Suspeitas

É engraçado como ela acredita não acreditar em toda crença que ela mesma canta.
Suas conversas com Deus são hilárias. Sempre, do tipo, um happy hour para contar as novidades, agradecer ajudas, falar amenidades e piadas toscas entre alguns conselhos. No final, simplesmente diz: “OK! Hora de ir embora. Você não existe. Mas poderia, por favor, pagar a conta?”.
Corre pra casa, se afunda no confortável sofá com uma xícara de chá quente na mão e pensa sobre o diálogo que acabou de ter. Ou talvez tenha alucinado?
Ela tem um rosto engraçado. Bonito, mas engraçado. Adora conversar sentada ao piano. Está sempre em reflexão. E sempre as coloca em notas maiores em tons sarcásticos, daquelas ironias que só o amor é capaz de causar.
Encarna a aposta de Pascal mesmo sem saber. E, apesar de ter migrado pro outro lado do mundo por acreditar, ainda acredita não acreditar.
É um relacionamento confuso. Mas o tipo de ‘boa confusão’. A melhor definição de Deus é aquela que não O define.
No fim das contas, os grandes questionamentos surgem logo de manhã. Nunca sabe se oferece uma xícara de café, uma conversa sobre o que sonhou na madrugada, os planos do dia, da semana, do mês e do ano ou simplesmente exorciza a sua presença. Essa cumplicidade ofende sua estabilidade.
Sai de casa com uma canção que ela própria compôs.
“Você vai voltar quando acabar. Não há necessidade de dizer adeus”.
Ah, Deus!

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Pai dos Burros

Insensatez (Falta de senso; loucura.) pensar pensar de si para si mesmo.

Delírio ([Figurado]  Exaltação do espírito; alucinação; entusiasmo.) deixar-se ser de si mesmo.

Estupidez (Falta de inteligência e de delicadeza de sentimentos.) querer crer e se convencer pelos próprios argumentos.

Lisonja (Louvor afetado; dito lisonjeiro.) que corrompe o puro e floreia o lixo.

Afetação (Modo de dizer ou de fazer, que não só não é natural, mas até forçado.) que anestesia a mente anestesiada.

Esteriótipo ([Patologia]  Comportamento ou discurso caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, anônimo ou impessoal, e desprovidas de originalidade e da adaptação à situação presente. = ESTEREOTIPIA), placebo do eu.

Peso (Pressão exercida por um corpo sobre o obstáculo que se opõediretamente à sua queda.) que não esconde só a barriga.

Máscara (Molde (em gesso) do rosto de um cadáver.) que esconde o nada.

Escolher (Fazer escolha de.) viver morrer ou morrer viver.

Viver (Gozar a vida; aproveitar-se da vida; tirar vantagem de tudo.) em si, pra si, por si mesmo.

Morrer (Não chegar a concluir-se.) como se não houvesse amanhã.

Ou (Indica conseqüência derivada da irrealização de algo) coragem.

Morrer (Extinguir-se, acabar.) para a Insensatez, Delírio, Estupidez, Lisonja, Afetação, Esteriótipo, Peso, Máscara e o Eu.

Viver (Processo do que está vivo e perdura.) na vida, na criação, no próximo, no Criador.

Criador (O Ser supremo.) ponto inicial, contínuo e final.

Todas as definições entre parênteses foram tiradas do dicionário Priberam.

O Velho

Era o seu último dia. E como um velho sábio, encarnava o provérbio de mais ouvir do que falar. Em certos momentos, isso era totalmente irritante, confesso. Eu esperava pela tão esperada resposta. Dizem que, as vezes, redundância é sinônimo de impaciência. Ansiedade. Pouco sono. Mas, graças a Deus, haviam muitas dúvidas para ocupar o tempo. Afinal, “em tudo dai graças”.

Alguém disse uma vez que decisões importantes geram dúvidas. Não sei porque, mas isso me soa um pouco redundante também. Voltamos a impaciência.

Ah, sim! O velho continuava lá, impassível. Não sei se pensava a respeito de tudo o que eu tinha lhe contado, se pensava em uma resposta ou se zombava das minhas dúvidas. Só sei que ele simplesmente estava lá e nada mais.

É incrível como o peso da palavra dita não é o mesmo da palavra guardada no coração. Cheguei a questionar se realmente estava com dúvida, se sentia mesmo tudo o que achava sentir, e vice versa.

Se levantou. Tomei um baita susto. Eu estava totalmente perdido nos meus devaneios. Mas de volta a terra e prestando toda atenção do mundo, ele andou até a porta e não disse uma mísera palavra. Quase infartei. Dizem que, as vezes, super valorização é sinônimo de imaturidade. Mas um pouco antes de fechar a porta, um resmungo rouco se fez ouvir.

“Preciso ir… e você também”.

Fiquei mais confuso. Ir pra onde? Eu estava em casa, oras.

Ainda sim, nunca mais esqueci disso.

A noite chegou a notícia. O velho tinha partido. Não tinha nem chegado em casa. Chico Buarque cantou baixinho no meu ouvido:

“E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

Alguns anos depois, vejo que as dúvidas mudaram, mas ainda são dúvidas. Ainda sim a frase do velho permaneceu. É preciso ir.

Por vezes, me sinto incapaz e medroso. Na gana de ir, deixo jardins construídos, mas também destroços de uma guerra que parece não ter fim.

Ainda me perco nas escolhas. Pedir perdão, parece perder a força ao longo do tempo. Ainda sim, é preciso ir.

E se vivemos, boa parte do tempo fora de contexto, Chico Buarque ainda é profeta ao sussurrar:

“E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague”

Foto: Luis Penetra