Náusea

Quando os 30 anos chegaram, Iara não tinha encontrado as resposta dos questionamentos da juventude. Havia, na verdade, colecionado mais perguntas. Questões que excitavam sua mente, moviam seu corpo e impulsionava olhar a vida mais atenta aos detalhes, as esquinas, os sinais abertos e fechados das grandes avenidas.
Plantara um jardim secreto.
Mas chegara um momento que não tinha mais tempo para cuidar desse jardim. Precisava lidar com a futilidade de alguns próximos, outros nem tanto assim.
“Quando casa? Quando terá filho? Por que não terminou a faculdade? Vai sair com essa roupa? Cuidado, vai ficar pra titia”.
O Natal que deveria celebrar o nascimento do Menino Jesus era, na verdade, a sua crucificação. Ela tinha sede e lhe davam vinagre. Tinha respeito e, por isso, muitos se achavam livres para escolher a vida que deveria levar.
Iara nunca sofreu abuso físico. Nenhum tio, pai, padrasto, vizinho ou desconhecido tentou, deliberadamente, violar seu corpo. Era uma garota de sorte. Só teve de lidar com olhos cheios de luxúria e a falta de maturidade de alguns homens em sua vida.
Mas, pensando bem, talvez não tenha sido uma garota de tanta sorte assim, na verdade. Não violaram seu corpo. Violavam sua alma. Plantavam daninhas que precisavam ser arrancadas. Somente por ela mesma, todos os dias.
Ainda sim, não sabia exatamente como lidar. Onde está a Delegacia da Alma da Mulher nessas horas?
Expor a macula, o flagelo da vagina da alma. Era também abertura para que outro viesse tentar arar a terra que só precisava de um pouco de chuva e descanso.
Iara flertara algumas vezes com o suicídio intelectualmente. Não tinha coragem. Não tinha vontade de perder a vida, por mais que parecesse que alguns estivessem provocando exatamente isso nela.
Distraída com o interior, Iara sofreu um acidente. Violentada, não percebeu a diferença entre o verde e o vermelho do sinal. Como sempre, quando deveriam parar, avançavam sobre si.
Não lembra direito do que aconteceu. Acordou numa cama de hospital confusa e assustada tentando discernir se aquilo era realidade, sonho ou pesadelo. Afinal, todos os seus estupradores estavam ali sorrindo, fazendo-lhe carinho. Oferecendo cuidado, amor e dedicação. Estavam seu pai, mãe, irmão, avós, amigos, pastor e namorado.
“Parabéns”, disse médico entrando de forma displicente no quarto “está tudo bem com ele”.
“Com ele?”
“Você terá um belo e saudável menino”.

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