Gilvado – Aquele Preto Nordestino

Passei boa parte da minha vida num bairro periférico no interior de SP. Por muito tempo considerado um dos lugares mais perigosos de Jundiaí. Mas isso, como sempre, mais aos olhos de quem não era da vizinhança. Em geral a vida era tranquila. Eu sabia quem era mocinho e bandido. A maioria dos que acabaram na criminalidade, desde pequenos furtos ao tráfico de drogas, haviam estudado comigo desde a infância ou tive algum contato nos frequentes campeonatos de futebol da vila.
Lembro certa vez, eu tinha 16 pra 17 anos, voltando do principal shopping center da cidade com um amigo, fomos cercados por umas trinta pessoas querendo nos assaltar. Era uma época em que ocorria muitos arrastões. Fui salvo quando um dos líderes do movimento me reconheceu. Éramos da mesma sala do terceiro ano. Mandou todo mundo se afastar e me liberar. Pediu desculpa e deu a rota mais segura pra voltar pra casa.
Eu morava numa rua sem saída. Perfeita pra jogar “golzinho” com os amigos. Sempre a mesma galera nos fins de tarde, fizesse chuva ou sol.
Certa vez um rapaz na casa dos 25/30 anos apareceu pra jogar com a pivetaiada. Eu devia ter uns 14 anos. Não vimos problema e assim foi. Ele começou aparecer com frequência, sempre com uma roupa suja de cimento e chapisco. Como não o conhecíamos resolvemos procurar saber qual era a dele.
Havia chego há uns 2 meses do interior de Pernambuco. O pai havia falecido e não tinha mais ninguém como família. Vendeu o que tinha, comprou uma passagem para São Paulo e, sabe lá Deus porque, veio parar no nosso bairro.
Descobrimos também que ele, até então, ainda não havia conseguido um lugar para morar. Por isso dormia meio escondido do dono na obra onde trabalhava como servente de pedreiro fazia pouco tempo.
Terminado o futebol fomos com ele até onde estava ficando, umas duas ruas para baixo da nossa. Um dos meus amigos perguntou se ele tinha alguma coisa pra comer. Disse-nos que já havia comido. Desconfiei que, apesar do trabalho duro, provavelmente não tinha nem almoçado. Ainda não havia recebido o primeiro salário e duvido que o pedreiro ou o dono da obra soubessem da sua exata condição.
Subi correndo pra casa e falei pra minha mãe, que estava preparando a janta, se ela podia fazer uma marmita. Ela achou estranho mas não questionou. Peguei uns pacotes de bolacha e levei pra ele e os amigos. Ficamos conversando e comendo.
Givaldo aparecia sempre pro futebol e revezávamos na marmita da janta dele por um tempo. Depois da pelada sempre rolava um papo e mastigávamos alguma coisa. Pouco tempo depois alugou um muquifo. Conseguira um emprego mais tranquilo mas de horários alternados. Nisso aparecia raramente. Em alguns meses perderíamos total contato com ele.
Voltei a vê-lo quase 3 anos depois. Mantínhamos o futebol firme e forte na rua, principalmente nos finais de semana. Estava com um voyaginho e parou com o carro no meio do nosso campo de asfalto. Quando íamos tretar com ele, reconheci seu rosto. Já não morava mais no bairro e levava sua pobre vida com dignidade de empreendedor. Estava trabalhando com entregas, por conta. Como estava no bairro resolveu passar para dar um alô. Nos agradeceu muito a força que havia recebido naqueles dias difíceis e prestes a chorar, começou contar piadas toscas como só ele fazia. A gente queria chorar, mas ria descontroladamente. Desde então, nunca mais o vi.
Aquela história me fez pensar que era a primeira vez que eu me dispunha de forma prática a ajudar alguém com sinceridade. Compaixão, enfim, fazia sentido. Aprendi também o significado de resiliência, mesmo sem saber da existência dessa palavra naqueles dias. E que bairrismo só é bom se for inclusivo.
Mas uma coisa me marcou muito na época e me fez dar devido valor também a história do meu pai. Quando a professora na escola falou sobre o êxodo nordestino, não era mais um amontoado de números, datas, estatísticas e nomes de cidades. Ele tinha um rosto, uma história e um nome, Givaldo. Pernambucano (como meu pai), pobre, preto e, hoje, empreendedor.

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