Uma Flor Chamada Jasmim

Conheci Jasmim no ônibus voltando de Paraty no Rio de Janeiro. Uma negra linda de dreads, sandália, calça de saco e bata. Sentamos no fatídico banco na frente do banheiro. Assim que cheguei na poltrona ela me perguntou se eu tinha curtido a cidade. Respondi que estava exausto e feliz com o role. Havia me divertido muito. Não seguimos conversa porque os dois estavam literalmente morrendo. Apagamos mais da metade da viagem até não aguentar mais o entra e sai das pessoas no banheiro e uma criança manhosa infernizando nossos ouvidos.
Em São José dos Campos ela me perguntou se já estávamos no Tietê e respondi que não. Perguntei de onde ela era. “Algo difícil de responder a essa altura do campeonato”, me disse. E complementou “faz tempo que não tenho um lugar pra chamar de casa. Muito tempo na estrada já”.
Quis saber do porque ela estar indo para sampa e me disse que tinha conseguido um pico de um amigo de um amigo para ficar e poder se organizar pra seguir viagem, muito provavelmente Espirito Santo e Bahia.
Me contou um pouco dos seus roles e disse que não tinha motivo nenhum para estar na estrada. “Talvez eu esteja viciada nela e no que estou aprendendo. Mas não estou fugindo de nada se quer realmente saber”.
Nossa conversa era interrompida por vários SMS que recebia. A cada som de mensagem que chegava ela ficava mais e mais empolgada. E quando lia, dava sorrisinhos contidos e me pedia desculpa pela interrupção. Eu me divertia.
Uma hora respondi de intrometido que quando a gente estava apaixonado era assim mesmo. Ela riu gostosamente. Me contou que a pessoa da mensagem tinha mexido com todas as estruturas dela, mas que decidira continuar na estrada porque sabia que a peregrinação ainda não tinha terminado. “Sabe, talvez eu nunca mais o veja. Mas o amor dele me salvou de muita piração por ai.”
Continuamos conversando sobre amenidades. Falei um pouco da minha vida e dos meus anseios. Fiquei pensando comigo mesmo, como é fácil compartilhar a vida com quem aprendeu a compartilhar sem muitas restrições. Alguem que aprendeu a ouvir e a falar no momento correto. Dar e receber. Tudo flui naturalmente sem segundas intenções ou pés atrás.
Chegamos em São Paulo e não nos despedimos. Peguei a mochila e quando vi ela já tinha ido. Bem como havia me dito. “Na estrada a gente nunca se despede. Aprendi isso com ele”, me disse certa hora apontando para celular.
“Aprendi também o que é amor, nessa andança. É um negócio que te deixa desvirtuado mas só pra salvar sua vida”.
Jasmim é o tipo de pessoa ‘pop up’ que Deus coloca na nossa vida. Trás uma porção de sabedoria e algumas setas de indicação de rota. E assim como vem, se vai.
Que bom que não nos despedimos. Talvez um dia eu possa agradece-la por manter minha fé acesa nas longas caminhadas, sem lenço e sem documento.

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