Para Sempre

Tive de seguir viagem no pensamento. Não aguentava mais uma palavra se quer. Ela falava de si cheia de histórias e de vazios desconcertantes. Nem conto de fadas parecia tão irreal.

Não lembro detalhes daquela noite. Eram os primeiros dias de fevereiro. Sei que garoava. Alguns amigos haviam me convidado para sair, mas eu tinha algumas questões para resolver. Desci a ruazinha paralela à sua casa e esperei. Estava cinco minutos adiantado. Me recostei na árvore do outro lado da rua, no escuro, para não chamar atenção.

Ela apareceu. Estava animada. Parecia uma criança com um brinquedo novo. Segui no seu ritmo a fim de tentar aliviar a tensão do que imaginava ser a conversa.

O tempo passava e parecíamos estar numa conversa daquelas de ponto de ônibus. Divaguei. Não lembro de quase nada. Talvez não quisesse prestar atenção. Achei que haveria alguma coisa de “nós” naquela conversa. Mas era só ela. Confesso a birra.

A volta da garoa me fez despertar do limbo. Percebi pressa na leitura do corpo. Instantaneamente disse “é isso. Eu só queria te ver”. E assim, foi.

Inquieto, voltei no outro dia. A casa estava vazia. A porta aberta revelava a falta de móveis e um senhor desconhecido varria um dos cômodos.

Ela Tinha ido. Sem deixar contato. Sem um endereço. Sem um abraço.

Queria me ver para nunca mais ver.

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