Terra de Ninguém – Sangue e Esperança

Hudea tem 4 anos e mora em um campo de refugiados em Atmeh no Norte da Síria. Ela, sua mãe e dois irmão estão a 150 km de casa, a cidade de Hama. Segundo informações da Fundação Maram, The Olive Tree Camp é um acampamento de refugiados que surgiu durante a ultima grande agitação na Síria. Desde Outubro de 2011 sírios que não conseguiram passar para a Turquia começaram a se estabelecer na região que fica a 10 km da fronteira. Mais de 28.000 pessoas vivem neste acampamento.

O turco Osman Sağırlı foi responsável pela foto chocante que rodou o mundo. Hudea de braços levantados ao confundir a lente telefoto como uma arma.

Conta-se que, na década de 1920, o imigrante polonês Leonard Kaczmarkiewicz adquiriu terras na Serra da Misericórdia, que era, então, uma região rural da Zona da Leopoldina. O proprietário era referido pela população local como “o alemão” e, logo, a área ficou conhecida como “Morro do Alemão”.

O auge da industrialização e a chegada de diversificados comércios, principalmente, no período do primeiro governo de Leonel Brizola, trouxe como consequência um crescimento desordenado que acabou por dar lugar às favelas do Complexo do Alemão.

Eduardo de Jesus tinha 10 anos. Morava nesse campo em estado de sitio na Zona Norte do Rio de Janeiro, muito bem guardado e, dizem por aí, pacificado pela chamada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Na escola aprendemos que “a ordem dos fatores não altera o produto”. No caso de Eduardo alterou. Encontrou o Fuzil antes da câmera fotográfica. Encontrou, antes, a Unidade de Polícia do que a Paz.

Por “sorte” não teve que ouvir da “autoridade” que seu pai era um vagabundo e que, como lhe tinha ceifado a curta vida, poderia também fazer o mesmo com sua mãe.

As primeiras imagens de Eduardo não eram Eduardo. Mas sim um “vapor”. Na verdade, outra criança cooptada pelo crime organizado. Aquele mesmo crime organizado que a própria “inteligência” policial dizia ser um conto de fadas até alguns anos atrás. Mas para fins de justificativa “bandido bom é bandido morto”.

É difícil lidar com a consternação dessas histórias de fins e contextos que parecem diferentes, mas não são. É difícil acreditar que vivo no mesmo mundo que Eduardo e Hudea. É difícil não perder a esperança.

Mas, ao mesmo tempo, seria vergonhoso recuar, minimamente, da luta por paz, justiça e equidade. Mesmo que sejam pequeninas ações. Tão pequenas como a mão das crianças. Seria vergonhoso simplesmente se deixar vencer pelo peso da maldade que, emblematicamente a Pascoa nos lembra, coloca Eduardo, Hudea, você, eu e Jesus na mesma mesa.

Talvez a próxima bala perdida ache abrigo no seu ou no meu coração. Mas acho que seja o momento de darmos um passo a mais em desobediência ao mundo, ao senso comum e correr em direção aos braços da Justiça, que não garante a mínima segurança, mas creio poder trazer paz aos que vem atrás de nós.
É momento de prantear. Não esquecer. E com lágrimas regarmos esse chão duro de terra batida que, muitas vezes, parece ser incapaz de produzir vida. Ainda sim, acredito na Páscoa. Acredito no milagre.

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