Café Espera

Era o grande dia do seu aniversário. Mas sentia como se estivesse caminhando para um velório. Acordara cedo e andava por todos os cômodos tentando lidar com a ânsia de seus 20 anos. Viu a bolsa da mãe sobre a mesa da cozinha e não pensou duas vezes. Roubou-lhe algum dinheiro e saiu apressada em direção a casa de Alex. Ele saberia o que fazer, pensava consigo mesma. Em frente onde morava, do outro lado da rua, ligava desesperada em seu celular afim de que acordasse e pudessem conversar sem que os pais percebessem. Eram oito de uma manhã cinza e preguiçosa.
Ainda sonolento, Alex olhava um tanto quanto incrédulo o número de ligações de Lia. Há um mês terminaram o namoro sem ele entender exatamente o que acontecia. Mas lá estava ela, insistente.
O Café Espera era seu lugar especial. A velha poltrona surrada ao lado da entrada da cozinha era o local onde haviam selado pactos ao longo do relacionamento. Isso desde a primeira vez quando, ela com 7 anos e ele 10, se tornaram amigos quase forçados pelos pais que frequentavam diariamente o café, para que os deixassem conversar em paz. Lembravam sempre daquele dia que passaram a manhã fazendo careta um para o outro até se perceberem sentados juntos rindo das pessoas que entravam e saiam todo momento.
Cinco anos depois veio o primeiro beijo, do nada no meio de uma conversa, e o medo de se perderem um do outro para sempre por não saberem lidar com o que vinha depois. Ficaram um mês se evitando. No primeiro dia de aula, na volta das férias do meio de ano, tomaram café da manhã juntos no Espera sem que tivessem combinado e sem conversar sobre o temido assunto. Selavam um novo passo na amizade.
Aos 19 anos de idade, num primeiro porre de vinho com os amigos, Alex ligou em tom de desespero para Lia lhe declarando amor eterno. Vomitando palavras guardadas desde o primeiro beijo adolescente. Lia permanecia muda no celular, até desligar sem dizer uma só palavra. No outro dia, frente aos efeitos de sua primeira ressaca, acompanhada da ressaca moral por conta da ligação, saiu cabisbaixo em direção a casa dela arranjando palavras para tentar consertar toda aquela bagunça. Alguns minutos a frente do portão, tomou coragem e tocou a campainha. Lia apareceu imediatamente, como se estivesse aguardando a coragem de Alex. Abriu o portão e antes de qualquer palavra dele deu-lhe um beijo longo e demorado. Empurrou-o para fora e disse “ligue-me novamente quando não estiver bêbado”. Foi o primeiro dia de namoro.
Quando, cinco anos depois, Lia o chamava para irem ao Café, pressentiu sua perda. Era como se o amor estivesse ali a seu alcance. Alex via nos olhos profundos dela. Mas percebeu que havia companhia. Uma frieza quase sádica. Uma insana quietude. Ela aproveitara todo o café sem esboçar um pingo de tristeza. Ele não encostara a boca na xícara. Não conseguia argumentar, fazer perguntas minimamente coerentes. Aceitou o término porque ficara paralisado. Se escondeu do mundo e dormiu todas as noites de exaustão do choro.
No fim do mês mais longo de sua vida, lá estava Lia. Atendeu a ligação segurando o coração na mão. Ouvia a mesma voz firme da qual sentia tanta saudade “preciso de sua ajuda. Se arrume. Vamos ao Espera. Por favor”. Essas últimas palavras em tom de tristeza e desespero.
Das certezas na vida, Alex sabia exatamente o que não queria se tornar e pra onde não queria rumar. As poucas coisas que tinha em mãos vivia-as intensamente. Eram escolhas conscientes. Paixão racional sem aquela etérea incerteza. Lia era uma de suas maiores convicções.
Numa revista científica alguns anos atrás, lera que o recorde de alguém debaixo d´água sem respirar era de 19 minutos. Quase impensável para ele, sedentário rato de biblioteca com todos os problemas respiratórios possíveis. Mas aquela informação insignificante, a primeira vista, lhe rendeu reflexões por dias a fio naquele mês de término. Quando pensava no seu relacionamento com Lia, não era sobre os tantos anos juntos desde a amizade quando criança. A dor que sentia não se dava por conta do comodismo do tempo. Muito pelo contrário, Pensava em momentos específicos, curtos e intensos. Sabia exatamente em quem minuto havia se apaixonado. Ela era o seu oceano. Aguentara um tempo segurando a respiração. 19 longos minutos. Mas, ao invés de sair correndo da água para respirar como o rapaz do recorde, decidiu permanecer para sempre naquele profundo mar. Ainda sim, apesar de toda a convivência, sabia que nunca esteve plenamente presente em todas as camadas da vida de Lia. Haviam profundezas na sua alma que até ele fora proibido de entrar.
Caminharam em silêncio sepulcral até o Café Espera. Lia entrou sem olhar para ninguém e sentou em seu lugar de costume. Alex cumprimentou Inês, uma das atendentes mais antigas do Café, se aproximou de Lia e sentou-se de frente, desconfortavelmente. Ela totalmente inquieta parecia conversar consigo mesmo. Palavras ininteligíveis que Alex fazia esforço em vão para tentar entender. De repente, clara e sonora, as palavras foram arremessadas no seu peito. “Acho que estou morrendo, Alex. Acho que estou morrendo”.
Totalmente assustado com o que ouvia, tentou tomar o controle da situação, mas sua voz saiu mais trêmula e vacilante que o normal. “Mas… mas o que você está me dizendo? O que aconteceu?”. “Estou morrendo Alex. Morrendo. Lenta e dolorosamente. Meu aniversário hoje só veio me lembrar e sinalizar isso com mais enfase. Estou morrendo”. Ainda confuso com o que ouvia pediu explicação para o que estava acontecendo. “Você está doente ou algo do tipo? Fale logo”. Lia enfurecida responde rispidamente “Porque é preciso estar doente para estar morrendo? Será que você não entende? Achei que entenderia”. Alguns segundos depois, um pouco mais calma, prosseguiu. “Lembra da última vez que estivemos no Mirante e te falei que dos medos que sentia não conseguia nomear nenhum? É disso que estou falando. Descobri o seu nome. Ele se chama solidão. E solidão é o caminho mais curto para a morte. E eu estou correndo nesse caminho”. Um pouco mais de fôlego. “Meus pais irão se separar. Ouvi-os conversar há uns meses. Meu irmão também esta em processo de separação. Ele veio semana passada falar com meu pai. E tudo o que ouvi foi sobre isso, solidão. Todos estão sós. Todos se sentem sós a ponto de não querer viver. E eu quero, Alex. Eu quero viver. Mas me parece que a solidão sempre vence. Ela venceu meus heróis. É como ouvi meu pai dizer ‘a solidão também dorme acompanhada’. E é por isso não existe mais ‘nós dois’. Não queria que a solidão dormisse com a gente. Não queria que ela nos separasse e nos transformasse em dois completos estranhos uns para o outro. Mas a questão é que tudo o que consigo sentir é que estou morrendo”.
Os pensamentos de Alex começaram a clarear lentamente. Absolvia as palavras em tom confuso de Lia. Mas começara a entender aos poucos seus dilemas. Amiúde tentava entender de onde vinha toda a firmeza que Lia deixava transparecer, toda sua auto suficiência mesmo quando adolescente. Percebera que era reflexo dos porões onde ele nunca teve permissão para estar. Lia abria aos poucos as portas. Mas havia muita informação. Eram situações em demasia para se lidar em uma única conversa no café.
“Não sei o que dizer Lia. Muita coisa. Te diria ‘calma!’, mas sei que me odiaria só de ouvir essa palavra”. “Sim, definitivamente. Mas não sei como lidar. Por um tempo eu simplesmente ignorei o que ouvi todos esses meses, a espreita. Mas todos os meus sonhos me lembram cada palavra. Estou com medo. Medo da solidão. Medo da minha família. Tenho medo de você”.
Um longo silêncio toma conta do ambiente. Não conseguem se olhar. Pigarreado, a voz de Alex prossegue; “o que posso te oferecer é não te deixar só. E não se trata de beijos e abraços. Me ofereço para ajudar a clarear as coisas. Os seus pensamentos. Eu sei que as coisas mudaram e irão mudar mais. Meu pai me contou uma vez que existe uma tradição judaica sobre se casar-se novamente a cada 7 anos. Fiquei assustado e perguntei se a cada 7 anos eles trocavam de marido e mulher, e ele me disse que não. Ao que parece, a maioria das nossas células são renovadas a cada 7 anos. Então nos tornamos uma pessoa diferente, com paladar diferente, uma percepção diferente. O que eles fazem é que, nesse período, eles se casam de novo com a mesma pessoa, que na verdade já é uma outra pessoa. E reafirmam o compromisso que fizeram anos atrás. Você se lembra de quando te liguei bêbado? Acredite ou não, me lembro de cada palavra. E eu não sei como isso é na sua mente, mas acho que é muito precoce lidarmos com o peso da solidão. Mas se esse é seu fardo hoje, eu quero ajudar a carregar. Não sei como, mas vou”. “E como você vai fazer isso?”.”Eu não sei. Mas você disse que a solidão é o caminho mais curto para a morte. Então, a partir de agora, a gente vai andar sentido contrário, se você quiser”.”Não sei o que responder. Tenho medo”.
Alex pensa por alguns segundos e propõe; “Vá para casa. Tente aproveitar seu dia. Estarei aqui as 8 horas em ponto amanhã. Se achar que pode confiar em mim, venha me encontrar”.”Ok! Mas não garanto que virei. Não sei”. “Eu estarei aqui…”
Lia sai sem se despedir. Alex permanece imerso em si mesmo lutando contra expectativa, ânsia e a possibilidade de perder Lia para seus fantasmas. Sentia-se nu numa luta com um demônio a espreita na escuridão. Fora sentenciado sem cometer crime. E aguardava um milagre virar a esquina. Eram 10:30 e saberia não dormiria mais até amanhã. Espera, novamente, deixava de ser um simples Café e se tornava a sua própria vida. Uma café contendo esperanças e lamentos. Espera.

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