O Sol

Um dia o sol se pôs e não quis mais voltar. Mas o que ele não sabia era que ninguém poderia lhe esconder. Nem mesmo o mar. Todavia estava chateado pelo amor vazio e sempre distante. Era puro embaraço, poucas palavras, muitos contrastes. Resumindo, cortante. Então por muito tempo, o lado de lá era constantemente dia. Ninguém dormia e a morte foi chegando.
Aqui, noite escura e vazia. Árida e fria. A amada lua nem mais sorria.
Cansado da monocromia e de ver o mundo morrer, o Sol resolveu voltar a correr, apesar de suas explosões, arroubos de paixão. Reviveu.
E aqui o dia chegou quente e fresco, como há muito não se via. E em seguida a noite retornou fulgida pela sorriso amarelo da Lua. E duas coisas constatou. A lua sorria porque ele existia. Mas era impossível competir com os seus amantes. Insones contempladores da estrela nua. E por isso projetavam nela suas agruras.
Algo mais percebeu. Os primeiros raios aqueciam e iluminavam a esperança de quem na distancia desse amor se perdeu. E ele perfeitamente entendeu o seu lugar. Como poeta em primeira pessoa que conta, aquece e canta. “Mas esse não sou eu”.

Imagine A Vida Como Uma Grande Viagem

Pense a vida como uma grande viagem. Você faz alguns preparativos e segue para a rodoviária. Digamos que você está indo para o Sul do país. Seu ônibus sai daqui uma hora. Da tempo de ir ao banheiro, comer algo, relaxar, uma última checagem e bora para plataforma. Passagem na mão, assento marcado para evitar confusões. E a grande viagem começa. Ela é extremamente longa. Cansativa. Mas segue seu fluxo.
Agora imagine o seguinte. Você chega na rodoviária afoito, com tanta ansiedade para viajar logo que não aguenta esperar uma hora para embarcar e percebe que tem um ônibus que vai sair em 5 minutos para o Norte. Você não pensa e embarca. Algum tempo depois se da conta que deveria ter ido ao banheiro, comido algo, bebido água. Percebe que o ônibus não tem ar condicionado. Pior ainda, havia se preparado para o frio do sul e por isso só tem agasalhos na mala para enfrentar altíssima temperatura.
No fim, finge alegria para a foto, publica e passa o resto da viagem amaldiçoando-se.
Imagine a vida como uma grande viagem…

Naveguemos

Adorável Misericórdia que nos permite ser uma vez mais.
Maravilhosa Graça que nos permite estar novamente aqui.
E as sutilezas da canção que passa pelos ouvidos,
Mas que poucos corações dão atenção.
Embriaga-se em vontade de cantar tão profundamente a tristeza gerada na compaixão.
A cisão que nos espalha ao mundo.
O vento dos perdidos.
A vela içada do desapego.
A vela acesa do seresteiro.
E o grito. Forte. Dos que não se vendem ao sorriso.
“porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”
Se canta melhor canção.
Sente o vento gelado e o áspero chão.
Se sente.
E é grato.
Engrandece as mãos do poeta da criação.
E revive a morte que nos trás paixão.
Que nos afasta dos túmulos.
Manifesta vida que nos leva para longe de nós.
Nos reconcilia com outros tão pequenos quanto eu.
E voltamos a ser paradoxo.
Porque a criação nascida das palavras se manifestou aos olhos Mas é guardada no coração.
E quanta inspiração pode caber?
Quanta tristeza? Quanto arrependimento?
Quanta compaixão?
Quanta descoberta?
Que o acúmulo não nos estrague.
Que nos despedacemos por aí.
Que estejamos tão longe, que a bússola se perca.
Que não guardemos em jarros velhos o vinho bom.
Festejemos as lidas e despedidas.
Choremos a vida e a morte.
Porque se a criança não chorar, como poderá respirar?
Vinde, choremos.
Respiremos.

Pequenos Cotidianos

Me disseram uma vez que solidão é doença de quem está sempre caminhando, ao contrário do que dizem por ai. Os que se cansaram e desistiram tem muito tempo e muita companhia. A falta de interação se dá pela falta de histórias a serem contadas, suponho eu.

Cheguei a conclusão, e não estou pedindo para concordar comigo, que quem não cria expectativa é porque também já desistiu. Ou o desejado não é tão importante assim. Mas há de se pensar em conceitos. Segundo um dos dicionários que consultei, expectativa significa “Ato ou efeito de expectar = ESPERA”. Logo, pra mim, o significado mais palpável é ter fé. Ai penso na mediocridade de tantos relacionamentos a minha volta e concluo que realmente se colhe o que se planta. Me parece que o lema hoje para relacionamentos é “crie gatos mas não crie expectativas”. Ou seja, não tenha fé na pessoa com quem você quer passar o resto da vida, no fim das contas o mundo está cheio de gatinhos e gatinhas.

Me disseram que eu preciso “ser alguém na vida”. Tendo em vista o significado usual dessa frase, ganhar dinheiro, pobre perde sua humanidade desde que se conhece por gente.

Falando em pobre, ai vai uma dica de saúde e economia; se você vende o almoço pra pagar a janta, tente inverter os coeficientes. Jantar e dormir engorda. Já o sono espanta a fome.

Ler É Moda

Ler é moda. Tipo Bacon, The Walking Dead, falar mal de pastor, criar memes e afins. As vezes sinto que sou julgado por algumas pessoas como se, todas as vezes que falo de algum livro, estivesse ostentando um estandarte de pseudo “cult”. É só uma sensação que, sinceramente, não me incomoda em nada. Mas torço para que a moda de ler permaneça para sempre, com pessoas ostentando sua intelectualidade ou não. Eu mesmo já fiz muito disso, me sentir alguns níveis acima por ter lido determinados livros em detrimento a outros. Autores da moda, na minha época, (como se eu fosse idoso) como Sidney Sheldon, Norah Roberts, Agatha Christie e outros romancistas que hoje não tenho muita paciência para ler, foram cruciais na minha formação como leitor assíduo. A questão é que, os mesmos livros que te entregam sabedoria, eloquencia, e tantos outros adjetivos, são os mesmos que te colocam de joelhos na sua ignorância. A primeira vez que li “Irmãos Karamazov” do Dostoievski, foi agoniante. Comecei a me identificar com vários personagens simultaneamente, principalmente na hipocrisia, no ódio, nas manipulações… no pecado. E como característico da escola russa, o fim não era nada hollywoodiano. A “Abolição do Homem” é um livreto escrito por C.S. Lewis em sua fase deista/taioista. Demorei um pouco mais de 6 meses para digerir. Impossível lê-lo como “leitura de busão” ou simplesmente passar batido por cada frase dele. Tolstoi me levou ao extremo da Justiça Social, me forçando ser, além de crítico, prático. Gandhi me introduziu a filosofia de Não Violência. Me ensinou a abaixar a cabeça com sabedoria e me forçou a aperfeiçoar a boa argumentação. Rubem Alves me ensinou amar analogias, contos e parábolas. Até hoje me ensina sobre a “urgência paciente” da vida. Thoreau foi ao extremo pra que eu aprendesse equilibrar a utopia e a prática, sem jamais perder o horizonte. Tolkien me apresentou o fantástico palpável. Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Bukowski e boa parte de sua geração me ensinaram a amar a vida desesperadamente. A Bíblia me deu equilibrio nisso tudo. Entenda que tudo isso que citei ainda é construção. Muitas coisas estão na fase do alicerce ainda. Poderia escrever um livro falando só de livros e minhas experiências com eles. Inclusive, duas dicas: Alma Sobrevivente do Philip Yancey e “Muito Mais Que Palavras” do James Calvin Schaap & Philip Yancey. Livros que valem ler e anotar todas as indicações de leitura. No fim, se depender de mim, serei eternamente um leitor “wanna be” disposto a compartilhar experiências e dicas. Be fashion baby!

Esperanza

O canto da esperança só canta quem já perdeu o tom.
O tempo e o ritmo se acompanham como numa corrida atrás do trem que está partindo.
O frenesi se encontra numa sala sem portas e janelas
Onde a oração é fumaça parada no teto.
O Jazz é o Blues do anseio no peito.
O Rock é suor, luxúria e redençao.
O perfume dela se percebe porque já se foi.
E eis meu coração exposto na canção.
Esperanza, que belo nome para sonhar.

Não Sabe O Que Sei

Ah! Onde é agora e o beijo também. Diz “farsa” essa hora, não sabe o que sei. Lâmpada acesa acessa um quarto de um terço descaso que reza alguém. Se diz a verdade não nega a ninguém os olhos cansados de uma noite ou trem. Separa a marra dos gestos em mim, quebradas as cascas de gemas e claras de uma história sem fim. Singelos pecados gelados de horror. O doce melado de pouco sabor. Caleja o carinho de longa estrada. Afia os espinhos das marcas cicratizadas. Encerra a morte num luto de vida e corre pra longe do túnel de luz. Espera a sorte do atraso do ônibus e senta atrás da bela figura. Até o monstro suspira encanto e canta ternura. Não deixa palavra estragar o sorriso, só permite à mente o desconhecido. Aonde é agora e beijo também. Ela me olha em tons contrangidos. Melhor, disfarça nessa hora… ela não sabe o que sei.

Você Já Se Perguntou “O Que Eles Estão Fazendo No Céu Agora”?

“Estou pensando em amigos que eu conhecia, que viveram e sofreram neste mundo. Mas eles partiram para o céu. Mas eu quero saber, o que eles estão fazendo lá agora?
Há alguns cujos corações foram sobrecarregados com cuidado. Eles pagaram por seus momentos de lutas e lágrimas. Mas eles agarraram-se à cruz com tremor e temor; Mas o que eles estão fazendo lá agora?
E há alguns cujos corpos estavam cheios de doença. Os médicos e os doutores não poderiam dar-lhes tanta facilidade. Mas eles sofreram até que a morte trouxe uma libertação final. Mas o que eles estão fazendo lá agora?
Há alguns que eram pobres e, muitas vezes desprezados. Eles olharam para o céu com olhos cegos de lágrimas enquanto as pessoas estavam desatentas e surdas para os seus clamores. Mas o que eles estão fazendo lá agora?
O que eles estão fazendo no céu hoje, onde o pecado e tristeza estão do lado de fora? A paz abunda como um rio, dizem eles. Mas o que eles estão fazendo lá agora?”

[Tradução livre da música What Are They Doing In Heaven Today? da banda inglesa Mogwai.]

What are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
What are they doing there now?

I’m thinking of friends whom I used to know,
Who lived and suffered in this world below
But they’ve gone off to heaven, but I want to know
What are they doing there now?

Oh, what are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
But what are they doing there now?

There’s some whose hearts were burdened with care
They paid for their moment to fighting and tears
But they clung to the cross with trembling and fear
But what are they doing there now?

What are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
What are they doing there now?

And there’s some whose bodies were full of disease
Physicians and doctors couldn’t give them much ease
But they suffered ’til death brought a final release
But what are they doing there now?

What are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
What are they doing there now?

There’s some who were poor and often despised
They looked up to heaven with tear-blinded eyes
While people were heedless and deaf to their cries
But what are they doing there now?

What are they doing in heaven today,
Where sin and sorrow are all done away?
Peace abounds like a river, they say.
What are they doing there now?

 

Versão original AQUI!

Seres Reais, Histórias Imaginárias

Que bela incógnita.
E não me importa a resposta.
Que bela pergunta.
Me atrai por que está escuro.
Não que a luz tenha se apagado.
Que bela criança.
Que brinca de não de saber.
Como se, desajeitada, não soubesse brincar.
Que bela estrela.
De noite febril e de pequenos rebentos
Arroubos de violenta ternura.
E o que me resta é esperar o nascer.
Porque nos seus olhos, o sol ja se pôs.

Mia Couto, Caetano Veloso e o Deus Literário

Quem pensa que sabe como são os africanos nunca imaginaria que Mia Couto fosse natural do continente negro. O romancista mais celebrado de Moçambique é branco, enche seus livros do realismo mágico da tradição latino-americana e tem um estilo que lembra Guimarães Rosa. Foi contado entre os melhores escritores africanos do século 20.

Em entrevista recente ao Estadão, perguntaram-lhe se há influência brasileira em sua literatura. Respondeu: “Sim. Ela veio justamente da música de Chico, de Caetano. Muitos músicos moçambicanos tinham tentado cantar em português, mas o português duro, rápido, de Portugal, não tinha musicalidade. Aí ouvimos Chico, Caetano, Gil e descobrimos que o português poderia ser outra coisa. Foi uma descoberta.”

Talvez tenha sido crítico demais ao português dos fadistas e trovadores, mas a descoberta de que a língua da mera comunicação corriqueira poderia ser também a língua da poesia e dos sonhos abriu-lhe um novo mundo. Muitos anos mais tarde, o comitê Nobel também reconheceu que a língua portuguesa possui a maleabilidade necessária para ser talhada por alguém com o talento de José Saramago. Aqueles que se importam com os idiomas enxergam na nossa gramática, nos nossos vocábulos e na nossa sintaxe as ferramentas para criar e perpetuar aquilo que só existe na língua. O português pode ser usado para emocionar, agregar e inspirar.

Como cristãos, temos o privilégio de servir e adorar a um Deus literário. A linguagem da Bíblia evidencia sua preocupação com a arte de expressar-se. Há nela não apenas a Verdade Revelada, mas as múltiplas verdades reveladas por meio de uma riqueza estonteante de poemas, acrósticos, canções, parábolas, paralelismos, hipérboles, metáforas, figuras de linguagem e artifícios da retórica. Não resta a menor dúvida de que Deus — o Verbo — se relaciona conosco através da Palavra, e que esta palavra tem forma intencional, bela e artística. Leland Ryken afirma que “os escritores da Bíblia e o próprio Jesus Cristo perceberam que é impossível comunicar a verdade de Deus sem usar os recursos da imaginação. A Bíblia faz muito mais que apenas sancionar o uso da arte. Ela demonstra que a arte é indispensável (“The Imagination as a Means of Grace”, Communiqué, 2003).

Penso, às vezes, que a linguagem usada em muitas igrejas é como o português “duro e rápido” que Mia Couto ouvia quando criança. É utilitária, descritiva e funcional, mas carece do tipo de imagística e musicalidade que despertam a alma. Como pastores e líderes, concentramo-nos no conteúdo de nossas doutrinas em detrimento de sua forma. Esquecemos que a Bíblia não divide a arte em sacra e secular. Nela, a arte possui valor igual tanto em ambientes de louvor quanto do cotidiano (Nm 21.16-18; Is 16.10; 52.8-9).

Como seria se nossos pastores se importassem tanto com a linguagem quanto se importam Chico, Caetano e Gil, assim também como Davi, Salomão e Jesus? Tenho a impressão que, se a poesia de nossas teologias saturasse as nossas palavras, os muitos Mias Coutos das nossas congregações de repente ouviriam algo diferente, algo novo, capaz de agarrar suas imaginações, inspirar-lhes e enviar-lhes correndo de volta à Palavra, fonte de nossa inspiração.

Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

Retirado do site da Revista Ultimato

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