Deuses

Uma criança síria levanta os braços pra cima confundindo a câmera do fotojornalista com uma arma. Meio indescritível a sensação de dor e tristeza ao ver a foto.
Um show sensacional que me remeteu aos melhores momentos da minha juventude. Segurando as lágrimas de alegria.
Um pai, enquanto fazia uma ligação, é informado pela segurança de uma loja na Oscar Freire que seu filho, uma criança negra, não pode permanecer ali, confundindo-a com uma vendedora ambulante. Um acesso de raiva.
Uma boa conversa sobre futuro. Esperança.
A morte de alguém. Tristeza.
O nascimento de alguém. Amor.
Uma paixão. Felicidade.
Uma grande saudade. Uma convergência de sentimentos.
Alguns bons conselho. Reflexão.
Desanimo. Cansaço
Uma cerveja gelada. Descanso.
Perder a hora para trabalhar na segunda. Preguiça.

Essas foram algumas histórias que permearam meu final de semana. E acho que, na verdade, essa é a dinâmica da vida de muita gente. Tensão. Intensidade. Expectativa. Mas penso que a grande diferença está em como cada pessoa percebe isso.
Empiricamente falando, minha geração é extremamente traumatizada. Mas, paradoxalmente, parece ter mais disposição ao amor do que para dor. Num primeiro momento, isso parece ótimo. Mas numa (auto) reflexão rápida é possível observar que a disposição ao amor na verdade é mascara de carência. E todo o resto, letargia.
Minha geração consumiu todos os clássicos de auto-ajuda. E muitos se tornaram deuses do dia pra noite. O que me faz lembrar automaticamente das palavras do Leonardo Boff “Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser criança”.

E criança não enrola. Chora até quando é desnecessário. Ama com muita facilidade. E, mesmo na sua fragilidade, se arrisca cada dia mais na vida. Deixa-a solta e observe de longe. Não há Leão que a faça desistir de querer entrar na selva.
Por outro lado, inventamos a pólvora. E na busca das nossas paixões subjugamos tudo e todos ao nosso redor, ao ponto de uma criança, de inocência destroçada, ‘se render’ à lente de uma câmera fotográfica. Isso porque ela não é como muitos de nós que, por nos tornarmos deuses, nos privamos de sentir dor.
Talvez seja a lição que mais precisamos aprender hoje. ‘Como sofrer’, ao invés de fugir.
De braços levantados, muda, a criança diz em alto e bom som: “eu sei quanta dor isso já me causou”. O momento onde toda dor é revelada ao mundo, em vez de permanecer escondida nos porões da alma de deus.
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