O Que O Coração Não Vê

Assim que entrei no vagão vi essa mulher cega sentada. Percebi ela vasculhando a bolsa por um tempo até tirar de dentro um fone. Plugou no celular e depois colocou os fones no ouvido.
Fechei o livro que estava lendo e fiquei observando curioso pra entender como ela faria pra ir ao aplicativo de música e como selecionaria o artista.
Tudo era feito na base da aguçada audição. Mas assim que ela começou a tatear o celular, o trem partiu e uma infinidade de ambulantes começou a gritar seu produto a venda.
Percebi ela nervosa. Aparentemente, não conseguia se concentrar para escolher a musica que gostaria de ouvir. Me senti compelido a ajudar mas mantive posição. Afinal, provavelmente, essa não era a primeira vez que lidava com esse caos sonoro.
Uma estação depois ela pareceu relaxar. Chegara ao êxito e eu respirei aliviado. Os ambulantes mudaram de vagão e só o trepidar do trem se fazia ouvir.

Será que na ânsia de vender meu peixe tenho, no fim das contas, atrapalhado a percepção das pessoas a minha volta?
Talvez, essa seja a melhor maneira de lidar com o ego nas relações. Sem gritaria. Em silêncio. Para que o outro possa plenamente se ouvir.

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