Estava Nu e não se Envergonhava

Vi um garoto andando nu na avenida mais conhecida do país. A Paulista. Era por volta da meia noite e estava frio. Mas ele não parecia se preocupar ou sentir. Andava confiante e sem tremer mantendo uma conversa compenetrada consigo mesmo. Algumas poucas pessoas sentadas em bares ou passeando com seus cachorros observavam e sorriam sem deboche. Era uma cena inusitada que transmitia uma certa alegria. Ele sentou-se encostado numa banca de jornal do lado do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Continuei minha caminhada a passos lentos até parar completamente ao perceber um carro da PM se aproximando. Do outro lado da avenida, algumas pessoas sacaram seus celulares e começaram a gravar a abordagem policial. Para minha surpresa chegaram calmos e conversando com o jovem como se fossem velhos amigos. Mesmo ouvindo de longe e baixo, não percebi ironia e sarcasmo no tom da voz. Um dos guardas tentou ajuda-lo a levantar mas ele recusou. Fiquei tenso com a possível reação. Os policiais nada fizeram. Continuaram a conversar. “Sei que preciso ir e vou. Meu corpo só precisa respirar um pouco mais” disse o homem nu. Incrivelmente os PMs deram as costas e seguiram em direção a viatura. Um se sentou no banco do motorista e o outro abriu a porta de trás como um chofer e assim permaneceu. O homem nu continuou sentado por alguns minutos mais. De repente seguiu engatinhando em direção a viatura. No meio do caminho, num pulo ágil, ficou de pé em passos novamente confiantes. Agradeceu o policial e entrou na viatura. “Que loucura! Não sei explicar o que acabou de acontecer aqui” alguém comenta do meu lado. Tive de concordar. Continuando meu caminho pra casa fiquei pensando sobre tudo aquilo e me lembrei de algumas palavras de um texto incompleto que havia começado dias atrás. Sozinhas elas não faziam muito sentido e nem delineavam um caminho, mas pareciam caber como uma luva à razão e o coração daquela situação. “É dificil explicar o sol pra que não sai de casa. É dificil falar sobre a sensação de andar na chuva para quem não se permite nem colocar a roupa no varal.”

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