O Velho

Era o seu último dia. E como um velho sábio, encarnava o provérbio de mais ouvir do que falar. Em certos momentos, isso era totalmente irritante, confesso. Eu esperava pela tão esperada resposta. Dizem que, as vezes, redundância é sinônimo de impaciência. Ansiedade. Pouco sono. Mas, graças a Deus, haviam muitas dúvidas para ocupar o tempo. Afinal, “em tudo dai graças”.

Alguém disse uma vez que decisões importantes geram dúvidas. Não sei porque, mas isso me soa um pouco redundante também. Voltamos a impaciência.

Ah, sim! O velho continuava lá, impassível. Não sei se pensava a respeito de tudo o que eu tinha lhe contado, se pensava em uma resposta ou se zombava das minhas dúvidas. Só sei que ele simplesmente estava lá e nada mais.

É incrível como o peso da palavra dita não é o mesmo da palavra guardada no coração. Cheguei a questionar se realmente estava com dúvida, se sentia mesmo tudo o que achava sentir, e vice versa.

Se levantou. Tomei um baita susto. Eu estava totalmente perdido nos meus devaneios. Mas de volta a terra e prestando toda atenção do mundo, ele andou até a porta e não disse uma mísera palavra. Quase infartei. Dizem que, as vezes, super valorização é sinônimo de imaturidade. Mas um pouco antes de fechar a porta, um resmungo rouco se fez ouvir.

“Preciso ir… e você também”.

Fiquei mais confuso. Ir pra onde? Eu estava em casa, oras.

Ainda sim, nunca mais esqueci disso.

A noite chegou a notícia. O velho tinha partido. Não tinha nem chegado em casa. Chico Buarque cantou baixinho no meu ouvido:

“E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

Alguns anos depois, vejo que as dúvidas mudaram, mas ainda são dúvidas. Ainda sim a frase do velho permaneceu. É preciso ir.

Por vezes, me sinto incapaz e medroso. Na gana de ir, deixo jardins construídos, mas também destroços de uma guerra que parece não ter fim.

Ainda me perco nas escolhas. Pedir perdão, parece perder a força ao longo do tempo. Ainda sim, é preciso ir.

E se vivemos, boa parte do tempo fora de contexto, Chico Buarque ainda é profeta ao sussurrar:

“E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague”

Foto: Luis Penetra

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