Sobre Calçar Os Sapatos de Outrem

Era segunda-feira e caminhávamos arrastando o corpo em direção a sala de aula. 6º, 7º ou 8 série. Não lembro. Na hora da chamada “presente” pra cá, “presidente” pra lá e aquela coisa infantil da nossa idade. A professora chama o nome do Heitor e ninguém responde. Nem me dei conta que ele não estava na sala. Alguém grita “Morreu”. Alguns riem e eu nem esquento. O aluno recebe uma repreensão da professora, mas insiste. “Ele morreu mesmo, fessora. Caiu ontem”. Empalideci. Só então soube que ele tinha tentado roubar uma casa na área rural num bairro vizinho. Levou um tiro na cara do dono da propriedade. Heitor tinha 16 anos.

Era carnaval. Como em quase toda minha adolescência, estava no acampamento da igreja. Voltei pra casa um pouco antes do previsto. Era final de tarde e aproveitei para correr pra rua atrás do futebol. Todo mundo estava lá, menos João que tinha ido no baile no clube perto do bairro. Fui reencontrar João num caixão. Naquela noite havia sido atropelado por um motorista alcoolizado dirigindo um carro de luxo que ninguém nunca mais ouviu falar. Fugiu sem prestar ajuda. João tinha 17 anos.

Marisa era linda. O tipo de garota que eu achava inalcançável na escola. Por termos estudado um ano juntos acabamos ficando próximos. Numa daquelas raras noites de “conversas adultas”, me contou que tinha feito um aborto recentemente. Era o seu terceiro. Dois por abuso de algum familiar e o último por causa de um namoradinho. Marisa tinha 16 anos.

Eu estava na lan house. Computador em casa era luxo. O pivete entrou com estilete na mão me peitando porque tinha tomado um relo de mim e eu não tinha devolvido a pipa. Havia um acordo entre algumas ruas de não levar a pipa de quem perdesse pra casa. Pipa e futebol era coisa séria. Até explicar que ele tinha me confundido com outro cara, quase tomo uma furada.
Tribunal do tráfico rolando. Alguém acusado por outro membro da facção. A ROTA aparece em silêncio. Descarrega as armas e mata todo mundo. Vai embora. A PM chega logo em seguida e organiza a burocracia.Tudo isso há uns poucos metros de um dos nossos campinhos de terra favorito.
Cicero morreu de cirrose ao 15 anos. Alex passou dois anos na FEBEM por assumir crime do irmão. Organizamos a fuga de um amigo pro interior pra não ser morto pelo tráfico e nem pela polícia. Wilson e Antonio tomaram coronhada por não estarem com o café da Polícia Civil em dia.
Pr’além de tantos acontecimentos já conhecidos do cotidiano, periferia vive uma dinâmica própria. Essas são histórias bem próximas a mim que não me causaram quase nenhum mal estar na época. De alguma forma era normal. A vida é assim mesmo e pronto. Só hoje, vendo de longe e de fora, consigo ponderar a complexidade de tudo.
La a vida é conduzida no fio do medo e poder. Em muitos momentos a gente peita porque entende o jogo. Ao mesmo tempo que fazer parte do jogo é colocar o peito aberto pra quem quiser atirar.
As redes sociais fazem a gente entender que comentários e possíveis ações devem, antes de tudo, vestir os sapatos de nossos alvos. Porque é assim que, as vezes, tratamos uns aos outros, como alvos. Não consideramos o outro como ser humano com uma história, um fardo, uma marca.
Já me disseram uma vez “mas você venceu. Porque se preocupa tanto com esse tipo de pauta?”. O que posso dizer é: VENCI O CARALHO. Morri com cada amigo, colega e conhecido da época. Abortei. Fiquei muito louco. Fui abusado física e psicologicamente com cada um.
No fim, só escrevi esse pequeno recorte porque me atrevi a ler os comentários da matéria sobre a chacina de Osasco. Enquanto lá na periferia as pessoas calejam os pés e as mãos, do lado de fora, muitos, cauterizam a mente e o coração.
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Um pensamento sobre “Sobre Calçar Os Sapatos de Outrem

  1. Pois é Rod. E assim se faz o humano. O desumano está atrás dos teclados da vida barbarizando e sendo barbarizando. .. Muito bom… Obrigado pela reflexão

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