O Vestido

O vestido dela era branco. Mas nada parecido com uma noiva. Tinha uma fita azul em volta. Solto. Fresco. Sujo de brincar na grama. Ela vestia liberdade. Era isso que o vestido e seu jeito de andar diziam. Mas não um tipo de manifesto que alguém lê e concorda se quiser. Assisti-la no seu jeito desajeitado de caminhar simplesmente tornava a verdade evidente dentro de você. Ela era livre. Mas não uma liberdade arrogante. Era algo conquistado e respeitável.Doloroso.

Ela se permitia mas não era, simplesmente, permissiva. Seus olhos transpareciam carência, as vezes. Algumas angustias a faziam tremer. O medo eriçava sua pele. O toque também.

Não tinha tempo para nada. Por isso tinha todo o tempo do mundo. Fazia chacota das suas paixões absurdas e perdia a linha quando sua musica favorita tocava onde quer que fosse. Dançava no corredor de produtos de limpeza do mercado e chegou até descer do carro, certa vez, para dançar sozinha de madrugada na rua frente ao semáforo vermelho.

No parque onde nos conhecemos nunca soube seu nome. Ela se quer olhou pra mim. Quem sorriu foi o vestido branco dela chamando atenção por todas as cores que ela o fazia ter. Me perdi totalmente na leitura naquele dia. Fechei o livro e fiquei imaginando tudo isso que escrevi.

O Som, Os Cegos e a Amizade

Eu estava esperando alguns amigos em frente a catraca da estação de trem. Logo para do meu lado um rapaz cego. Um dos funcionários se aproxima e pergunta se ele precisa de ajuda mas ele rejeita educadamente. “Estou esperando alguém”.
Alguns minutos depois se aproxima outro moço cego. Ele parece meio perdido. Para e bate com bengala três vezes no chão. “Bruno?” diz em voz alta o rapaz do meu lado. “Eu mesmo, meu amigo”. “Esse seu som é único. Reconheço de longe. Vamos almoçar que eu estou matando cachorro a grito”. “Vê se larga de ser ‘zóião’, Roberto”. Saem se escorando com muitas risadas.
Talvez, nada demais. Mas fiquei extremamente empolgado e pensativo com aquela cena e o poder da comunicação relacional. Trens passando, pessoas indo e vindo, um transito infernal e, um tanto quanto aleatório, três batidas de bengala no chão a uma certa distância fizeram dois amigos cegos se enxergarem.
Se isso fosse uma oração, pediria a Deus que reconhecesse esses sons durante a vida a fim de suportar, rir e partilhar refeições com meus bons amigos. E que, quando eu estivesse perdido, Deus, através desses mesmos amigos me ajudasse reconhecer o som no meio de tanta loucura.

Passageiros

O velho seguiu apressado tentando acompanhar os passos da esposa. Uma constante procissão de pessoas subindo e descendo as escadas do Metrô. Uns voltando pra casa, outros indo para o trabalho, escola, faculdade ou qualquer outro compromisso. A não ser por alguns retardatários, principalmente os perdidos no seu sério relacionamento com o celular, todos parecem estar extremamente atrasados. Alguns ao telefone contam suas histórias “o trem quebrou”. “estou parado no trânsito”, “teve manifestação perto de casa hoje cedo”, “perdi a hora”. Inclusive, lembro de um dia que liguei avisando que tinha “perdido a hora”. Um antigo chefe respondeu que das grandes responsabilidades da vida, a maior delas era, na verdade, achar essas horas. “Eu sei que você vai dar conta do serviço mesmo chegando atrasado. Mas talvez tenha perdido a oportunidade de ler algum grande livro nessas horas que perdeu. E eu sei o que isso significa pra você”. Desde então aprendi que não é o dia que deve ter 48 horas. Isso, automaticamente, deixaria os dias da minha vida pela metade, ao contrário do que imaginava. Era eu quem deveria ter disposição de organizar e aproveitar muito bem as 24 horas que me são dadas. Mas hoje, desacelerei. Acompanhei o casal de velhos. A senhora na frente e o senhor atrás tentando alcança-la. Ao que ela olha para os lados e percebe a ausência do marido. Olha pra trás e o percebe ofegante. Sem cerimônia retruca “Ande velho. Segure minha mão e não enfarte. Senão, não te beijo”.

Histórias

Há sempre uma história acontecendo ao nosso lado. Em São Paulo, especialmente, sempre fico muito atento ao redor. Normalmente reparo detalhes e fico ruminando eles por horas. E uma das coisas que me chama muito atenção é que, na sua maioria, todas as historias a nossa volta tem uma trilha sonora. Por vezes, a trilha define a história. Se estou ouvindo um som deprê, reparo mais nas pessoas que estão reflexivas ou tristes, e assim vai. Quando não ouço música alguma, fico olhando o rosto das pessoas para tentar adivinhar o que estão ouvindo.
Já escrevi textos que me fizeram chorar. Outros que, se eu tivesse como, me daria um Nobel de Literatura. Isso normalmente dura algumas horas. De repente, aquele momento passa e quando releio penso na minha ingenuidade, imbecilidade ou qualquer outro adjetivo referente. Eu tinha muito medo de publicar o que fosse. A maioria das vezes porque a música já não era mais a mesma.
Hoje não me preocupo mais com isso. O caos urbano é música suficiente pra mim. Não tenho medo de soar piegas porque um casal no Metrô me inspirou. Não tenho medo mandar ninguém pra puta que o pariu em caixa alta porque me irritou. Mas o que mais gosto hoje é como as palavras me transformaram e, por isso, aprendi a escrever sem inspiração. Se falta música, eu componho uma que só eu possa ouvir. Logo em seguida tento traduzi-la em palavras. Eis os absurdos e bipolaridades das minhas publicações. Posso ser grato na merda. Amar odiando. Xingar amando. Eu acredito no poder místico da palavra. Na música que ela dedilha. E talvez seja uma parte do meu papel como personagem desse Teatro do Absurdo. Te fazer experimentar sensações a contragosto. Te fazer sentir o tesão do fel, a tensão do amor, a alegria do ódio e simpatia pelo feio.
Sei que isso é chato, mas gostaria de fazer um pedido. Se quiser saber como estou, me pergunte. Mas se ler um texto meu, em seguida, se pergunte como estás. Eu adoraria saber qual a sua música no momento.