Divagações sobre a Saudade, a Língua e a Arte.

Um dos álbuns que mais tenho ouvindo nos últimos dias se chama “Saudade” da banda norte americana I/O. O trabalho foi lançado em 2014 e, na verdade, é o único registro deles até então. É um álbum de post-rock instrumental belíssimo (ouça aqui https://youtu.be/TqapUf9J9PI). Na descrição, a banda diz o seguinte:

“I/O acredita que a experiência humana pode ser muito bela e grotesca, inspiradora e abominável, reconfortante e traumática para se colocar em palavras.”

A empresa britânica Today Translations promoveu uma listagem das palavras mais difíceis de traduzir adequadamente, onde “Saudade” ocupou o sétimo lugar. As palavras que mais se assemelham são “Hiraeth”, do galês, e געגועים (pronuncia-se “Ga’agu’im”), do hebraico, com uma conotação textualmente semelhante. Existe a palavra “tęsknota”, em polonês, mas que falha por só ser aplicada a pessoas apaixonadas e há, ainda, a palavra galega “morriña”, mas que se concentra em, basicamente, sentir falta de casa.

O Chino Moreno do Deftones montou mais um super grupo com membros do Bad Brains e do Cro-Mags chamado, adivinhem só, Saudade (ouça aqui https://bundles.bittorrent.com/bundles/saudade). A música de divulgação também se chama Saudade.

O último álbum do duo Thievery Corporation (EUA), lançado em 2014, se chama Saudade (ouça aqui https://youtu.be/W0CBzKfvA80). E é um baita trabalho de “neo bossa nova”, se é que isso existe. Só ouvindo pra entender.

A questão é que há uma infinidade de trabalhos artísticos – e olha que nem fui para literatura – que evocam essa palavra difícil de entender até pra nós mesmos. Normalmente, utilizamos ela pra dizer algo indizível que fica remoendo no peito.

É importante dizer que saudade não é falta. Falta é uma palavra e saudade é outra. E por confundir as duas, elas se perdem no nosso dia a dia. Percebo isso quando pessoas de outras línguas acabam se apropriando dela a fim demonstrar algo que sua própria língua não permite.

Somos o único país de língua portuguesa materna na America Latina e isso, infelizmente, nos afastou de nossos vizinhos em muitos sentidos. Apesar de haver um início movimento dentro do Brasil de “orgulho latino”. Se, nas minhas observâncias, somos vira-latas em relação a América do Norte e Europa, nos sentimos o dono da coleira na America Latina.

Uma pena, já que a diversidade cultural e linguística da nossa região teria um efeito arrebatador na nossa cultura se fosse intencionalmente aplicada. É algo que nos faz falta, mas justo as falta de abertura para diálogo não nos permite a saudade.

Licenças

Tem poesia que não gosta de conversar
É somente som
Rima
Música dançante aos ouvidos
Ainda sim, poetisa

Tem poesia que denuncia
Chega ser estridente
Tiro
Traçante dividindo dicotomia
Ainda sim, alivia

Tem poesia que não se compromete
É carta aberta
Coração
Aquela desconhecida que passa sem aviso
Ainda sim, brilha

Tem poesia que é pra te ter
Mas não carrega seu nome
Identidade
É preciso se conhecer pra se ver
Ainda sim, você

Saudade

Saudade de fazer poesia
Daquele tipo: vazia
De raiva e beleza
Como vinho derramado à revelia

Saudade de jogar palavras na mesa
Sem dispor a tesa
Feito baralho velho
Rei, Rainha, Valete e destreza

Saudade da nudez
Pele branca: Palidez
De amor e medo
Compromisso feito a três

As vezes tenho saudade de mim
Daquele esquecido na esquina dos anos
Sem muito talento e nenhuma rima
Construção rota da vida.

Ana e o Mar

Que bela incógnita.
E não me importa a resposta.
Que bela pergunta.
Me atrai por que está escuro.
Não que a luz tenha se apagado.
Ela só fechou os olhos.
Que bela criança.
Que brinca de não saber.
Como se, desajeitada, não soubesse brincar.
Que bela estrela.
De noite febril e de pequenos rebentos
Arroubos de violenta ternura.
E o que me resta é esperar o nascer.
Porque nos seus olhos, o sol já se pôs.
Se colocou a prova da sua beleza reluzente.
Aquela que, de repente, fulgura
Como vela de bolo a comemorar seu intenso nascer e viver.

Prosa Recente

Ela dança presa à cadeira. Samba feito prosa recente. Sente falta do ausente. E me diz “quanto tempo?”. Penso com o franzino cenho – nem lembro.
Fica inquieta. Ri. Sorri sem o aparelho no dente. E me cobra a marca de si. Me da um abraço. Um beijo quente. No rosto. Nada além, não pense. Nos despedimos em juras de se encontrar naquele próximo bloco do carnaval que acabou. Que virá, passará e nos levará.

Eu Sei

Com tudo se morre todos os dias
Embasbacado com o valor do nada
Entre tantos espasmos de vícios
Silvo desespero destilado na água

Com quanto se planeja uma vida?
O preço do sonho pesado em balança
Toda via é escolha dos dias
O levantar e o balançar das ancas

Contudo, não tenho medo da morte
Um pouco de ar puro espirra a má sorte
Entretanto, dos vícios sou fugitivo
Celebro em cerveja gelada o seu desatino

Conquanto que siga o rumo da vida
Sem peso na fala, na alma e mochila
Todavia, escolho te perceber aqui
Mesmo distante, o mesmo sorrir

Eu sei que você pensa em mim

Sete

Sete tons abaixo e estaremos exatamente no mesmo lugar. Mais graves e densos. Talvez menores e sensíveis ao dedilhar dos contadores de história.
Sete palmos abaixo e já não estaremos mais. Seremos. Eternos à luz que cultivamos e às canções que compomos. Ao que dizemos amar.

Eu Sei Que É Maluquice

Quando professor nos EUA, Rubem Alves em uma conversa com seus alunos por conta da sua linguagem poética, era cobrado para que explicasse e explanasse sobre tudo o que dizia. Nessa mesma noite sonhou com um ambiente cheio de montanhas e precipícios. Havia um trator que retirava terra da montanha afim de preencher o precipício.
Ao acordar correu para a biblioteca afim de procurar sobre a etimologia das palavras “Explicar” e Explanar”, pois sabia que era sobre isso que o sonho remetia. Descobriu que a palavra “explanar” tinha como um dos significados principais “tornar plano”. Já “explicar” levava a “alisar”.

Quando li essa história, fiquei incomodado em me reconhecer em muitas atitudes como o trator no sonho. Enquanto o convite da vida era subir a montanha a fim de contemplar todo o vale, muitas vezes me vi gastando energia destruindo-a para aplanar as incertezas e assim ter pleno controle sobre tudo a minha volta – por medo da altura, da profundidade, do sol a pino na montanha e da escuridão do precipício.

Estar no monte é estar exposto. Estar no precipício põe a prova o objeto da fé -se realmente cremos do que dizemos crer.

Muito mais do que viver nessa tensão das montanhas e precipícios, a missão da vida, creio eu, está relacionado diretamente com o próximo. Não se vive só. E em tempos de selfie levar a vida em direção ao outro, a fim de fazer parte da escalada na montanha e do não cair no abismo, soa como pura maluquice utópica. Simplesmente porque, muitas vezes, não há uma explicação ou explanação razoável para tal. No máximo uma poesia que poucos entenderão. E partindo do principio que poesia é como um bom vinho, que nenhuma explicação lhe fará sentir o seu sabor de forma plena, se embebedar da vida na tensão das convicções e incertezas, nos fará conhecer juntos o caminho das pedras.

Isso me faz lembrar da primeira vez que ouvi Deus claramente sobre o sentido da vida (chamado) no trecho que da nome ao livro “O Apanhador no Campo de Centeio”.
“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Domingo

Ela, um presente, eu sei

E não tenho dúvidas sobre merecê-la
Eu não mereço
Mas se não presente
Ausente me leva de mim
Por fim, começo assim
Sorrir nuances
Perceber sobre aquele monte
Aqueles lances do sol ali
O amanhecer da Páscoa sobre nós
Como não previ
Me olhou muito a frente
E não exitou sob as palavras
Disse sim
Àquilo a que vim
Se perguntam
Não desperdiço falas
“Às favas” diz o aviso na porta
Eu
Feliz

Rara Gente

Há quem tome a vida por notas agudas, musicas obtusas que se encerram em funerais. Entretanto, os que compreendem sua condição terminal vivem sua crônica em conto e poesia. Encontros, enquanto respeitando pontos e vírgulas, embriagam-se em cortesia entre os parenteses na linha. Respira o céu que, a partir do fel, é cura da lida. O mel no céu da boca do beijo amargo de um amor que se foi. Eis a sina do paciente, respeitando as dores adjacentes, não se deixa seduzir pelo ausente caso de amor. Antes, espera pacientemente resposta a pergunta frequente; me concede essa dança até o sol poente?

Limiar

Ratifico reticências afim de não me afogar nas iminências.

Cansado de vossa ausência me dou o direito a obsolescência.

Corro os olhos pela planície afim de enxergar novas saliências
E o que de mim escorreu… toda essência.
E é fácil reparar a insolvência.
É só olhar o número de flores e espinhos no jardim se deu;
Paradoxal perfume de incongruências.
E do jardineiro não espero tanto das mãos firmes,
Mas de sua paciência.

Naveguemos

Adorável Misericórdia que nos permite ser uma vez mais.
Maravilhosa Graça que nos permite estar novamente aqui.
E as sutilezas da canção que passa pelos ouvidos,
Mas que poucos corações dão atenção.
Embriaga-se em vontade de cantar tão profundamente a tristeza gerada na compaixão.
A cisão que nos espalha ao mundo.
O vento dos perdidos.
A vela içada do desapego.
A vela acesa do seresteiro.
E o grito. Forte. Dos que não se vendem ao sorriso.
“porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”
Se canta melhor canção.
Sente o vento gelado e o áspero chão.
Se sente.
E é grato.
Engrandece as mãos do poeta da criação.
E revive a morte que nos trás paixão.
Que nos afasta dos túmulos.
Manifesta vida que nos leva para longe de nós.
Nos reconcilia com outros tão pequenos quanto eu.
E voltamos a ser paradoxo.
Porque a criação nascida das palavras se manifestou aos olhos Mas é guardada no coração.
E quanta inspiração pode caber?
Quanta tristeza? Quanto arrependimento?
Quanta compaixão?
Quanta descoberta?
Que o acúmulo não nos estrague.
Que nos despedacemos por aí.
Que estejamos tão longe, que a bússola se perca.
Que não guardemos em jarros velhos o vinho bom.
Festejemos as lidas e despedidas.
Choremos a vida e a morte.
Porque se a criança não chorar, como poderá respirar?
Vinde, choremos.
Respiremos.