Corrida

Corria insanamente. Como se fugisse do diabo ou, talvez, da cruz.

Ainda sim, percebia os demônios rondando. Uns convidando para um café e outros para o abismo. Ouvia suas conversas deliciosas e até se precipitava em dialogar. Mas o anseio era não ser encontrado. Não queria ninguém. Queria o silêncio. Queria estar só.

Corria insanamente.
E não havia muro e nem grade. Não havia obstáculo que não pudesse vencer.
Os que observavam de longe achavam que era loucura ou medo. Não percebiam que estava, muito pelo contrário, em seu pleno momento de lucidez. E por isso fazia sentido não se esconder, mas se abrigar. Vivera tanto tempo nos entremeios da escuridão que a claridade, mais do que incomodar a vista, revelava sua alma ao espelho. E isso ele realmente temia.
Por conseguinte a cruz respeitava seus pés apressados e sua ânsia. Ela sabia que sua jornada terminaria com suas mãos e pés pregados no madeiro cruzado. Mas não sangraria. Não sentiria dor. Não morreria. O lugar já estava ocupado. Consumado.
E o combustível da corrida era o fogo. Aquele mesmo da sarça. Que não consumia, purificava.
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