Sobre Não Ser

A beleza e a tragédia do efeito borboleta não está no furacão que ele produz. Mas no seu imperceptível bater de asas.

Uma pergunta comum feita no meio de uma tempestade relacional é “como deixamos que chegasse até aqui?”

De fato, esse era eu encostado no mármore gelado na cozinha da kitnet, olhando-a. Pensando.

Não conseguia expressar uma letra se quer. Tinha a impressão de que qualquer palavra dita nos próximos instantes abriria perpetuamente os portões do inferno. Seriamos condenados a nos relacionar eternamente sob sombras indecifráveis com vozes assustadoras, chão fervendo, cheiro de enxofre em um tipo de sala de espelhos. Assim não teria como não nos vermos. Nem os olhos fechados impediriam isso.

Eu penso em grandes romances como Orgulho e Preconceito. Penso na jornada do herói. Todas as nuances. O ápice da história. O ponto onde tudo muda e converge para que os amantes se encontrem e permaneçam juntos.

Engraçado o fato de acusarmos uma geração, principalmente as mulheres, por acreditarem em contos de fadas, príncipes e princesas, nutrindo, por conseguinte, relacionamentos doentios.

Mas, no fim das contas, nós inquisitores do intelecto, acabamos vivendo em função da Musa. E, nela, não se pode chegar nem perto. As tratamos como princesas poliglotas, artisticas, sensíveis, musicistas e sábias escritoras. Ainda sim, princesas sob o nosso castelo.

Penso que eu devo ser o dragão. Mas não importa. E preciso terminar bem. Esse é o ópio do escritor. Mesmo que seja um final surpreendente, sempre será bom, no sentido da alma. Pode haver um massacre, mas está tudo bem. Há um tipo de alívio inerente.

Mas naquele exato momento num comodo sufocante em que o raios do sol passavam pela janela sem cortina e refletiam um bilho intenso nos olhos raivosos e tristes daquela que um dia eu amei, repenso meus textos. Repenso do começo ao fim. Que maldito egoísta eu sou. Que maldita hora para pensar nisso.

Falta um pouco de ressentimento nos fins. Falta baixa auto-estima. Falta estigma. Falta disparate aos heróis. Algo que não seja encoberto pela ironia ou sarcasmo. Falta um pouco de pura maldade.

E eu só consigo chorar. Eu não amo mais. Não acredito que ela ame também. Talvez nos tenha sobrado um pouco de curiosidade e obsessão. Mas o amor fora arrastado com todos os escombros.

“Como deixamos que chegasse até aqui, desse jeito? Onde estão as borboletas no estomago?”

Eu te respondo. Por queremos ser borboletas, nos enclausuraram, mataram nossa essencia por mais feia que fosse. O casulo se tornou nosso abrigo, nosso único mundo, até que arreganhamos as portas e janelas e deixamos nosso primeiro bater de asas acontecer. Pensamos em Dostoievski e que a “beleza salvaria o mundo”. Mas, no fim, nos esquecemos. Não somos salvadores. Não somos heróis. Somos nós. Aqueles que não deveriam ser.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s