O Lar de Um Órfão

A escritora e poetisa norte americana, Marianne Moore, sempre dizia que “o mundo é o lar de um órfão”.
Se você anda por aí de olhos abertos, talvez, assim como eu, é constantemente provocado/perturbado pelos mais diversos tipos de realidade a nossa volta. Invariavelmente, falo por mim, sou confrontado nas minhas atitudes e provado no meu discurso cristão, político, social ou o que for. E não são poucas as vezes que, simplesmente, viro a cara ou mudo a direção pra não precisar ter essa conversa comigo mesmo e ser ‘obrigado’ a tomar algum tipo de atitude coerente e incomoda. Muitas vezes, justifico pra mim mesmo; já me dispus estar em várias cracolândias do Brasil, passei períodos em complexos de favelas, trabalhei com desenvolvimento comunitário e tantas outras ações pontuais. Já doei tempo e muito dinheiro nessas causas.
Mas esses dias li uma história contada pela escritora Anne Lamott que me jogou no chão.

Um menino de 8 anos tinha uma irmã mais nova que estava morrendo com leucemia e precisava de uma transfusão de sangue. Os pais explicaram ao menino que o sangue dele provavelmente era compatível com o da irmã e que, se aquilo fosse verdade, ele poderia ser o doador. Perguntaram se podiam testar o sangue dele. Ele disse que sim. Então fizeram o teste e o sangue se revelou compatível. Depois, os pais perguntaram se ele daria à irmã meio litro de sangue e disseram que aquela poderia se a única chance dela sobreviver. Ele respondeu que precisava pensar durante a noite.
No dia seguinte, o menino procurou os pais e disse que estava disposto a doar o sangue. Então foi levado para o hospital onde o colocaram em uma maca ao lado da irmã de 6 anos. Uma enfermeira coletou meio litro de sangue do menino e, em seguida, começou a transfusão na irmã. O garoto ficou deitado na maçã em silêncio enquanto o sangue gotejava e penetrava na irmã até que o médico foi ver como ele estava. Então o menino abriu os olhos e perguntou: “Quanto tempo até eu começar a morrer”.

Depois de um bom tempo de silêncio, essa história me fez relembrar dois conceitos diferentes mas que, infelizmente, se confundem no (meu) cotidiano; doar algo ou doar-se.
Se o mundo é realmente o lar de um órfão, a devoção em oferecer coisas é o reflexo de uma vida cínica.
Se não me reconheço no próximo, perco minha humanidade, já não sou alguém. Sou algo. E ai tudo se explica. Sob a hipocrisia construo minha vida e não há discurso que evite o mau cheiro da alma.

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