fundamental da leitura que acelera esse processo de provocação e reflexão e da percepção do cotidiano.
Cristo, por exemplo, só faz sentido porque ele pisou, sentiu, cheirou, beijou e sangrou onde escreveu sua história. Por isso tenho uma grande aversão ao pedantismo acadêmico de tantos escritos coerentes, mas que nunca pisaram o chão que tentam descrever. Deve ser por isso que o apelo verborrágico nesse meio é tão importante.
Por que ainda não escrevi um livro? Acho que to prestando atenção demais ao cotidiano.
Mentira. To lutando contra a procrastinação e a falta de foco.

Sou eu

Sou soro positivo e negativo. Obediente e de castigo. Sou pai, mãe e filho.
Sou prostituto, vagabundo travestido. Crente no Cristo. Entre complexos e inestimáveis vazios.
Sou policial, refém e meliante. Conhecedor das coisas que, de hoje em diante, querendo ser, sem antes, não seriam.
Sou de todas as manhãs. Das tardes e atrasos. Das noites em desembargo. Cigarro barato ou cachimbo de fumo puro não tragado.
Dos amigos, sou cerveja gelada. O vinho quente das viradas. A companhia inesperada da madruga. Muda e sentada.
Sou raiz. Em crescimento lento. Em observação. Em noite de alento ou de chuva e trovão.

Suspeitas

É engraçado como ela acredita não acreditar em toda crença que ela mesma canta.
Suas conversas com Deus são hilárias. Sempre, do tipo, um happy hour para contar as novidades, agradecer ajudas, falar amenidades e piadas toscas entre alguns conselhos. No final, simplesmente diz: “OK! Hora de ir embora. Você não existe. Mas poderia, por favor, pagar a conta?”.
Corre pra casa, se afunda no confortável sofá com uma xícara de chá quente na mão e pensa sobre o diálogo que acabou de ter. Ou talvez tenha alucinado?
Ela tem um rosto engraçado. Bonito, mas engraçado. Adora conversar sentada ao piano. Está sempre em reflexão. E sempre as coloca em notas maiores em tons sarcásticos, daquelas ironias que só o amor é capaz de causar.
Encarna a aposta de Pascal mesmo sem saber. E, apesar de ter migrado pro outro lado do mundo por acreditar, ainda acredita não acreditar.
É um relacionamento confuso. Mas o tipo de ‘boa confusão’. A melhor definição de Deus é aquela que não O define.
No fim das contas, os grandes questionamentos surgem logo de manhã. Nunca sabe se oferece uma xícara de café, uma conversa sobre o que sonhou na madrugada, os planos do dia, da semana, do mês e do ano ou simplesmente exorciza a sua presença. Essa cumplicidade ofende sua estabilidade.
Sai de casa com uma canção que ela própria compôs.
“Você vai voltar quando acabar. Não há necessidade de dizer adeus”.
Ah, Deus!