O Trabalho

“Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, como em Auschwitz I, onde a inscrição foi feita por prisioneiros com habilidades em metalurgia e foi erigida por ordem dos nazistas em junho de 1940.
Estou terminando de ler o livro semi-ficcional de Bernardo Kucinski chamado “K. Relato de Uma Busca” em que ele fala sobre o processo de procura por sua filha, Ana Rosa, professora de química da USP, militante comunista e uma das tantas desaparecidas do regime militar brasileiro. Segundo suas palavras “tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.
Em paralelo, tenho lido alguns relatos do período ditatorial e em determinado momento as histórias se encontraram. Num ponto de sua busca, K. vai falar com um médico no Rio de Janeiro que poderia ter informações sobre sua filha. O senhor em questão era responsável por manter vivo os presos torturados para que eles revelassem tudo o que fosse possível acerca dos opositores do regime.
Hoje meu amigo Leandro Barbosa, a cabeça por trás do site História Incomum, que você deveria conhecer – tem texto meu lá também ‪#‎jaba‬ – postou “A cada dia que passa eu amo mais o Jornalismo. É fantástico as possibilidades de exercer a justiça, que ele me dá.”
E nessa profusão de ideias, somando o ponto de Focault sobre o valor de um diploma (https://goo.gl/x2aH5g), fico pensando sobre como nosso acumulo de conhecimento tem servido a sociedade. Digo, porque, entendo trabalho como aplicação prática de um conhecimento específico ou genérico.
Mais do que chegar a uma conclusão, compartilho os seguintes questionamentos para reflexão no exercício de cidadania, da fé, nos relacionamentos interpessoais e o que mais couber na vida em sociedade:
Temos salvado a vida de alguns para prolongar a tortura e a dor?
A liberdade e independência proporcionada por nossos trabalhos/conhecimentos tem sido a mesma de um campo de concentração?

E é importante frisar que não se trata do que escolhemos fazer/conhecer, mas como.

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O Assassinato da Solidão

Soledad Barret Viedma era neta do grande escritor paraguaio Rafael Barrett. Um pouco antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar “Viva Hitler!”. Aos 28 de idade, em 7 de Janeiro de 1973, Soledad foi assassinada grávida na cidade de Paulista, em Pernambuco, no que foi considerado um dos mais bárbaros casos do período da Ditadura. Ela, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi uma das seis pessoas emboscadas no conhecido “massacre da granja São Bento”. Os seis militantes, Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma foram mortos com 14 tiros na cabeça. Conta-se, que ao ser encontrada, Soledad estava dentro de um tonel com o feto a seus pés. A emboscada fora armada por seu esposo, agente infiltrado, cabo Anselmo. O mesmo José Anselmo dos Santos, líder da revolta dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de Março de 1964. Ato que contou com a presença de representantes dos sindicalistas e líderes estudantis, e além do deputado Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta dos Marinheiros de 1910. No dia, Anselmo discursava sobre as “reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis”. Episódio esse, por conta dos desdobramentos, considerado um dos epicentros do Golpe Civil Militar de 64. Carlos Alberto Augusto, nas duas últimas grandes manifestações contra o governo, era saudado como grande herói nacional. Não faltam selfies no Instagram para comprovar. “Carlinhos Metrallha” como ficou conhecido, braço direito de Fleury, foi um dos principais envolvidos nesse massacre cheio de detalhes obscuros ainda. A questão é que esses dias, por conta de tamanha boçalidade nos discursos de muitos, ditos, manifestantes contra o governo, me vi fazendo piadas desse período de trevas da nossa história recente para desqualificar tamanha imbecilidade. Mas chego a conclusão que não vale a pena mitigar algo tão sanguinário por conta de tais. Pensando a história de Soledad e tantas outras vítimas do Regime, não vale a pena rebaixar o nível do discurso e nem abrandar a crítica. O minimo flerte com intervenção militar deveria ser crime. E poderia ser, inclusive, com cumprimento de penas alternativas, como uma boa aula de história. Que Deus nos ajude a não perder a fé, a esperança e a sede por justiça.

Amor a Peso de Chumbo

Não foi surpresa quando Alice, ao vasculhar as caixas cheias de velharias no quarto da bagunça, achou as cartas que tanta desejava ler.
Ela sabia que as histórias contadas pela mãe, em tom de conto de fadas, escondiam verdades. Haviam detalhes nítidos demais. A felicidade tinha sua fonte, assim como a tristeza que sempre deixava seus olhos marejados.
Tinha certeza que tudo o que ouvira era a vida de alguém. “Histórias reais, seres imaginários”como dizia um dos álbuns que mais gostava de ouvir. Mas agora passara dessa fase. Os seres imaginários ganhavam forma, tempo e espaço naquele tesouro que tinha em mãos, papéis antigos corroídos pela traça.
Abril de 1977 “…permaneço escondido assim como meu amor por você. Espero você me achar…”
Junho de 1979 “…alimento a esperança de ver sua carta chegar. Sei das impossibilidades. Mas também sei que ainda permanece vivo. Meu o coração sabe e segue guardado…”
Janeiro de 1981 “…aqui me despeço. Você não lerá. Mas quem sabe aquele que o tenha matado receba e, ao menos, sinta o peso dessas palavras. Matou um corpo. Três almas…”
Um logotipo do Ministério do Exercito chamava atenção no rodapé das páginas xerocadas. Era uma das poucas não originais.
Ouviu a voz da mãe que, sem perceber, permanecia encostada no batente da porta.
– Recuperei essa carta anos depois com a abertura das investigações sobre a Ditadura.

– Três almas… você, papai e eu?

– Sim. Temos muito o que conversar a respeito.

– Tenho certeza que sim.

– Confesso que depois de ser desacreditada pelo falseamento da história, porque não te contar a verdade em um conto? Mas é hora de tirar a magia e colocar o chumbo.

Corri abraça-la e ouvi baixinho sua voz de choro “hora de ressuscitar nosso passado. Nossas almas. E, quem sabe, de outrem”

Lembrar é Resistir

Estava na FLIP 2014, num fórum extremamente aguardado por mim. “Memórias do cárcere: 50 anos do golpe”, com Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva e Persio Arida. Feito as apresentações pela mediadora, a antropóloga social Lilia Schwarcz, Marcelo Rubens Paiva começou a ler um trecho de um texto falando sobre seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, desaparecido durante a ditadura militar no Brasil e que teve sua morte confirmada recentemente após depoimentos à Comissão Nacional da Verdade de ex-militares envolvidos no caso.
Na minha frente, uma senhora na casa dos 50 anos anos chorava copiosamente já nas primeiras palavras de Marcelo, que ao longo da leitura também precisou parar algumas vezes para conter a emoção. Como adendo, disse que seu filho tinha 5 meses de idade e por isso olhava com outros olhos para aquela história. Sob os olhos de pai, julgo eu.
Pelo que percebi de conversas da mulher, ela havia perdido parentes para a ditadura. Um dos tantos indigentes em valas comuns ou retalhados e lançados ao mar como se fossem isca de peixe.
Confesso que tive grandes dificuldades em segurar as lágrimas no rosto vendo e ouvindo tudo aquilo. O depoimento, principalmente do Marcelo Rubens Paiva, e as ferrenhas críticas feitas, em especial, pelo Bernardo Kucinski, me deram um choque de realidade muito forte.
Há mais de dois anos venho pesquisando, a título de conhecimento, sobre esse período de nossa história recente, sempre me perguntando do porque ele parecer tão distante sendo que eu poderia sentar com meu pai para conversar a respeito. A ditadura militar acabou, ou se metamorfoseou como aponta Kucinski, em 1985 quando eu tinha um ano de idade.
Eu queria conversar com a mulher ao fim do debate, mas senti que aquele momento era importante demais para ela para eu enche-la de perguntas a fim de sanar algumas curiosidades.
A questão é que, especialmente esse ano, tenho aprendido muito sobre a importância da história, de lembrar, relembrar e, em certos casos, reviver algumas situações a fim de não perder a realidade de vista.
Algo que foi citado, que eu realmente nunca havia parado para pensar, é sobre a brutalidade do desaparecimento. As famílias dos desaparecidos políticos foram interrompidas, nunca finalizadas. Ou seja, eles não passaram pelo importante processo luto, que dói mas cura. Marcelo até comenta “é por isso, que quase 50 anos depois, estou aqui chorando na frente de todos vocês”.
Pense nisso, por exemplo, na família do Amarildo, na esposa que tinha problemas com álcool e drogas, que chegou a deixar os filhos e desaparecer por uns dias. Se a estrutura familiar era escassa, ficou dilacerada. Essa me parece, muitas vezes, uma analogia da sociedade brasileira que vive plenamente a “vida líquida” em todas as áreas, sem bases concretas, sem conhecimento e sem estrutura emocional saudável. As redes sociais estão ai para provar, mesmo que empiricamente, essa observação.
Amarildo e tantos outros estão no limbo. E nós, muitas vezes, vivemos como os “interrompidos, não finalizados”. A metamorfose da ditadura no Brasil está diretamente ligada ao nosso cotidiano.
Que possamos aprender e se dispor a lembrança, enterrar os mortos e viver o tempo presente, rumando para o futuro, com os pés descalços sobre o chão firme.

Ditadura – Feliz 31 Março

Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.

Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me,  coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.

A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!

Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?

Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.

E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar.  “Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.

Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.

Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão. Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”,  manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha,  testemunhando  tudo  aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.

Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.

A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações?  Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?

Retira do Blog de Hildegard Angel 

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Hildegard Angel é uma das mais respeitadas jornalistas do Rio de Janeiro, Filha da estilista Zuzu Angel e irmã do ex-militante político Stuart Angel Jones