Seres Híbridos

Estou terminando de ler (ouvir, na verdade) o livro A Guerra do Fim do Mundo do escritor peruano Mário Vargas Llosa. Lançado em 1981, o autor, depois de uma exaustiva pesquisa por bibliotecas mundo a fora, e de peregrinar por inúmeras cidades do sertão baiano, conta sua versão de Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos.

Llosa ficou impressionado com a leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha e se sentiu impelido a essa empreitada. Entre seus colaboradores nesse projeto estava o escritor e amigo Jorge Amado.

A grosso modo, Canudos se tornou um reduto onde o dinheiro da recém república fora abolido, onde o casamento civil, então, recém instituído fora recriminado e o amor livre apregoado. Onde ninguém poderia dizer que algo era seu. Tudo era de todos.

Todas esses ideais baseados numa leitura penitente e libertária dos evangelhos.

Lembre-se de pensar tudo isso em 1896/97 no sertão nordestino.

Hoje temos a tal bancada evangélica, a CNBB e centenas outras frentes religiosas organizadas e de forte influência política.

Temos o evangélico Cunha a frente da presidência da Câmara, um, seriamente, acusado de satanismo na vice presidência do país e uma, talvez, ateia na presidência. Tudo muito obscuro nesse meio.

Deixo claro que não tenho intenção de fazer julgamento de valor ou especulação nesse post, mas uma curta e simples – talvez, bem simplista – provocação a respeito do nosso atual contexto político / social / religioso, carente, deliberadamente, de aprofundamento acadêmico. Ficarei bem na superfície onde a vista alcança e pode ser um tanto quanto míope.

A questão é, nós somos uma sociedade híbrida. Mas preconceituosa em todos os níveis possíveis e imagináveis.

Falar em esquerda e direita, por mais que até eu o faça, carece de referenciais. Falar da figura evangélica é mais ambígua ainda. Eu tenho meus referenciais mas, na massa, esse reduto parece um chiqueiro. Falar de religiões afros sem saber, por exemplo, que umbanda e candomblé não são a mesma coisa, sendo o primeiro uma versão sintetizada das religiões afros e o cristianismo, e a outra trazida em navios negreiros, muda toda a perspectiva, inclusive da luta racial.

Poderia seguir dando exemplos, mas esses cabem no cerne da questão: quanto mais híbridos e diferentes – o advento da internet deixou isso mais claro do nunca – mais os nossos debates são baseados nos esteriótipos.

São mais de 500 anos de história e me parece que boas questões se perdem em debates engessados sob a tutela de uma história ficcional. Já que as histórias dos vencidos, mesmo hoje, são relegados a carochinha.

Entre possíveis exemplos, é tragicômico o fato de muitos não me entenderem por me identificar como cristão evangélico protestante de preferências políticas socialistas e anarquistas.

Sobre a pureza da minha fé, eu trato nos meus redutos eclesiásticos. Sobre a pureza da minha política (um contra senso, acredito) trato nas minhas relações a quem estiver aberto a troca de idéias.

Por fim, para tratar a religião ou nao-religiao, a política e nossa intervenção social com seriedade, é preciso abrir a tranca de TODAS as gaiolas e tratar o ser humano, olha só, como um ser pessoal. Talvez assim cheguemos próximo de evitar uma guerra civil iminente por não entendermos a infinita variável que é o ser humano.

E esse não é um simples discurso pacificador. Confronto é importante. Mas que seja com a realidade e não com versões dela.

Meus cumprimentos pra você que chegou até aqui e conseguiu entender algo.

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