De Carnaval Em Carnaval

Mamãe faria aniversario hoje, cinco de Outubro. E eu estava aqui cogitando sobre escrever ou não. Se sim, o que escrever? Saudade, obviamente. Ainda sim, não saberia expor tudo o que se passa aqui dentro. Então, vou falar um pouco sobre o lado de fora.
Nesse mesmo mês fará 3 anos que ela se foi. Maldito câncer que, assim como do nada veio, do nada a levou. Não à toa Sérgio Sampaio muito cantou: “Eu tenho os dias contados. Um encontro marcado e as mãos na cabeça […] Mesmo eu não estando em perigo, quero que você me aqueça neste inverno”.
E apesar das constantes reflexões, a gente não tem noção real de que a vida acaba do nada. Pode ser um bebê de alguns dias ou um idoso no auge dos seus 100 anos. Mamãe terminou sua jornada um pouco antes do meio.
Morei um ano fora de São Paulo. Lembro que quando voltei pra casa dos meus pais, meu cachorro fez uma festa imensa ao meu ver. Passamos o dia brincando, com ele efusivo. Mas quando mamãe voltou depois alguns dias internada, estava estampado na cara dele a felicidade de vê-la e, ao mesmo tempo, preocupação. Ele sabia o que estava acontecendo. E isso me incomodou muito na época. Porque acho que ele sabia mais do que eu. Afinal, minha mãe era imortal.

No dia da sua morte, corri a trás de tudo para que meu pai e irmãos pudessem descansar um pouco. Escolhi o caixão como se fosse um móvel da sala. As flores pareciam para o jardim de casa. Decoração como se fosse um enxoval. Pelo menos, assim me foi vendido no dia. E a gente fica meio desnorteado com a frieza e passividade/objetividade de como tudo é feito nos bastidores de preparar o corpo gélido para que a família, amigos e desconhecidos venham chorar e se despedir.
Mas entendi logo que quando você faz isso uma dezena de vezes por dia, por vários anos, não tem como ser diferente.
Sérgio Sampaio cantou: “Não ligue, que a morte é certa. Não chore, que a morte é certa. Não brigue, que a morte é certa”.
E, no fim, foi assim que fiz. Não liguei. Não chorei. Não briguei.
Dei bastante risada naquele dia. Obrigado aos amigos que estiverem presente de varias formas. O dia foi cansativo, mas não pesado.
Guardaram o caixão dela num tipo de estante de concreto bem tosca. Ali a gente tem noção de que aquilo é só um corpo em decomposição. Nada mais do que isso. Lembro de pensar que eu me sentiria sufocado se fosse colocado ali, mas na mesma hora me veio a mente de que mamãe tinha morrido de parada respiratória. Então estava tudo certo.
Eu queria sair dali e tomar uma cerveja de leve sozinho num boteco. Mas fui pra casa com a família enfrentar a sala vazia. Um amigo passou a tarde com a gente tomando café, o que foi muito bom para desviar o foco da coisas. Apesar de perceber a primeira falta prática de mamãe, que fazia o melhor café do mundo.
Dormi de exaustão.
Acordei e passei a semana tentando provar oficialmente que minha mãe estava morta, meu pai era viúvo, que éramos órfãos e que tínhamos algumas coisas de seguro para receber (o que no fim das contas, não aconteceu).
Vou te dizer, provar que alguém está morto é pior do que fechar uma firma.
“Oi, minha mãe morreu e estou aqui para fazer a documentação XYZ”. A mulher nem te olha na cara e diz “na outra fila”.
De fila em fila você esquece que esta tratando da burocracia referente a uma pessoa. ‘Alguém’ passa a ser ‘algo’. E, confesso, isso facilita as coisas.
O luto veio 3 ou 4 meses depois. Quando já não tinha mais o que resolver consegui chorar tranquilo. E vou te dizer, como é bom chorar em paz.
Mamãe foi embora cedo. Mesmo que ela tivesse vivido 200 anos, seria cedo. Ela era imortal, não?
Uma coisa interessante nisso tudo é que a morte te ensina algumas regras de etiqueta. Eu nunca sei o que dizer para alguém que perdeu uma pessoa próxima. Mas eu sei o que não dizer. E entre as frases que eu menos gostava de ouvir é, desculpem os amigos bem intencionados, “força, cara”.
Eu sempre pensava “força o caralho”. Ninguém quer ter força nessas horas, por mais que tenha rolado um luto tardio comigo. Mas acredito que quem deveria ter força são as pessoas ao redor. E disso eu não posso reclamar. Os amigos seguraram o gordo aqui sem reclamar e sem cara feia.
A dinâmica da morte é complexa, dolorida e paradoxal. Ela é amorosa e infernal.
E é isso. A vida segue sem freio e sem dó. De carnaval em carnaval. Tem ano que o enredo é festa e, no próximo, saudade.
 
Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval
 
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender
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