Sobre Não Escrever Um Livro

Algumas pessoas já perguntaram por que de eu gostar tanto de ler e escrever. Ler é herança familiar. Escrever me ajuda organizar os pensamentos.
Por isso tendo a gostar de alguns temas em especial como política, cultura, religião e sociedade. Apesar de escrever bem menos a respeito do que gostaria. Isso, pelo simples fato de reconhecer que há pessoas muito melhores que eu fazendo isso em todas essas áreas.
Tudo o que escrevo é resposta a algum tipo de provocação. Um comentário que ouço, uma leitura, qualquer cena cotidiana. Quase sempre é não-intencional.
Normalmente escrevo sobre três perspectivas. De enxerido, como um desafio pessoal. Para amplificar a voz de outros melhores que eu. E de raiva.
Dois grandes culpados pelo fato de eu escrever são, com certeza, Rubem Alves e Mia Couto. Pra mim, são os mestres da percepção do cotidiano.
Rubem Alves era esse ser totalmente mal resolvido, não com a vida, mas com setores dela. Ele sempre conseguia expandir o cotidiano como se fosse um tipo de armadura e arma de combate contra essa gigante gaiola de ratos que fazemos girar todos os dias. O cotidiano proposto por ele quebra grilhões da mente e da alma, sem dúvida. Nos faz insurgir em tanta beleza, cheiro e sabor. Ele força a percepção. Ou você percebe a vida ou a vida jamais percebera você.
Mia Couto me faz sentir, estranhamente, em casa. Por pura percepção o vejo como um dos melhores discípulo de Gabriel García Márquez e seu famigerado Realismo Fantástico. Cada morte, cada bomba explodida, cada sexo, cada absurdo parece fazer total sentido no caos diário da minha mente. Se você tem idade suficiente, lembra quando a televisão não funcionava direito e você dava um tapa na lateral e tudo voltava ao normal? É mais ou menos assim minha relação com Mia Couto e, menção honrosa, Dostoievski.
Não tenho vergonha de nada do que já escrevi. Tenho o costume de reler as coisas mais antigas com frequência e, muitas vezes, discordo dos escritos. Mas eles tinham um objetivo no momento em que foram concebidos. Se você possui um arranhado faz mais sentido passar álcool e colocar um band-aid em vez de operar. Com a escrita é assim. Quanto maior a provocação, mais profunda a reflexão.
Nisso entra o papel fundamental da leitura que acelera esse processo de provocação e reflexão e da percepção do cotidiano.
Cristo, por exemplo, só faz sentido porque ele pisou, sentiu, cheirou, beijou e sangrou onde escreveu sua história. Por isso tenho uma grande aversão ao pedantismo acadêmico de tantos escritos coerentes, mas que nunca pisaram o chão que tentam descrever. Deve ser por isso que o apelo verborrágico nesse meio é tão importante.
Por que ainda não escrevi um livro? Acho que to prestando atenção demais ao cotidiano.
Mentira. To lutando contra a procrastinação e a falta de foco.

Sobre a Arte de Escrever Um Livro

Há um bom tempo to lutando pra escrever meu primeiro livro. E não é uma daquelas coisas “Escreva um livro, plante uma árvore e tenha um filho”. É uma coisa que me domina mais do que eu domino sobre essa coisa.
Uma das minhas maiores inspirações contemporâneas é, com certeza, Donald Miller.
Há uns 3 anos ele publicou no seu blog um texto sobre a arte de escrever um livro. O Ricardo Alexandre fez o grande favor de traduzir.
Por isso, estou aqui me aproveitando disso pra compartilhar sobre esse “plano de cinco passos” pra você que está na batalha de escrever um livro, pra você que já escreveu e, principalmente, pra você que está sentado confortavelmente lendo um ótimo livro.
Só posso dizer que fico feliz por estar no caminho certo.

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Eu li muitos livros sobre a arte de escrever. Meus favoritos são On Writing Well de William Zinsser, Palavra por palavra, de Anne Lamott e A Guerra da arte, de Steven Pressfield. Todos livros fantásticos.
Pensei, então: vou compartilhar meu plano de cinco passos para escrever um livro. Aqueles livros são legais, mas esta é a verdade verdadeira.
Use-o como achar melhor, mas isso é realmente como o processo acontece:

1. Comece com uma idéia incrível: Saiba em sua cabeça que este livro vai ser um best-seller flamejante e vai mudar o mundo. Irrite seus amigos repetindo sempre essas coisas. Quando eles estiverem muito irritados, resmungue entre dentes em alguma conversa casual sobre como o seu livro coincidentemente responderá à questão em discussão, ou qualquer coisa do tipo. Continue o processo por cerca de um ano antes de começar a escrever. É importante. Continuar a ler

Suspeitas

É engraçado como ela acredita não acreditar em toda crença que ela mesma canta.
Suas conversas com Deus são hilárias. Sempre, do tipo, um happy hour para contar as novidades, agradecer ajudas, falar amenidades e piadas toscas entre alguns conselhos. No final, simplesmente diz: “OK! Hora de ir embora. Você não existe. Mas poderia, por favor, pagar a conta?”.
Corre pra casa, se afunda no confortável sofá com uma xícara de chá quente na mão e pensa sobre o diálogo que acabou de ter. Ou talvez tenha alucinado?
Ela tem um rosto engraçado. Bonito, mas engraçado. Adora conversar sentada ao piano. Está sempre em reflexão. E sempre as coloca em notas maiores em tons sarcásticos, daquelas ironias que só o amor é capaz de causar.
Encarna a aposta de Pascal mesmo sem saber. E, apesar de ter migrado pro outro lado do mundo por acreditar, ainda acredita não acreditar.
É um relacionamento confuso. Mas o tipo de ‘boa confusão’. A melhor definição de Deus é aquela que não O define.
No fim das contas, os grandes questionamentos surgem logo de manhã. Nunca sabe se oferece uma xícara de café, uma conversa sobre o que sonhou na madrugada, os planos do dia, da semana, do mês e do ano ou simplesmente exorciza a sua presença. Essa cumplicidade ofende sua estabilidade.
Sai de casa com uma canção que ela própria compôs.
“Você vai voltar quando acabar. Não há necessidade de dizer adeus”.
Ah, Deus!

Sobre Calçar Os Sapatos de Outrem

Era segunda-feira e caminhávamos arrastando o corpo em direção a sala de aula. 6º, 7º ou 8 série. Não lembro. Na hora da chamada “presente” pra cá, “presidente” pra lá e aquela coisa infantil da nossa idade. A professora chama o nome do Heitor e ninguém responde. Nem me dei conta que ele não estava na sala. Alguém grita “Morreu”. Alguns riem e eu nem esquento. O aluno recebe uma repreensão da professora, mas insiste. “Ele morreu mesmo, fessora. Caiu ontem”. Empalideci. Só então soube que ele tinha tentado roubar uma casa na área rural num bairro vizinho. Levou um tiro na cara do dono da propriedade. Heitor tinha 16 anos.

Era carnaval. Como em quase toda minha adolescência, estava no acampamento da igreja. Voltei pra casa um pouco antes do previsto. Era final de tarde e aproveitei para correr pra rua atrás do futebol. Todo mundo estava lá, menos João que tinha ido no baile no clube perto do bairro. Fui reencontrar João num caixão. Naquela noite havia sido atropelado por um motorista alcoolizado dirigindo um carro de luxo que ninguém nunca mais ouviu falar. Fugiu sem prestar ajuda. João tinha 17 anos.

Marisa era linda. O tipo de garota que eu achava inalcançável na escola. Por termos estudado um ano juntos acabamos ficando próximos. Numa daquelas raras noites de “conversas adultas”, me contou que tinha feito um aborto recentemente. Era o seu terceiro. Dois por abuso de algum familiar e o último por causa de um namoradinho. Marisa tinha 16 anos.

Eu estava na lan house. Computador em casa era luxo. O pivete entrou com estilete na mão me peitando porque tinha tomado um relo de mim e eu não tinha devolvido a pipa. Havia um acordo entre algumas ruas de não levar a pipa de quem perdesse pra casa. Pipa e futebol era coisa séria. Até explicar que ele tinha me confundido com outro cara, quase tomo uma furada.
Tribunal do tráfico rolando. Alguém acusado por outro membro da facção. A ROTA aparece em silêncio. Descarrega as armas e mata todo mundo. Vai embora. A PM chega logo em seguida e organiza a burocracia.Tudo isso há uns poucos metros de um dos nossos campinhos de terra favorito.
Cicero morreu de cirrose ao 15 anos. Alex passou dois anos na FEBEM por assumir crime do irmão. Organizamos a fuga de um amigo pro interior pra não ser morto pelo tráfico e nem pela polícia. Wilson e Antonio tomaram coronhada por não estarem com o café da Polícia Civil em dia.
Pr’além de tantos acontecimentos já conhecidos do cotidiano, periferia vive uma dinâmica própria. Essas são histórias bem próximas a mim que não me causaram quase nenhum mal estar na época. De alguma forma era normal. A vida é assim mesmo e pronto. Só hoje, vendo de longe e de fora, consigo ponderar a complexidade de tudo.
La a vida é conduzida no fio do medo e poder. Em muitos momentos a gente peita porque entende o jogo. Ao mesmo tempo que fazer parte do jogo é colocar o peito aberto pra quem quiser atirar.
As redes sociais fazem a gente entender que comentários e possíveis ações devem, antes de tudo, vestir os sapatos de nossos alvos. Porque é assim que, as vezes, tratamos uns aos outros, como alvos. Não consideramos o outro como ser humano com uma história, um fardo, uma marca.
Já me disseram uma vez “mas você venceu. Porque se preocupa tanto com esse tipo de pauta?”. O que posso dizer é: VENCI O CARALHO. Morri com cada amigo, colega e conhecido da época. Abortei. Fiquei muito louco. Fui abusado física e psicologicamente com cada um.
No fim, só escrevi esse pequeno recorte porque me atrevi a ler os comentários da matéria sobre a chacina de Osasco. Enquanto lá na periferia as pessoas calejam os pés e as mãos, do lado de fora, muitos, cauterizam a mente e o coração.

Premente

Queria estar perto de um aperto seu. Mas só posso rodear palavras não endereçadas. Sem remetente. Esperando sua intromissão em ouvir conversa alheia e se reconhecer. Quem sabe são essas as palavras a entorpece-la. A livra-la do torpe. Daquele que não soube ser em você. Queria ser perigoso. Mas a resiliência é habitação enquanto enxergo de longe. Me é proibido cruzar a ponte. Mesmo que afim de mostrar a fonte de onde, talvez, queira beber. Queria ver um sorriso. Porque, na foto, junto dos dentes amarelos veio o olhar grave. Profundo. Dolorido. Eu vi. Não há prumo. Apesar de sua beleza anestesiar mundo. Mudo, não me faço presente. Me falta embrulho. Surpresa. Ocasião. Talvez fosse só um susto. Mas ainda sim, queria estar mais perto do aperto seu.

 

O Assassinato da Solidão

Soledad Barret Viedma era neta do grande escritor paraguaio Rafael Barrett. Um pouco antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar “Viva Hitler!”. Aos 28 de idade, em 7 de Janeiro de 1973, Soledad foi assassinada grávida na cidade de Paulista, em Pernambuco, no que foi considerado um dos mais bárbaros casos do período da Ditadura. Ela, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi uma das seis pessoas emboscadas no conhecido “massacre da granja São Bento”. Os seis militantes, Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma foram mortos com 14 tiros na cabeça. Conta-se, que ao ser encontrada, Soledad estava dentro de um tonel com o feto a seus pés. A emboscada fora armada por seu esposo, agente infiltrado, cabo Anselmo. O mesmo José Anselmo dos Santos, líder da revolta dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de Março de 1964. Ato que contou com a presença de representantes dos sindicalistas e líderes estudantis, e além do deputado Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta dos Marinheiros de 1910. No dia, Anselmo discursava sobre as “reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis”. Episódio esse, por conta dos desdobramentos, considerado um dos epicentros do Golpe Civil Militar de 64. Carlos Alberto Augusto, nas duas últimas grandes manifestações contra o governo, era saudado como grande herói nacional. Não faltam selfies no Instagram para comprovar. “Carlinhos Metrallha” como ficou conhecido, braço direito de Fleury, foi um dos principais envolvidos nesse massacre cheio de detalhes obscuros ainda. A questão é que esses dias, por conta de tamanha boçalidade nos discursos de muitos, ditos, manifestantes contra o governo, me vi fazendo piadas desse período de trevas da nossa história recente para desqualificar tamanha imbecilidade. Mas chego a conclusão que não vale a pena mitigar algo tão sanguinário por conta de tais. Pensando a história de Soledad e tantas outras vítimas do Regime, não vale a pena rebaixar o nível do discurso e nem abrandar a crítica. O minimo flerte com intervenção militar deveria ser crime. E poderia ser, inclusive, com cumprimento de penas alternativas, como uma boa aula de história. Que Deus nos ajude a não perder a fé, a esperança e a sede por justiça.

Viola, Minha Viola

Não tinha nome de artista.
Tinha nome de mãe, de vó, de tia.
Inezita.
Não tinha papas.
Nem na viola e, muito menos, na lingua.
Tinha histórias.
De rico, de pobre e de pinga.
Aquela marvada que tanto à atrapaiava
E a levava, de noite, pro suador danado.
Cantou a Tristeza do Jeca e costurou muitos retalhos.
Entornava o cardo e rondava a cidade nas noites de sábado.
Mas não tinha conversa.
Sem falta, de domingo a domingo, era a cor e o som das minhas remelas.

Só que ontem foi diferente.
Vó Zita não mais acordou.
A viola chorou. E como chorou.
Choro de saudade. De falta.
Inezita se despedia.
Deixava vida à vida.
E pensando sobre o que sempre dizia
Tenho a impressão que quis dar o golpe do baú.
Para garantir um belo futuro de belezas, histórias e poesia
Casou e fugiu com um tal de José Rico.
Mais uma de suas estrepolias.
Saudade, chica.