Tudo O Que Somos

Uma das músicas que mais gosto do último álbum do Edward Sharpe and Magnetic Zeros se chama Life is Hard. O refrão diz o seguinte:

”Venha celebrar
A vida é dura
Venha celebrar a vida é difícil
Toda a vida é tudo o que somos”

Lendo o artigo “Morrendo na primeira pessoa” da Eliane Brum me vi novamente no quarto do hospital no dia que minha mãe morreu. Eliane cita o livro “Nadando em um mar de morte – memórias de um filho” do analista político David Rieff sobre a morte de sua mãe, Susan Sontag, escritora e ativista norte americana.
Em determinado trecho conta que “era impossível até eu dizer que a amava, porque fazer isso teria significado dizer: ‘você está morrendo”.
Eu conheço exatamente o sentimento. Susan tinha pavor da morte. Minha mãe não, ela sentia muita dor, mas paradoxalmente estava tranquila. Quem estava lidando com o pavor era eu. Ela não estaria mais em casa quando voltasse pra lá. Não sentiria mais o cheiro do seu café. Não teria mais conversas enquanto ela cozinhava e eu lavava a louça.
Depois de um abraço demorado sobre a cama úmida de suor e de ouvir alguns conselhos sob sua voz ofegante, consegui dizer que a amava mais que tudo.
Foi a nossa despedida.
Chorei como criança. Desavergonhadamente.

Não conheço melhor despertar para a vida que a morte. O que, na verdade, é um paradoxo, visto que a eminência da nossa própria morte pode ser esse gatilho.
A frase “Quando eu tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado” é de Ailce de Oliveira Souza, uma senhora com câncer que se dispôs a contar o seu morrer para a jornalista e escritora Eliane Brum.
A morte corrige o relógio de todos a sua volta. O ‘viver intensamente’, por vezes, nos faz perder a hora. Lidar com essa dinâmica, penso eu, é como correr uma maratona. Dimensionar o passo garante cruzar a linha de chegada. O que me parece um outro paradoxo; tratar a chegada como um fim e não um começo.

“As flores tem cheiro de morte”. As mesmas flores que celebram o amor, a felicidade e a beleza. Que bela oportunidade de reflexão diária. Nisso Salomão é taxativo “O coração dos sábios está na casa do luto”.

Não a toa o salmista ora “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.”

Não acredito na dicotomia vida e morte. Eliane Brum cita “A morte não é o contrário da vida, a morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. Ainda sim, me parece impossível ter uma vida com sentido sem uma séria reflexão sobre a finitude e a morte.

Vida e morte não são contrárias. São irmãs.

”Venha celebrar
A vida é dura
Venha celebrar a vida é difícil
Toda a vida (e morte) é tudo o que somos”

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