Dois Espasmos

Foram dois espasmos. Mas ninguém notou. João era paisagem cinza, encostado no muro. Chapisco. Incrustado no mundo.
Era somente mais um bêbado. A baba branca devia ser raiva. A barba branca, quem sabe das suas histórias?
Somente a morte da filha nos tempos áureos da vida lhe dera um aperto tão forte no coração. Um soco de realidade que lhe retirava o sopro – o fôlego.
Fora notado na manhã seguinte. O vagabundo não acordara do seu sono debaixo da marquise do banco. A imagem de Deus jazia sem tumba no chão.
E John Donne se iludiu. Eu não pergunto por quem os sinos dobram. Dobraram por João, mas eu nem percebi.
Foram dois espasmos. Dois pequenos espasmos.

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2 pensamentos sobre “Dois Espasmos

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