O Assassinato da Solidão

Soledad Barret Viedma era neta do grande escritor paraguaio Rafael Barrett. Um pouco antes de chegar ao Brasil passou pela Argentina e pelo Uruguai, onde foi marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar “Viva Hitler!”. Aos 28 de idade, em 7 de Janeiro de 1973, Soledad foi assassinada grávida na cidade de Paulista, em Pernambuco, no que foi considerado um dos mais bárbaros casos do período da Ditadura. Ela, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi uma das seis pessoas emboscadas no conhecido “massacre da granja São Bento”. Os seis militantes, Eudaldo Gomes da Silva, 26 anos; Evaldo Luiz Ferreira de Souza, 31 anos; Jarbas Pereira Marques, 24 anos; José Manoel da Silva, 33 anos; Pauline Philippe Reichstul, 26 anos e Soledad Barret Viedma foram mortos com 14 tiros na cabeça. Conta-se, que ao ser encontrada, Soledad estava dentro de um tonel com o feto a seus pés. A emboscada fora armada por seu esposo, agente infiltrado, cabo Anselmo. O mesmo José Anselmo dos Santos, líder da revolta dos marinheiros e fuzileiros navais em 25 de Março de 1964. Ato que contou com a presença de representantes dos sindicalistas e líderes estudantis, e além do deputado Leonel Brizola e do marinheiro João Cândido, líder da Revolta dos Marinheiros de 1910. No dia, Anselmo discursava sobre as “reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis”. Episódio esse, por conta dos desdobramentos, considerado um dos epicentros do Golpe Civil Militar de 64. Carlos Alberto Augusto, nas duas últimas grandes manifestações contra o governo, era saudado como grande herói nacional. Não faltam selfies no Instagram para comprovar. “Carlinhos Metrallha” como ficou conhecido, braço direito de Fleury, foi um dos principais envolvidos nesse massacre cheio de detalhes obscuros ainda. A questão é que esses dias, por conta de tamanha boçalidade nos discursos de muitos, ditos, manifestantes contra o governo, me vi fazendo piadas desse período de trevas da nossa história recente para desqualificar tamanha imbecilidade. Mas chego a conclusão que não vale a pena mitigar algo tão sanguinário por conta de tais. Pensando a história de Soledad e tantas outras vítimas do Regime, não vale a pena rebaixar o nível do discurso e nem abrandar a crítica. O minimo flerte com intervenção militar deveria ser crime. E poderia ser, inclusive, com cumprimento de penas alternativas, como uma boa aula de história. Que Deus nos ajude a não perder a fé, a esperança e a sede por justiça.

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