A partir da onde os pés pisam

O bairro onde moro em Jundiaí surgiu como um conjunto habitacional ao estilo COHAB, com várias casinhas iguais. Pelo fácil acesso a estrada velha para São Paulo, a Rodovia Anhanguera, população de baixa renda e estar numa região esquecida pela prefeitura, logo o tráfico tomou conta e junto dele uma silenciosa guerra fria com os traficantes do meu antigo bairro, que fica a cerca de 4 km de distância e compartilha das mesmas características, só que mais isolado – quase na zona rural – mas bem desenvolvido, funcionando como pequena cidade independente.
Quase não havia violência entre os rivais. Mas as ameaças eram constantes. As raras brigas que aconteciam se davam do outro lado da cidade, ao redor do principal shopping, onde numa determinada época havia grandes arrastões para roubar os ‘playboy’. Quando as gangues se encontravam, o clima fechava. Deixei de ser roubado e apanhar de uma renca de moleques uma vez porque um dos líderes do bando estudava na minha classe. Com um olhar mais crítico, era tudo muito amador, mas para um moleque sem muita experiência de vida, criado na igreja, foi um tanto quanto assustador – e um aprendizado também.
Alguns anos mais tarde o PCC tomou conta de tudo e o tráfico se unificou, transformando Jundiaí, inclusive, numa das sedes financeiras da organização.
Hoje, meu atual bairro é bem desenvolvido e diverso. Há das casas mais simples até algumas mansões. É um local cheio de idosos e a questão das drogas acaba acontecendo de forma velada em alguns estabelecimentos de fachada. Há, inclusive, um local perto de casa e quase sempre estão ouvindo louvor ou rap cristão. Chega ser engraçado.
Algo fora do padrão em Jundiaí é que, aqui, há poucos bares e raríssimas igrejas evangélicas. Mas são várias as pizzarias, duas igrejas católicas grandes, para um bairro pequeno e moro atrás de um convento. Infelizmente, esse ano não consegui participar das festas juninas.
No escândalo da merenda, que também atingiu Jundiaí, num bairro vizinho, mas bem perto de casa, foi apreendido uma quantidade enorme de alimentos em uma churrascaria antiga na cidade. Alimentos esses que deveriam ser distribuídos nas escolas estaduais. Uma semana depois, a tradicional churrascaria fechou e ninguém sabe dos donos.
Não ouço falar de casos de violência e roubo na região. Mas, vez por outra, a polícia está estourando alguns desses locais de fachada – presenciei de longe um caso hoje à tarde onde encontraram produtos de contrabando.
Acho que pouquíssimas pessoas aqui no bairro se dão conta de tudo isso.
Meu pai sai pra trabalhar quase todo dia 4:30 da madrugada e é estranho como me forço à preocupação pelo horário mas, ao mesmo tempo, por entender a dinâmica do bairro fico em paz por ele.
Por que estou contando tudo isso?IMG_20160727_181406 Toda vez no fim da tarde que sento no banco da praça pra ver o cidade no horizonte e o pôr do sol (foto), me pego pensando – por conta das leituras sobre segurança pública – em como as violências, mesmo que simbólicas, são intrínsecas ao nosso cotidiano – o que não deveria ser. Ou, pelo menos, não deveríamos nos conformar com tal coisa.
E esse é o momento de uma reflexão e uma oração silenciosa em favor da minha família, mas também por aqueles que cruzaram a linha da criminalidade. Acredito que mais do que acumular informações sobre o local onde vivemos é preciso sinalizar possibilidades de mudança. Não sei como exatamente. Mas tô aqui escrevendo e pensando.

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