Laxante Para Alma

Não costumo medir palavras. Na verdade, sempre falo um pouco além da conta. Sou mestre em falar em momentos inoportunos. E, infelizmente, guardar silêncio quando deveria gritar. Mas me valendo de uma analogia proposta por Rubem Alves, minha mente é constantemente masturbada por muitas histórias. Observo e absorvo demais. O que, por fim, me causa um certo tipo de “ereção precoce textual” (Deus abençoe os neologismos).
Refletindo algumas situações ocorridas ao longo da vida, penso ter alimentado muitos porcos com pérolas. E, com certeza, tudo o que já comi de Bacon nesses anos não devem ter compensado isso.
Mas eis que não me arrependo. A sensação é de que escrevo e fico mais pobre. Continuar a ler

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Por Uma Prática Cristã Que Nos Permita Cagar em Paz em Louvor a Deus!

Há uma oração matinal judaica que diz o seguinte:

“Bendito Sejas, nosso Deus, Soberano do Universo, que moldastes os seres humanos com sapiência e criaste neles muitas aberturas e cavidades. É óbvio e conhecido, diante do Teu Trono de Glória, que basta apenas que uma delas se rompa, ou que uma delas fique bloqueada, para tornar-se impossível sobreviver e estar diante de Ti, que curas toda a carne e ages através de atos maravilhosos.”
Na tradição rabínica, compreender o conceito de receber, e poder vivenciá-lo, é uma arte sagrada a ser exercitada e aperfeiçoada por toda vida.
O ser humano tem um relacionamento mais do que vital com a alimentação. Quantas vezes não descontamos nossas frustrações ou celebramos nossas vitórias através da comida, mesmo não estando, necessariamente, com fome.
Eis porquê muitos rabinos tratam da obesidade menos no sentido de magro/gordo e mais como leve/pesado.
Segundo o Rabino Nilton Bonder, “uma antiga lenda sobre a geografia da terra de Canaã compara seus dois mares, o mar da Galiléia, abundante em peixes e vida, e o mar morto, um caldo de matéria sem vestígio algum de vida, e pergunta qual a razão desta diferença. A respostas, explica-se, encontra-se no fato de no mar da Galiléia receber através do rios o resultado do descongelamento das neves do maciço de Golan, mas também deixar flui de si as águas do rio Jordão, que terminam no mar Morto. Este, porém, não as deixa seguir. Não sabe receber e estabelecer uma relação com a natureza ou com o universo. Se experimentamos o recebimento como um fenômeno unilateral, que se limita a algo que nos é dado, separamo-nos gradativamente da troca que, em última instância, representa vida”.
E não é assim nosso processo digestivo? Alimentar-se sem a possibilidade de expelir os dejetos pode, literalmente, nos matar. A boca e o anus são extremidades do mesmo processo. Continuar a ler

O Trabalho

“Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, como em Auschwitz I, onde a inscrição foi feita por prisioneiros com habilidades em metalurgia e foi erigida por ordem dos nazistas em junho de 1940.
Estou terminando de ler o livro semi-ficcional de Bernardo Kucinski chamado “K. Relato de Uma Busca” em que ele fala sobre o processo de procura por sua filha, Ana Rosa, professora de química da USP, militante comunista e uma das tantas desaparecidas do regime militar brasileiro. Segundo suas palavras “tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.
Em paralelo, tenho lido alguns relatos do período ditatorial e em determinado momento as histórias se encontraram. Num ponto de sua busca, K. vai falar com um médico no Rio de Janeiro que poderia ter informações sobre sua filha. O senhor em questão era responsável por manter vivo os presos torturados para que eles revelassem tudo o que fosse possível acerca dos opositores do regime.
Hoje meu amigo Leandro Barbosa, a cabeça por trás do site História Incomum, que você deveria conhecer – tem texto meu lá também ‪#‎jaba‬ – postou “A cada dia que passa eu amo mais o Jornalismo. É fantástico as possibilidades de exercer a justiça, que ele me dá.”
E nessa profusão de ideias, somando o ponto de Focault sobre o valor de um diploma (https://goo.gl/x2aH5g), fico pensando sobre como nosso acumulo de conhecimento tem servido a sociedade. Digo, porque, entendo trabalho como aplicação prática de um conhecimento específico ou genérico.
Mais do que chegar a uma conclusão, compartilho os seguintes questionamentos para reflexão no exercício de cidadania, da fé, nos relacionamentos interpessoais e o que mais couber na vida em sociedade:
Temos salvado a vida de alguns para prolongar a tortura e a dor?
A liberdade e independência proporcionada por nossos trabalhos/conhecimentos tem sido a mesma de um campo de concentração?

E é importante frisar que não se trata do que escolhemos fazer/conhecer, mas como.

Seres Híbridos

Estou terminando de ler (ouvir, na verdade) o livro A Guerra do Fim do Mundo do escritor peruano Mário Vargas Llosa. Lançado em 1981, o autor, depois de uma exaustiva pesquisa por bibliotecas mundo a fora, e de peregrinar por inúmeras cidades do sertão baiano, conta sua versão de Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos.

Llosa ficou impressionado com a leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha e se sentiu impelido a essa empreitada. Entre seus colaboradores nesse projeto estava o escritor e amigo Jorge Amado.

A grosso modo, Canudos se tornou um reduto onde o dinheiro da recém república fora abolido, onde o casamento civil, então, recém instituído fora recriminado e o amor livre apregoado. Onde ninguém poderia dizer que algo era seu. Tudo era de todos.

Todas esses ideais baseados numa leitura penitente e libertária dos evangelhos.

Lembre-se de pensar tudo isso em 1896/97 no sertão nordestino. Continuar a ler

Redenção

O nascimento de Jesus pode ser visto sob vários olhares. Deus-menino, refugiado, ameaçado de morte, libertador, Messias, Emanuel, a improvável salvação nascida num estábulo,… o contexto permite cunhar várias histórias e adjetivos.
Entre os primeiros a conhecê-lo e adora-lo estão os tais magos do oriente. Não judeus. Não cristãos (óbvio que esse conceito ainda não existia). Mas deixa claro que já no seu nascimento um objetivo é percebido: Redenção.
Justamente para Herodes os magos perguntam: “Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo”.
Eles não procuram um líder político, social, religioso ou correlato. Eles perguntam justamente a essa entidade, Herodes, que carrega todos esses adjetivos, sobre o Deus-menino.
Herodes e o centro do poder em Israel, Jerusalém, sentem-se ameaçados por conta de um possível cumprimento da profecia e confabula para chegar ao garoto e matá-lo
Mas um grande processo de redenção pode ser percebido. O menino Jesus redime sua própria genealogia duvidosa, o local de seu nascimento, o rito da adoração e o adorador. Por fim, os magos financiam a fuga de Jesus e seguem de volta por um outro caminho.
Quando João pergunta se Jesus era mesmo aquele que haveria de vir, recebe a seguinte resposta:
“Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho”. E ele termina com uma frase intrigante “Feliz é aquele que não se escandalizar em mim.”
Interessante ele citar sobre escândalo e vez de falar sobre duvida, o que me pareceria mais óbvio num primeiro olhar.
Mas penso que (1) Jesus não deixava margem para dúvida, apesar de não se revelar por completo. (2) A palavra ‘evangelho’ não era uma palavra desconhecida do povo da época. Quando a casa real gostaria de compartilhar uma boa notícia, aos seus olhos, com o povo, por exemplo, o nascimento de um filho, sucessão real ou noticia que o valha, um evangelho era escrito e distribuído. A boa noticia era espalhada.
A afirmação de Jesus que o seu evangelho estava sendo pregado aos pobres tem um poder enorme. Mas não podemos fazer uma leitura incompleta disso. Ele não simplesmente declara subversão ao poder estabelecido, ele afirma, acima de tudo, o caráter redentor da sua vida e missão. Ele expõe sua fragilidade humana, ao mesmo tempo, sua origem divina, chegando ao seu ápice no paradoxo da cruz, o fim e o início de tudo.

A redenção de Cristo nos convida a restaurar a nossa humanidade plena, o nosso coração de carne, o cuidado para com o meio ambiente, o exercício da fé sem barreiras, a vida comunitária que não demanda paredes, a percepção do próximo e um cuidado especial para com os desfavorecidos da sociedade. Vai além, com certeza. Mas essa é uma boa síntese.
Fomos Adão e Eva. Fomos o carrasco de Cristo. Mas somos o alvo da sua redenção.
Que Ele nos permita ver o sinal. A estrela que nos leva a conhecer e adorar o Deus-menino.

Sou eu

Sou soro positivo e negativo. Obediente e de castigo. Sou pai, mãe e filho.
Sou prostituto, vagabundo travestido. Crente no Cristo. Entre complexos e inestimáveis vazios.
Sou policial, refém e meliante. Conhecedor das coisas que, de hoje em diante, querendo ser, sem antes, não seriam.
Sou de todas as manhãs. Das tardes e atrasos. Das noites em desembargo. Cigarro barato ou cachimbo de fumo puro não tragado.
Dos amigos, sou cerveja gelada. O vinho quente das viradas. A companhia inesperada da madruga. Muda e sentada.
Sou raiz. Em crescimento lento. Em observação. Em noite de alento ou de chuva e trovão.

Suspeitas

É engraçado como ela acredita não acreditar em toda crença que ela mesma canta.
Suas conversas com Deus são hilárias. Sempre, do tipo, um happy hour para contar as novidades, agradecer ajudas, falar amenidades e piadas toscas entre alguns conselhos. No final, simplesmente diz: “OK! Hora de ir embora. Você não existe. Mas poderia, por favor, pagar a conta?”.
Corre pra casa, se afunda no confortável sofá com uma xícara de chá quente na mão e pensa sobre o diálogo que acabou de ter. Ou talvez tenha alucinado?
Ela tem um rosto engraçado. Bonito, mas engraçado. Adora conversar sentada ao piano. Está sempre em reflexão. E sempre as coloca em notas maiores em tons sarcásticos, daquelas ironias que só o amor é capaz de causar.
Encarna a aposta de Pascal mesmo sem saber. E, apesar de ter migrado pro outro lado do mundo por acreditar, ainda acredita não acreditar.
É um relacionamento confuso. Mas o tipo de ‘boa confusão’. A melhor definição de Deus é aquela que não O define.
No fim das contas, os grandes questionamentos surgem logo de manhã. Nunca sabe se oferece uma xícara de café, uma conversa sobre o que sonhou na madrugada, os planos do dia, da semana, do mês e do ano ou simplesmente exorciza a sua presença. Essa cumplicidade ofende sua estabilidade.
Sai de casa com uma canção que ela própria compôs.
“Você vai voltar quando acabar. Não há necessidade de dizer adeus”.
Ah, Deus!