Mentira

Uma mentira sustentada por meses por uma pessoa muito querida “ganhou luz”. Eu nem me lembrava, mas ela veio estampada na falta de memória de uma inocente postagem numa rede social. Provavelmente nem se deu conta que deixou tudo as claras para qualquer um ver. E, confesso, é bom não parecer louco. Por outro lado, penso que se eu soubesse a verdade no ápice da situação, provavelmente não saberia lidar com ela. Seria uma ferida de difícil cicatrização. Receber o olhar, o abraço e a mentira. Peso demais. A verdade liberta, mas tudo tem seu tempo. O que me faz lembrar as palavras do saudoso Rubem Alves – “A vida tem sua própria sabedoria. Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Quem tenta ajudar o broto a sair da semente o destrói. Há certas coisas que têm que acontecer de dentro para fora.” Nisso, sou levado quase que forçosamente a (re)pensar as mentiras que carrego. E, infelizmente, não são poucas. É difícil colocar a casa em ordem. As vezes é preciso mexer com histórias sensíveis guardadas no baú do alma, abrir a garagem da mente cheia de tralhas e passar alvejante nos quartos do coração. Doloroso trabalho. É o exercício da paz: Arrependimento e Perdão. E é essencial “lembrar de não esquecer”.

Eu Sei Que É Maluquice

Quando professor nos EUA, Rubem Alves em uma conversa com seus alunos por conta da sua linguagem poética, era cobrado para que explicasse e explanasse sobre tudo o que dizia. Nessa mesma noite sonhou com um ambiente cheio de montanhas e precipícios. Havia um trator que retirava terra da montanha afim de preencher o precipício.
Ao acordar correu para a biblioteca afim de procurar sobre a etimologia das palavras “Explicar” e Explanar”, pois sabia que era sobre isso que o sonho remetia. Descobriu que a palavra “explanar” tinha como um dos significados principais “tornar plano”. Já “explicar” levava a “alisar”.

Quando li essa história, fiquei incomodado em me reconhecer em muitas atitudes como o trator no sonho. Enquanto o convite da vida era subir a montanha a fim de contemplar todo o vale, muitas vezes me vi gastando energia destruindo-a para aplanar as incertezas e assim ter pleno controle sobre tudo a minha volta – por medo da altura, da profundidade, do sol a pino na montanha e da escuridão do precipício.

Estar no monte é estar exposto. Estar no precipício põe a prova o objeto da fé -se realmente cremos do que dizemos crer.

Muito mais do que viver nessa tensão das montanhas e precipícios, a missão da vida, creio eu, está relacionado diretamente com o próximo. Não se vive só. E em tempos de selfie levar a vida em direção ao outro, a fim de fazer parte da escalada na montanha e do não cair no abismo, soa como pura maluquice utópica. Simplesmente porque, muitas vezes, não há uma explicação ou explanação razoável para tal. No máximo uma poesia que poucos entenderão. E partindo do principio que poesia é como um bom vinho, que nenhuma explicação lhe fará sentir o seu sabor de forma plena, se embebedar da vida na tensão das convicções e incertezas, nos fará conhecer juntos o caminho das pedras.

Isso me faz lembrar da primeira vez que ouvi Deus claramente sobre o sentido da vida (chamado) no trecho que da nome ao livro “O Apanhador no Campo de Centeio”.
“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Fragmentos

Pesquisando sobre psicose, entre dicionários e artigos científicos, uma frase aleatória me chamou atenção; “…às vezes acompanhado de estados alucinatórios”. Fiquei intrigado ao pensar que, se a psicose é um distúrbio que distorce as percepções de realidade, porque só “as vezes” acompanha o estado alucinatório?
No Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, escreve: 
“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (…) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

Um das coisas que mais me enchem de graça, no sentido amplo da palavra, ao ler sobre Cristo nos evangelhos, é um claro chamado aos contadores de história. Ao longo de sua caminhada Jesus conta várias parábolas para que uma nova história seja escrita na vida das pessoas que se achegam a Ele.
Rubem Alves cita; “faz tempo que para pensar sobre Deus não leio os teólogos, leio os poetas”. Jesus foi além. Usou os poetas para explicar os teólogos. Mas não se iluda. Não há como apequenar O Cristo.
C.S. Lewis traduz isso de forma prática:  Continuar a ler

(H)À(s) Vozes Que Não Clamam!

“…e se necessário use palavras“ me soou muito belo num primeiro momento. Mas pensando a respeito, chego a conclusão que coibir a voz ou lança-la num segundo plano, é cometer assassinado em massa, ou suicídio dependendo do ponto de vista.
Parafraseando Tolstoi, acredito que O Reino de Deus está em voZ.
Devemos nos atentar… ouvir… aprender…

“A sabedoria clama em voz alta nas ruas, ergue a voz nas praças públicas; nas esquinas das ruas barulhentas ela clama, nas portas da cidade faz o seu discurso: “Até quando vocês, inexperientes, irão contentar-se com a sua inexperiência? Vocês, zombadores, até quando terão prazer na zombaria? E vocês, tolos, até quando desprezarão o conhecimento?“ Proverbios 1:20-23

E  PRAXIS exige mais VOZ ainda!

“Erga a voz daqueles que não podem defender-se, seja defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda o direito dos pobres e necessitados“ Proverbios 31:8-9

E mesmo quando a velhice chegar, parafraseo Rubem Alves

“Por fim, sem fogo ou floresta, sem canções ou palavras, somente o infinito desejo e o silencio… e Deus tudo entendeu…“

Por fim, Hosana! Maranata!

No principio era O Verbo, A Palavra… A Poesia!

“No principio, antes que qualquer coisa existisse, antes que houvesse o Universo, o que havia era a Poesia. Deus era poesia. A Poesia era Deus. Deus e a poesia eram a mesma coisa. E Deus criou as estrelas para, com elas, escrever seus poemas nos céus…” (Prólogo do Evangelho de João, paráfrase)

Retirado de “Perguntaram-me se Acredito em Deus” de Rubem Alves

O Paraíso Que Muitos Tentam Me Vender!

Fui andar pelo Jardim do Amor,
e o que vi não era o que eu esperava:
Vi uma capela erguida no lugar
Onde antes, no gramado, as crianças brincavam.

Seu portão fechado estava
E nele, escrito: Interditado.
Para o Jardim do Amor corri então
Onde antes tantas flores se abriam.
Mas encontrei, ao invés das flores, sepulturas,

E lápides frias e espalhadas.
Sacerdotes em vestes negras vigiavam
E com espinhos os risos e alegrias proibiam.
(1)

“O Paraíso continua a existir como esperança, nas palavras dos poetas. O corpo come pão para poder andar. Mas, para poder voar, é preciso ter asas… A poesia são as asas da alma. ‘A poesia, a mais humilde, é serva da esperança…’ (Adélia Prado)”

Vagarosamente, todos saíram da tenda repetindo as palavras e esforçando-se por não esquecer: “A poesia é serva da esperança, a poesia é serva da esperança, a poesia é serva da esperança”. E foi repetindo esse mantra que adormeceram sonhando com o futuro.

(1) Poema de William Blake

Retirado de PERGUNTARAM-ME SE ACREDITO EM DEUS de RUBEM ALVES.