O Anjo da Morte

Quando o anjo da morte chegou eu já o aguardava. Estávamos todos na sala branca. Não havia desespero. Não havia luta entre o bem e o mal. Havia somente dor. Muita dor – a despeito de toda morfina. Uma paz chorosa.
Eu vi a cara da morte quando chegou à porta. Estava claramente assustada. Apesar da falta de ar, havia muita vida naquele espaço apertado.
Conseguiria entrar, permanecer ali e ocupar seu lugar de direito?
Relutante, vi o exato momento em que, arriscando a própria vida, o anjo da morte se jogou sala a dentro. Parecia trazer algemas. Mas ri quando, chegando perto, percebeu que não o seria guarda da prisão mas sim da soltura.
O choro cobriu todas as partes silenciosas do ambiente. Dor aguda aos vivos. Mas liberdade e cura ao corpo entorpecido.
Se foi com um sorriso leve no rosto. Diferente do choro com a qual começara o processo de morrer – o nascer.
Sorriso que desfez o coração de pedra de quem havia sido abandonado tantas vezes. Que fez de destroços, família.
Sei que me encontrarei com o anjo algumas vezes ainda. Espero estar a sua espera das próximas vezes também. E poder ver a cara impagável de assombro de alguém que, mesmo com a sentença de morte na mão, se assusta com tanta vida.

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